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Crónicas e opinião

Está a gostar do resultado do trumpismo no seu bolso, caro leitor?

João Mendes

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O preço dos combustíveis bateu todos os recordes esta semana. Está no valor mais alto de sempre em Portugal. E, em breve, arrastará consigo outros preços, nomeadamente o da comida, e dos bens de primeira necessidade em geral, a que se seguirá o aumento dos juros da dívida, dos empréstimos à habitação, dos materiais de construção e de praticamente tudo o que envolve petróleo. Ou seja: tudo.

Os avençados da internacional neofascista, escudos humanos do presidente mais corrupto da história dos EUA, vão fazer aquilo para que são pagos e tentar convencer-nos que esta escalada dos preços é culpa dos impostos, do socialismo, das ideologias de género, da comunidade LGBT e de todos os papões que habitualmente agitam e que, estranhamente, ainda hipnotizam muitas pessoas e lhes sugam toda a réstia de noção.

Mas a resposta para este nada estranho caso é muito simples: os preços dos combustíveis estão sob pressão desde a pandemia e desde que Putin decidiu anexar a Ucrânia pela força. Mas as aventuras colonialistas de Netanyahu e Trump no Irão levaram o problema para outro nível. E não o fizeram porque o Irão representasse uma ameaça existencial a qualquer um dos países. Aliás, foi Trump quem rasgou o acordo firmado entre o Ocidente e o Irão, que nos permitia monitorizar o seu programa nuclear e que deu ao mundo um período de tranquilidade sem precedentes naquela zona.

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Mas a tranquilidade, no Médio Oriente, não serve os interesses económicos americanos nem as aspirações expansionistas de Israel, cujo plano passa por ocupar pedaços de estados vizinhos, não apenas da Palestina, mas da Jordânia, da Arábia Saudita, Líbano, Síria, Iraque e Egipto.

E como Trump é um mentecapto sem competência para gerir uma junta de freguesia, quanto mais uma superpotência como os EUA, deixou-se levar pelas balelas do regime assassino de Netanyahu, achando que o Irão era Cuba ou a Venezuela, que tomaria uma civilização milenar em dois dias e que matar o ayatollah faria com que todo o regime se rendesse.

Mas isso não aconteceu. E qualquer pessoa que conheça a história recente do Irão percebe porquê. Os ayatollahs são guias espirituais. Mas o poder reside na IRGC, também conhecida como Guarda Revolucionária Iraniana. E quando Trump matou alguns dos seus líderes, não ficou em posição mais vantajosa. Limitou-se a garantir que lideranças mais experientes e “sensatas” seriam substituídas por jovens ultra radicais, dispostos a tudo para vingar as mortes dos seus superiores.

O resultado está à vista.

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Graças às decisões infantis e irreflectidas de Donald Trump, temos, pela primeira vez, o Estreito de Ormuz fechado. Nunca tinha acontecido. EUA e Irão sempre foram inimigos mortais, mas nunca o Irão usou o estreito com arma. Talvez porque nunca teve essa necessidade. Ou porque nunca foi empurrado para essa “solução”. Mas EUA e Israel trataram de lhe oferecer esse trunfo numa bandeja. E uma arma para o futuro. Agora, todos pagamos a factura.

Todos?

Não, claro que não.

A indústria petrolífera esfrega as mãos. O complexo industrial-militar americano rejubila com o aumento das encomendas O gangue de corruptos que orbita em torno de Trump fez milhares de milhões em esquemas de short selling, usando para o efeito informação privilegiada transmitida em primeira mão pelo próprio Trump, que também duplicou a sua fortuna no primeiro ano e meio à frente da Casa Branca. À beira destes delinquentes, José Sócrates é um porta-chaves no bolso das moedas.

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E como um mal nunca vem só, ao fecho do Estreito de Ormuz junta-se agora o fecho do Estreito de Bab el-Mandeb, controlado pelos Houthis, um dos proxys do regime iraniano.

Porque é que isto importa?

Porque, com o Golfo Pérsico fechado no Estreito de Ormuz, restava a opção de escoar petróleo, sobretudo saudita, através do Mar Vermelho. Mas essa solução contava com a oposição dos Houthis, que mais do que serem vassalos de Teerão, são inimigos dos sauditas na guerra civil do Iémen. Vai daí, destruíram o oleoduto que transportava o petróleo saudita dos campos do Golfo para o Mar Vermelho, ocuparam costa oeste do Iémen, assim como as ilhas de Hanish e Mayyun, e transformaram a Arábia Saudita, segundo maior exportador de petróleo do mundo num landlocked state, ou estado sem litoral, apesar da longa costa que banha o país. Mais uma arma, até aqui inexistente, nas mãos do Irão, neste caso dos fantoches Houthis.

E tudo isto graças a Trump.

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Trump conseguiu, portanto, uma proeza que nem a guerra Irão-Iraque tinha conseguido. Durante o conflito, que se estendeu durante quase toda a década de 80, a circulação no Golfo e no Estreito de Ormuz esteve condicionada, foram colocadas minas na zona e alguns navios chegaram mesmo a ser atacados, mas nem aí o fluxo parou completamente. Só mesmo Trump, para conseguir fazer o pleno do desastre.

O resultado, claro, tem sido mais instabilidade no Médio Oriente, mais mortes, mais devastação e um aumento de preços sem precedentes, que nos afectam a todos, sobretudo para quem tem que contar os trocos até ao final do mês. Não é o caso dos amigos e oligarcas em torno de Trump. Para esses, o momento é de aumento substancial da riqueza. Para estes, vale tudo, incluindo o casamento de Donald Trump Jr., filho do presidente e oligarca desta administração, ser financiado por Umar Kremlev, oligarca russo do círculo mais próximo de Putin.

Sejamos sérios: os preços na Europa não sobem por causa das opções políticas no Velho Continente, quem tem governos de esquerda e direita, conservadores, socialistas, populistas e liberais. Sobem porque Donald Trump, sem necessidade alguma de o fazer, decidiu atacar o Irão e mergulhar o planeta no caos. É esta a razão, factual, para o assalto de que estamos a ser alvo.

Se existem outros a lucrar com isso?

Com certeza que sim.

Quando o leão se farta de comer a zebra, logo surgem as hienas para rapar os ossos.

Mas a origem do problema, o causador da crise económica, financeira e social em que vivemos, e que o deixou mais pobre, mais aflito e com mais mês que salário chama-se Donald Trump. Lembrem-se disso, da próxima vez que ouvirem André Ventura a venerá-lo. Se fosse Obama ou Biden a decidir atacar o Irão, não estaríamos a ter a mesma conversa. Da próxima vez que atestar o depósito do seu carro, e ficar enervado com o preço, não se esqueça de agradecer a Donald Trump.

Artigo de opinião de João Mendes

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