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Crónicas e opinião

Devoção a Nossa Senhora das Dores em Portugal

António Costa

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O culto (devoção) à Nossa Senhora das Dores terá iniciado no ano de 1221, no Mosteiro de Schonau (Alemanha). Em 1239 esse culto, já como uma celebração mais estruturada espalhou-se pela Itália, em Florença, através da Ordem dos Servos de Maria (Servitas). A partir do século XV até ao século XVIII espalhou-se por toda a Europa. O primeiro formulário litúrgico oficial viria a surgir em Colónia, em 1423, e a festa passou por várias datas até ser promovida de forma mais ampla na Igreja Católica.

A introdução definitiva do culto à Mater Dolorosa, em Portugal, deveu-se à Rainha D. Maria Ana de Àustria no início do século XVIII. No entanto, foram os membros da Congregação do Oratório (chamados Oratorianos de São Filipe Néry), os grandes impulsionadores e propagadores desta devoção pelo território nacional, seguindo a seqência exacta de fundações das suas casas religiosas, construindo altares com a imagem de Nª. Srª das Dores e erigindo Confrarias nas cidades principais de Portugal, como Lisboa, Porto, Braga, Freixo de Espada à Cinta…

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E como é que esta devoção chegou à pequena freguesia(à época) de São Martinho de Bougado?
Após a sua ordenação sacerdotal na Sé do Porto, Inácio Morais Sarmento Pimentel, sendo ele oriundo de uma família devota de São Martinho de Tours mas também de Nossa Senhora das Dores, resolveu especializar-se nesta área – da pregação do culto à Mater Dolorosa- e ingressou na Congregação dos Oratorianos, cuja sede- convento se situava no centro da cidade do Porto. (Nota: Para melhor situarmos o local do mosteiro, ao sair da estação de São Bento aparece-nos quase de frente a Igreja de Santo António dos Congregados). Foi nesse antigo convento, de que hoje só resta a igreja, que o Abade Pimentel se preparou para “pregar” o culto à Mãe das Dores.

Terminada a “formação/especialização” Inácio Pimental iniciou a sua actividade de difundir, “propagar e pregar”a devoção a Nossa Senhora das Dores, primeiro na sua terra natal, (e na freguesia vizinha de Santiago de Bougado, também ela incluída nas “Terras da Maia”) e depois pelas freguesias dos concelhos limítrofes da área de Entre-Douro e Minho (Famalicão, Vila do Conde, Paços de Ferreira, Lousada, Penafiel, etc).

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Entretanto, tendo tomado posse da paróquia da sua terra natal no ano de 1750, depressa resolveu pedir ao Bispo do Porto “licença para erigir uma capela dedicada a Nossa Senhora das Dores, no alto do monte da Carriça”, na altura um local ermo, sublinhando que havia na sua freguesia muita devoção à Virgem das Dores… Isto aconteceu no ano de 1766. E passados 260 anos, voltamos a “memorizar” e a celebrar a devoção, o louvor, a honra à Virgem das Dores e a gratidão aos fundadores.

As comemorações não se fazem em razão de “lembrança” de datas (efemérides) porque elas já são tantas que quase chegam à “vintena”, tais são os motivos de celebração, que podemos referir, sem sombra de dúvidas, de que se trata mesmo de “IMPORTANTES E SOLENES JUBILÉUS”.

De entre essas mesmas datas, são dignas de registo as seguintes:

Ano de 1696, nascimento do Abade Inácio Pimentel na freguesia de São Martinho de Bougado (com celebração do 330.º aniversário este ano de 2026). Ano de 1720 : Ordenação sacerdotal.

1723- Ano do ingresso na Congregação dos Oratorianos (de São Filipe de Nery), no Porto
1750 – (6 de outubro): Tomada de posse como Pároco (e abade) da paróquia de São Martinho de Bougado.
1766 – Petição ao bispo do Porto para erecção de uma capela em honra de Nª Sª das Dores
1817 – “Decreto régio” ou “Despacho Real” de “El Rey D. João VI” para autorização de realização de “Feira “franca no “Sítio do Monte da Carriça” (recinto das festas) , na “Terça Dominga e Segunda Imediata” do mês de Agosto. De salientar que foi com base nesta autorização “régia” que os fregueses de S. Martinho de Bougado se recusaram a abdicar da realização das festas aquando do chamado “Interregno” (forçado) da Romaria, (entre 1943 e 1952), apesar da Bula do bispo ter proibido todos os actos religiosos (Missas na Capela e Procissão).
1879 – Construção da capela (actual) a “expensas” (pagamento da totalidade das despesas) pelo Conde de São Bento, um grande amigo benemérito tirsense, que, mesmo depois de ter custeado todas as obras da construção do templo continuou a apoiar os festejos, sendo , durante vários anos o “juiz” das Comissão das Festas.
1924 – Ano em que se incorporam na Majestosa Procissão da Sra. das Dores 10 andores (enfeitados), tendo entre eles (segundo um jornal da época) um, “o da Senhora” (patrona da festa), com 28 metros de altura. Ocorreu, no pretérito ano de 2024 a comemoração do primeiro centenário deste “feito”, que orgulha todos os trofenses e devotos.
1966- Comemoração do bicentenário da fundação da 1ª capela em honra da Nª Sª das Dores, um grande acontecimento que envolveu toda a freguesia .
2016- Celebração do grande Jubiléu dos 250 anos da fundação e festas.
2023 – Ocorre neste ano a celebração do Tricentenário da grande devoção à “Virgem Dolorosa”. Pode-se considerar,- sem rodeios e acima de qualquer suspeita, este ano de 2023 como sendo, talvez, o maior dos jubiléus da história da Romaria da Senhora das Dores da Trofa, já que é o corolário de todas as maiores celebrações de que há memória: A devoção à Mater Dolorosa está hoje no patamar cimeiro de todas as honras e louvores, nestas “Terras Antigas da Maia”, na região de Entre-Douro e Minho e, quiçá, na Zona Norte de Portugal, tal como foram apelidadas no passado por alguns autores/cronistas bem conhecidos nos meios cultural, livresco e histórico, e tudo isto graças a muitos trofenses, de febra e de garra, que desde há pelo menos três centenas de anos nos transmitiram a grande dedicação, fervor e veneração.

Nós, trofenses, sentimo-nos honrados e reconhecidos, mas não é favor nenhum, porque pode haver muitas capelas e devoções à Nossa Senhora das Dores… mas, Senhora das Dores, é da Trofa, … e será sempre… única!

Crónica de António Costa

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