Crónicas e opinião
Memórias e Histórias do Vale do Ave: Do Muro às fileiras da GNR: a história de Aníbal Carneiro Carvalho
Há encontros que só os arquivos nos proporcionam. Entre centenas de nomes, datas e percursos de vida, surge uma referência que nos faz parar e olhar com outra atenção. Foi isso que me aconteceu quando, no decurso das minhas investigações históricas, encontrei, entre cerca de 1300 processos individuais, o registo de matrícula de um homem natural da freguesia do Muro. Chamava-se Aníbal Carneiro Carvalho e integrou a Guarda Nacional Republicana nas primeiras décadas da sua existência.
É uma pequena parte da história deste nosso burgo que assim se revela. Uma vida que talvez tenha passado despercebida à memória coletiva, mas cujo percurso ligou uma freguesia da atual Trofa aos campos de guerra em França e, mais tarde, ao serviço na GNR.
Aníbal nasceu no dia 9 de junho de 1895, no lugar da Igreja, na freguesia do Muro. Era filho de José Carneiro Carvalho e de Elisa Ferreira Torres, aparentemente também naturais da mesma freguesia. Antes de ingressar na vida militar, trabalhava como jornaleiro: uma profissão marcada pela dependência do trabalho disponível e pela incerteza do rendimento. Terá procurado na carreira militar uma oportunidade de maior estabilidade? É uma hipótese, mas os documentos não permitem conhecer as razões pessoais que orientaram essa mudança.
O que sabemos é que a Primeira Guerra Mundial o levou para longe da sua terra. Integrado no Regimento de Cavalaria n.º 9, embarcou para França em 15 de maio de 1917, ainda antes de completar 22 anos. No seu registo, a partida ocupa apenas algumas palavras. Para o jovem do Muro, porém, representou a entrada numa etapa da vida cujas experiências não conseguimos reconstituir apenas através das datas.
O regresso a Lisboa aconteceu em 6 de maio de 1919, vários meses depois do fim do conflito. A documentação consultada não esclarece as circunstâncias desse intervalo. Fica a data do retorno e fica, também, o silêncio sobre aquilo que trouxe consigo da guerra. Os processos individuais permitem acompanhar deslocações, colocações e tempo de serviço, mas raramente nos dizem como os seus protagonistas viveram esses acontecimentos.
Depois da experiência militar, Aníbal continuou ligado ao serviço do Estado, ingressando na Guarda Nacional Republicana. O seu percurso passou por diferentes secções, aparentemente na cidade do Porto, onde acabaria por fixar residência. À vida do antigo jornaleiro e combatente juntava-se, assim, uma nova ocupação, que manteria durante os anos seguintes.
Foi também neste período que constituiu família. A informação reunida situa o casamento com Margarida Pereira da Rocha num dia 19 de fevereiro, entre 1919 e 1920, permanecendo por esclarecer o ano exato. Poucos meses depois nasceria a filha do casal, Amélia Rocha Carneiro.
Entre os registos de serviço, estes dados deixam entrever outra dimensão da sua vida: a de marido e pai.
Aníbal permaneceu ao serviço da GNR até março de 1935, ficando a residir na freguesia de Paranhos. Viria a falecer em Cedofeita, em 1980. Entre o nascimento no Muro e a morte no Porto decorreram cerca de oito décadas, durante as quais a sua vida atravessou a guerra, o serviço militar, a atividade policial e a construção de uma família.
Trazer este percurso às páginas de um jornal local é devolver um nome à história da terra onde nasceu. A memória da Trofa também se faz destas vidas, dispersas por arquivos e por lugares para onde os seus naturais partiram. Entre cerca de 1300 processos, o de Aníbal Carneiro Carvalho recorda-nos que, por vezes, basta uma referência à nossa freguesia para abrir uma janela sobre um passado que ainda temos muito para conhecer.
Crónica de José Pedro Reis


