Dois mil e catorze chegou ao fim. Um ano que, para não variar, foi de crise para a maioria e da habitual festa para os suspeitos do costume. Entre as prescrições da criminalidade bancária e o crescimento e multiplicação dos boys governamentais, o número de milionários aumentou 30% face a 2013, o governo garantiu o aumento das despesas intermédias dos ministérios num Orçamento de Estado cada vez mais magro e as mordomias das elites governantes mantêm-se praticamente intocáveis. Pelo caminho, os índices de corrupção continuam preocupantes, a pobreza alastrou e a mentira da descida do desemprego foi exposta pelo Banco de Portugal que revelou um golpe de propaganda que mais não foi do que uma feliz conjugação entre uma emigração galopante e um plano para usar estágios profissionais criados pelo governo para aldrabar estatísticas e dar conteúdo a vídeos de propaganda.

O plano de austeridade chegou ao fim e a retoma foi decretada, mas a realidade mostra-nos que só conseguimos ir aos mercados pela mão do Banco Central Europeu e que os nossos passos continuam a ser monitorizados pela Troika. A economia mantém-se débil, o anunciado crescimento das exportações é alicerçado em meia-dúzia de grandes grupos económicos sem impacto significativo na economia real e na vida das pessoas e a anunciada reforma do Estado continua a resumir-se ao aumento dos impostos, aos cortes salariais e em pensões e ao emagrecimento do Estado Social. A par de tudo isto, as privatizações que Passos Coelho garantia não serem necessárias em 2011 foram convertidas em renacionalizações, maioritariamente atribuídas a empresas estatais da China, uma ditadura de partido único. 

A justiça continua a ser ilustrativa da realidade portuguesa. Se é verdade que a prisão de Sócrates é histórica, apesar dos contornos de reality show, não é menos verdade que o arquivamento do caso dos submarinos, a impunidade total do caso BPN, anedota que foi o caso Tecnoforma ou os vistos Gold, que levaram à justiça alguns pequenos peixes deixando os tubarões imunes, nos demonstram que precisamos de um exército de juízes como Carlos Alexandre para limpar o entulho e castrar, de uma vez por todas, a corrupção e o tráfico de influências.

Lá fora assistimos a uma crise na fronteira do antigo império soviético, que nos foi vendida como uma pura e simples agressão de Moscovo a Kiev quando na realidade foi também precipitada por outros factores, com espionagem norte-americana e pressão diplomática europeia à mistura. Guerra Fria. Ali ao lado, no turbulento Médio Oriente, ergueu-se o perigoso e radical Estado Islâmico e a violência parece não ter limites. Na Europa, os movimentos anti-sistémicos começam a ganhar terreno às organizações políticas tradicionais, esgotadas na sua própria inércia, e é expectável que o Syriza e o Podemos saiam vencedores das legislativas de 2015. No Vaticano, o Papa Francisco transformou-se num revolucionário improvável e sem precedentes, trazendo consigo um discurso sagaz e corajoso que instigou o não-conformismo, incomodou os grandes lobbies e rejuvenesceu um Vaticano estático e cinzento.

Deixarei a realidade local para o meu próximo artigo, não sem antes vos desejar um 2015 próspero e pleno de realizações. Um abraço forte deste vosso conterrâneo, com a certeza que a esperança será sempre a última a morrer e que o futuro será sempre aquilo que nós quisermos. A mudança estará sempre nas nossas mãos.

(este texto foi escrito ao abrigo da língua portuguesa que aprendi na escola)

João Mendes