Crónicas e opinião
A Farsa Cristã
A maior farsa política e religiosa do nosso tempo é a de um conjunto de alegados cristãos, que se apresentam muito pomposamente nas redes sociais como defensores dos valores, da herança e da matriz judaico-cristã, da família ou da vida, para depois passarem o dia nas redes sociais a insultar quem discorda do seu partido, da sua mundivisão ou da sua ideologia.
Eu não sei em que catequese estas pessoas andaram, a que missas assistiram e que padres se cruzaram com eles, mas seria importante que alguém lhes explicasse que desejar a morte de um adversário, insultá-lo por pensar diferente e desejar, por exemplo, que manifestantes sejam encostados à parede, eufemismo para fuzilamento, não são apenas contrários aos ensinamentos de Jesus Cristo. São a sua negação. A sua antítese. É possível que algumas destas pessoas andem baralhadas e pretendam rezar, eventualmente, a Satanás. O que lhes sai da boca é demoníaco.
É também possível que muitas destas pessoas se assumam cristãos e católicos por uma questão de aparência. Gostam de desfilar roupas ao Domingo, na missa das 11h, gostam de se dizer muito devotos, “porque fica bem”, e gostam de fazer selfies em Fátima ilustradas com clichés.
Mas ao ódio que destilam nas redes, é possível que não conheçam a mensagem central da religião à qual alegam pertencer.
E que mensagem é essa, poderão algumas destas pessoas perguntar?
Simples: trata-se de uma mensagem que assenta, grosso modo, no amor a Deus e ao próximo, mesmo quando o próximo tem um cabelo, uma roupa, um brinco ou um posicionamento ideológico que não nos agrada.
Uma mensagem de compaixão, justiça e entrega aos outros onde não cabe o ódio, o desejo de violência e a exclusão de grupos minoritários.
Uma mensagem cujos princípios fundamentais do amor, da dignidade humana, de solidariedade, perdão, humildade, fé e salvação são absolutamente incompatíveis com a retórica populista que divide, instiga o conflito, cria inimigos onde eles não existem, promove a confrontação e que relativiza o ódio contra a “esquerdalha”,a discriminação contra minorias oprimidas e a morte de crianças palestinianas.
Sejamos sérios, caro leitor: se Jesus o ouvisse defender metade do que apregoam os populistas, atirava-o templo fora como fez como os vendilhões. Aliás, os populistas são os vendilhões do nosso tempo: alegam defender a moralidade e os valores cristãos e são os maiores violadores dos 10 Mandamentos, da mensagem bíblica e dos ensinamentos de Jesus.
Felizmente, a farsa cristã está a perder gás. Meloni percebeu-o antes de todos os populistas, quando se opôs à carnificina em Gaza, ao uso das bases aéreas italianas para a absurda guerra contra o Irão, e quando atacou Trump em defesa de Leão XIV. Outros lhe seguirão, por oportunismo ou convicção.
Outros viverão para sempre sem noção. Há dias, numa missa em que participei, notei que uma das pessoas a dar a comunhão era alguém que, apesar de se afirmar católico, passa os dias nas redes sociais a insultar, a atacar e a desejar as coisas mais obscenas contra quem não pensa como ele. Violência gratuita incluída.
Questionei-me sobre se a nossa paróquia teria noção do radical que tinha sentado naquele altar. E da contradição que isso encerrava.
E questionei-me sobre se existem critérios coerentes de selecção acerca de quem assume tarefas daquela relevância, durante um sacramento da importância de uma eucaristia.
Não creio, contudo, que a paróquia subscreva a postura incendiária, odiosa e conflituosa que o indivíduo orgulhosamente assume nas redes sociais.
Mas essa postura é o exemplo perfeito da farsa cristã que desvirtua os ensinamentos de Cristo e afasta pessoas da Igreja Católica. E faz falta que alguém que lhes diga que os valores cristãos estão tão seguros com pessoas destas como uma caixa de esmolas aos cuidados de um ladrão.
Como aquele candidato do CH a Castelo Branco, condenado em 2002 a 3 anos de pena suspensa pelo Supremo Tribunal de Justiça por, entre outras coisas, assaltar a caixa das esmolas da Sé.


