No dia 1 de Novembro abriu, no Museu de Lisboa – Teatro Romano, a exposição “Foi há 264 anos que Lisboa tremeu”, evocativa da efeméride do terramoto de 1755.

Desde os tempos da escola primária, sabemos que, no dia de Todos os Santos do ano do Senhor de 1755, uma tragédia abateu sobre a parte baixa da cidade: “a ira divina provocada pelos pecados do seu povo!” – lamentava-se. Foi o terramoto que ameaçava destruir tudo o que os homens tinham construído; o maremoto que se lhe seguiu e que ameaçava engolir tudo que encontrasse pela frente; por fim, o prolongado incêndio que veio para reduzir a cinzas tudo o que ainda restasse.
O sismo provocou a destruição parcial ou completa do Palácio Real, do Hospital de Todos os Santos, do Real Arquivo da Torre do Tombo, da Sé Catedral, do Convento de São Vicente de Fora, das igrejas de Santa Catarina, do Carmo, da Trindade. Entre outras, caiu o Carmo e a Trindade! Estudos recentes estimam que o número de mortos terá sido de cerca de 90.000.

Da Torre do Tombo, perdeu-se a maior parte dos manuscritos dos relatórios enviados pelos párocos de todas as freguesias, em 1732, destinados à elaboração do Dicionário Geográfico de Portugal, do Padre Luís Cardoso. Por isso, o Marquês de Pombal autorizou, em 1758, a requisitar novos relatórios, acrescentando-lhes mais itens: “Se padeceu alguma ruína no Terramoto de 1755 e em quê e se está reparada?” A inclusão de novos itens teria mais a ver com as faltas de resposta ao inquérito anterior e para fins político-administrativos (o serviço dos correios e a distância das paróquias à capital do Bispado e à capital do Reino. A pergunta sobre os danos do Terramoto não é nova, porque um especial inquérito para tal fim tinha sido gisado em 1756. (V. José Viriato Capela, As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758.Barbosa & Xavier, Lda. – Artes Gráficas. Braga ‌ 2009. Pág. 32).

Numa viagem pelas Memórias Paroquiais de algumas freguesias maiatas – como foram também aquelas que agora nossas são – colhi informações. Em São Romão e Folgosa: “suposto nela se experimentou o tremendo Terrarmoto, nesta freguesia não causou ruína alguma”. Em São Martinho de Bougado: “não houve nela ruína do Terramoto, que fez muito pouca impressão neste sítio. Em Silva Escura”: “caíram-lhe as cruzes dos cruzeiros, umas sobre os telhados, outras no adro”. Em Gemunde: “não padeceu ruína alguma, mais do que algumas fendas nas paredes das casas”. Em Moreira: “também se experimentou o espantoso Terramoro, porém não causou ruína alguma, o que os seus moradores atribuíram a prodigiosa relíquia do Santo Lenho, que se venera há muitos anos na igreja do mosteiro”. Em Aveleda: “tremeu aqui toda a terra com grande abalo e por pouco espaço, mas não fez dano alguma”. Em Canidelo: “durou nesta freguesia oito minutos, fez alguma ruína à igreja, com algumas aberturas leves nas paredes e lançou por terra uma bola que estava em cima de uma pirâmide”. Em Malta: “na capela de Santa Apolónia caíram parte das pirâmides e abriu a capela por duas partes”. Em Vilar: “fez torcer a travessa da Cruz do seu frontispício, cair as bolas das pirâmides, mover a cúpula da torre dos sinos, abriu o arco da capela mor, quebrou ao meio a padieira da porta que dá para a sacristia e sobre esta fez cair a cruz da empena da mesma capela mor”.

Aqui não se registaram vítimas mortais, a não ser de quem, à data, se encontrava em Lisboa. “Manuel Francisco Vila Verde, desta freguesia de Fornelo, veio notícia certa a esta freguesia, que faleceu ao primeiro de Novembro de 1755, na Cidade de Lisboa, dentro da Igreja de Santa Catarina, quando ela se arrasou, por causa do grande terramoto que houve no mesmo dia” (Dos Registos Paroquiais de Fornelo).
In Memoriam!


Post Scriptum: No dia 19 de Outubro p. p. faleceu o Professor Doutor Padre Francisco Carvalho Correia, ilustre historiador tirsense. Pelo que convivi com ele, enquanto professores da Escola Secundária de Tomaz Pelayo, em Santo Tirso; pelo que aprendi com ele, enquanto “companheiros pelas andanças da história”; pelos conhecimentos que recolhi das obras – tantas! – que escreveu, testemunho a minha gratidão. Ao seu irmão, Professor Adelino Carvalho Correia – meu colega de ontem e amigo de sempre – apresento as minhas condolências.