Crónicas e opinião
Escrita com Norte | Via verde
Às vezes acordo com uma vontade estranha de não cumprir regras. Não apenas aquelas que me convêm ou que dão jeito, mas todas. As escritas, as implícitas e até algumas que não sei se existem.
Mas eu sou o tipo que, algures numa estrada municipal transmontana, sem sinais de vida, às três da madrugada, dá o pisca para sinalizar a mudança de direcção. Definitivamente, sou um rígido cumpridor de regras e, basicamente, um chato.
Num desses dias, decidi tratar de um assunto simples: uma licença. Nada de especial. Um papel, um carimbo, duas ou três assinaturas e, com sorte, uma vida inteira de espera.
Saí de casa com o documento na mão, fé nas instituições e decidido a exceder o limite de velocidade dentro das localidades.
Cheguei ao edifício público num ritmo moderado, a roçar o pachorrento. Entrei e tirei senha. A máquina devolveu-me um número que me pareceu simpático: A102. Gostei. O painel indicava A17. Sentei-me, cruzei a perna e tentei manter a minha melhor pose, objectivo conseguido até à senha A42.
Ao fim de algum tempo — não sei precisar se foram minutos ou estações do ano — ouvi:
– A102, balcão 3.
Levantei-me com com formigueiro nas pernas, mas a dignidade de quem sobreviveu a algo, e dirigi-me ao balcão.
– Bom dia, venho tratar da licença.
A funcionária, sem levantar muito os olhos, respondeu:
– Falta-lhe o formulário 7B.
– Não me pediram o 7B. – respondi.
– Pois, mas é preciso.
– Onde o consigo?
– No balcão 5.
Dirigi-me ao balcão 5, mas estava fechado.
Voltei ao balcão 3.
– O balcão 5 está fechado – disse.
– Então tem de aguardar.
– Aguardo onde?
– Aqui.
(Sentei-me a aguardar e pratiquei a “paciência”)
Passado algum tempo, o balcão 5 abriu. Fui atendido por um senhor que me explicou que o 7B tinha sido substituído pelo 7C.
– Então o 7B já não é necessário?
– É, mas agora é o 7C.
Preenchi o 7C com o cuidado de quem escreve a última carta antes do exílio. Voltei ao balcão 3.
– Agora falta-lhe a validação. – disse-me a funcionária.
– Onde?
– No balcão 2.
Chegado ao balcão 2, fui informado de que a validação era automática.
– Então está validado? – pergunto.
– Não, tem de pedir.
– Como?
– Aqui.
– Então valide, por favor.
– Não posso. O sistema está lento.
(Ah, senti que realmente estava dentro de um filme.)
Enquanto aguardava que o sistema decidisse colaborar com a administração pública, reparei num senhor que entrava e saía com uma fluidez invejável. Não tirava senha, não esperava e não envelhecia.
A certa altura, aproximou-se de mim:
– Então, está complicado?
– Um pouco.
– Mas isto resolve-se.
Disse-mo aquilo com a tranquilidade de quem conhece os atalhos do labirinto.
– Como?
– Há sempre forma de acelerar.
Fiquei ofendido. Menos pela proposta e mais pela clareza.
– Não, não. Eu quero fazer tudo como deve ser.
Ele sorriu e disse-me:
– Deve ser chata a demora.
– Eu tenho tempo.
(Já tinha deixado de ter, mas mantinha os meus princípios.)
Horas depois — ou anos fiscais — voltei ao balcão 3 com tudo validado, carimbado e emocionalmente desgastado.
– Agora sim, está tudo.
A funcionária pegou nos papéis, olha para o computador e diz:
– Isto agora segue para análise.
– Ui, quanto tempo demora?
– Depende.
– De quê?
– Da urgência.
– E como se define a urgência?
A funcionária olhou para mim pela primeira vez com atenção:
– Normalmente, as pessoas tratam disso.
Saí de lá com a sensação de que tinha feito tudo certo e, ainda assim, nada como deve ser.
Recusei atalhos, respeitei o processo e abracei a lentidão como um valor.
No fim, percebi que não tinha evitado a corrupção, apenas fiquei fora dela.


