Crónicas e opinião
O conforto enganador das contas certas
Portugal habituou-se, nos últimos anos, a viver de boas notícias orçamentais. Excedentes, dívida a descer, credibilidade externa reforçada. Tudo isto é positivo e ninguém de boa-fé o pode desvalorizar. Mas há uma diferença importante entre ter contas certas e ter uma economia sólida. E essa diferença começa a tornar-se evidente.
O mais recente parecer do Conselho das Finanças Públicas, conhecido há poucos dias, é claro: a despesa pública cresceu acima do que foi acordado com as instituições europeias. Não por um detalhe técnico irrelevante, mas por uma dinâmica consistente de aumento, sobretudo em salários e prestações sociais. Ou seja, não estamos perante um desvio pontual — estamos perante uma tendência.
Ainda não ultrapassámos os limites globais definidos por Bruxelas. Mas isso não deve ser motivo de tranquilidade. É precisamente nestes momentos, quando tudo parece controlado, que se acumulam os desequilíbrios que mais tarde obrigam a correções abruptas.
Mas há uma questão mais profunda, que raramente entra no debate: não é apenas quanto se gasta, é como se gasta. Um Estado que cresce de forma contínua na sua despesa corrente torna-se, inevitavelmente, mais rígido, menos eficiente e menos capaz de se adaptar. Aumentar salários e prestações pode ser politicamente confortável, mas cria encargos permanentes que condicionam o futuro.
Não podemos ignorar o papel do Estado. Mas devemos exigir, isso sim, que esse papel seja exigente, focado e sustentável. Isso implica avaliar prioridades, eliminar redundâncias e garantir que cada euro gasto tem impacto real. Mais despesa não significa automaticamente melhores serviços, muitas vezes significa apenas um sistema mais pesado e difícil de reformar.
Ao mesmo tempo, o cenário económico apresentado pelo Governo para 2026 levanta dúvidas sérias. O crescimento previsto está acima do que apontam as principais instituições independentes. Não é impossível, mas está no limite do plausível. E quando um cenário macroeconómico assenta em pressupostos otimistas, todo o edifício orçamental fica mais vulnerável.
Há um elemento particularmente revelador: a forte dependência do investimento público. O Governo antecipa um aumento muito significativo desta componente, ancorado na execução do PRR. Mas, em paralelo, o investimento privado abranda ou mesmo contrai. Isto deveria preocupar-nos mais do que parece preocupar.
Uma economia saudável não vive de impulsos públicos temporários. Vive de investimento privado, de produtividade e de criação sustentada de valor. Quando o crescimento depende sobretudo do Estado, o risco é evidente: termina o impulso, termina o crescimento.
Há ainda outros sinais que não encaixam no discurso oficial. O consumo das famílias abranda.
As exportações mostram fragilidades. As previsões para salários e produtividade parecem pouco alinhadas com a realidade. E a inflação pode estar a ser subestimada, num contexto internacional muito instável.
Nada disto significa que o país esteja à beira de uma crise. Mas significa algo muito importante: que o atual equilíbrio é mais frágil do que parece.
Portugal tem hoje uma oportunidade rara. Beneficia de fundos europeus, de taxas de desemprego relativamente baixas e de alguma estabilidade orçamental. Mas essa oportunidade pode ser desperdiçada se for confundida com um ponto de chegada.
O problema não é o presente. É a ausência de reformas que preparem o futuro.
Continuamos com uma economia de baixo crescimento, com produtividade limitada e com uma estrutura de despesa pública difícil de ajustar. Continuamos a depender mais do que devíamos de fatores externos e de decisões centralizadas. E continuamos a adiar mudanças que são, há muito, evidentes.
É aqui que o debate devia estar. Não na celebração de resultados de curto prazo, mas na capacidade de transformar esses resultados em bases sólidas para o futuro.
Porque contas certas são importantes.
Mas não chegam.
E quando o conforto se instala cedo demais, o preço costuma chegar mais tarde — e mais alto.
Artigo de opinião de Diamantino Costa


