Crónicas e opinião
Tecnologia não basta: o verdadeiro bloqueio ao crescimento está na gestão
A revolução tecnológica que atravessamos — com destaque para a inteligência artificial — tem sido apresentada como a grande alavanca do crescimento económico nas próximas décadas. No entanto, um dos mais recentes relatórios internacionais sobre o mundo do trabalho, o State of the Global Workplace 2026 da Gallup, vem introduzir uma nota de realismo que merece atenção: o problema não está na tecnologia, está na forma como organizamos as pessoas.
Apesar de milhares de milhões investidos em inteligência artificial, a maioria das organizações continua sem registar ganhos significativos de produtividade. A explicação não é técnica. É humana. O relatório mostra que apenas 20% dos trabalhadores a nível global se consideram verdadeiramente envolvidos com o seu trabalho. E, no caso europeu, esse valor desce ainda mais, para níveis particularmente preocupantes. Isto significa que a esmagadora maioria das pessoas trabalha sem motivação, sem ligação à missão da organização e, muitas vezes, apenas em modo de cumprimento mínimo.
Este dado, por si só, deveria inquietar qualquer responsável político ou empresarial. Mais ainda quando o próprio estudo estima que a falta de envolvimento dos trabalhadores representa perdas equivalentes a cerca de 9% do PIB mundial. Não estamos perante um problema marginal. Estamos perante um dos maiores bloqueios ao crescimento económico.
O caso português insere-se neste contexto — e, em alguns aspetos, agrava-o. Há anos que o país investe na modernização tecnológica, seja através de fundos europeus, seja por via de iniciativas públicas e privadas. No entanto, a produtividade mantém-se teimosamente baixa. A explicação mais confortável é a de que nos faltam escala, capital ou tecnologia. Mas essa explicação começa a revelar-se insuficiente.
O que este relatório evidencia é que o verdadeiro défice pode estar noutro lado: na qualidade da gestão. Em muitas empresas portuguesas, sobretudo nas pequenas e médias, persistem modelos de liderança pouco profissionais, excessivamente hierárquicos e pouco orientados para resultados. A promoção interna assenta frequentemente na antiguidade ou na confiança pessoal, e não na competência de liderança. A avaliação de desempenho é irregular ou inexistente. E a autonomia das equipas continua limitada.
Neste contexto, não surpreende que mesmo quando a tecnologia chega, o seu impacto seja reduzido. A inteligência artificial pode tornar um trabalhador individual mais eficiente, mas não substitui uma organização mal estruturada. Sem objetivos claros, sem liderança eficaz e sem uma cultura de responsabilização, qualquer ganho tecnológico dilui-se rapidamente.
Há ainda um outro elemento que não deve ser ignorado: o bem-estar. O relatório mostra que apenas cerca de um terço dos trabalhadores a nível global se considera “a prosperar” na sua vida. Níveis elevados de stress, tristeza e até solidão continuam presentes no quotidiano laboral. Este não é apenas um problema social — é também um problema económico.
Trabalhadores desmotivados produzem menos, inovam menos e comprometem a competitividade das organizações.
Tudo isto aponta para uma conclusão simples, mas exigente: Portugal não precisa apenas de mais investimento tecnológico. Precisa, sobretudo, de uma transformação na forma como trabalha. Isso implica valorizar a gestão como competência central, investir na formação de líderes, introduzir práticas de avaliação exigentes e alinhar incentivos com resultados.
Também ao nível das políticas públicas, a lição é clara. Não basta financiar equipamentos ou software. É necessário garantir que as organizações que recebem apoio estão preparadas para os utilizar de forma eficaz. Caso contrário, corre-se o risco de transformar investimento público em crescimento potencial desperdiçado.
A revolução tecnológica em curso é real e inevitável. Mas não será ganha pelos países que tiverem mais tecnologia. Será ganha por aqueles que melhor souberem organizar o trabalho, liderar pessoas e transformar potencial em resultados.
Portugal ainda vai a tempo de fazer essa escolha.


