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Crónicas e opinião

A ameaça terrorista em Portugal

João Mendes

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Em Junho de 2025, a Unidade Nacional de Contra Terrorismo da Polícia Judiciária desmantelou o Movimento Armilar Lusitano, uma milícia de extrema-direita, de inspiração neonazi.

Esta organização terrorista, formada em 2018, defendia abertamente o uso da violência armada contra todos os seus alvos, fossem eles políticos de esquerda ou da direita moderada, imigrantes, ambientalistas ou membros de associações cívicas.

O plano, para além da consolidação do seu grupo paramilitar terrorista, incluía a criação de uma extensão política capaz de representar os seus interesses e de concorrer a eleições. No fundo, uma espécie de Hezbollah português. Resta saber quem seria o Irão destes fundamentalistas nazis.

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O objectivo final, segundo a investigação da Judiciária, passava pela deposição do sistema democrático português, pela supressão do Estado de Direito e das liberdades e garantias constitucionalmente garantidas, substituindo-o por um regime totalitário inspirado pelas ideias de Adolf Hitler. Numa fase inicial, apurou a PJ, os terroristas pretendiam criar “tribunais populares” para julgar e executar aqueles que considerava responsáveis pelo “declínio da nação”, como é o caso de Nuno Markl, esse perigoso consumidor de banda desenhada.

Cada país tem o Estado Islâmico que merece.

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Na sequência da operação da PJ, vários elementos do MAL foram detidos, acusados de crimes de terrorismo, posse ilegal de armas e incitamento ao ódio e à violência. Os agentes da Judiciária apreenderam várias armas, algumas de calibre de guerra, bem como impressoras 3D, que seriam usadas para a produção de mais armas, explosivos e propaganda neonazi.

A Unidade Nacional de Contra Terrorismo da PJ descobriu ainda planos de ataques para intimidar ou assassinar uma longa lista de alvos a abater. A lista inclui figuras públicas, professores universitários, empresários, escritores, músicos e inúmeros políticos de partidos que vão do MRPP até ao CDS. Só dois partidos foram poupados à lista dos terroristas: Chega e Iniciativa Liberal.

Sobre o partido de André Ventura, pouco há a dizer. Para além de partilhar parte do seu ideário com os terroristas do MAL, foi revelada a existência de militantes do partido entre os simpatizantes do movimento neonazi. Um deles, Manuel Matias, presidente do Partido Pró-Vida, extinto após ser absorvido pelo CH, é o pai da deputada do CH, Rita Matias. Matias, que integrava um grupo do apoio da organização terrorista nas redes sociais, negou a ligação.

Contudo, investigações da revista Sábado e do Correio da Manhã confirmaram não apenas que o pai da deputada fazia parte do grupo, no qual só se entrava por convite, como publicava os seus pensamentos no feed do grupo.

Sobre a IL, confesso, não sei bem o que pensar. Mas sempre que vejo Rui Rocha a tentar estabelecer falsas equivalências entre os terroristas de extrema-direita e os adolescentes da esquerda radical que cortam o trânsito para gritar contra a destruição do planeta, faz-se alguma luz na minha cabeça. Vá lá que temos um Ministro da Administração Interna decente, que soube colocar o deputado radical da IL no seu devido lugar.

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Recentemente, foi divulgada a lista de alvos a abater pelo Movimento Armilar Lusitano. A lista incluía políticos do centrão como Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Cavaco Silva ou Luís Montenegro. Incluía membros de todos os partidos de esquerda como Mariana Mortágua, Rui Tavares ou Paulo Raimundo. Incluía a líder do PAN, Inês Sousa Real, e a deputada municipal do CDS e comentadora da CNN, Helena Ferro Gouveia. Incluía os humoristas Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques e Nuno Markl. O músico Dino D’Santiago, o cartoonista André Carrilho e a sexóloga Tânia Graça. Associações como a ILGA, o Movimento Vida Justa ou a Associação 25 de Abril.

Mas o caso que sobressaiu foi o de Luís Montenegro. A investigação da PJ concluiu que os terroristas estavam a preparar um atentado contra a residência oficial do primeiro-ministro. Não é claro se os delinquentes pretendiam sequestrar ou assassinar Luís Montenegro, mas as autoridades deram como provado que o primeiro-ministro foi vigiado e monitorizado, como vemos os criminosos fazer nos filmes. Com uma particularidade alarmante: as informações sobre Montenegro foram obtidas por um chefe da PSP, Bruno Gonçalves, que entregou ao grupo informação sobre o primeiro-ministro e sobre o grupo da PSP encarregue da sua segurança.

Seriam, também eles, alvos dos terroristas?

É irónico que isto seja revelado no momento em que o PSD se deixou de arremessos de areia para os olhos dos portugueses e assumiu, sem rodeios, que o seu parceiro natural de governação é o partido de André Ventura, que partilha elementos e simpatias com gangues violentos de delinquentes e criminosos nazis e nacionalistas como o 1143, o Reconquista ou o Movimento Armilar Lusitano.

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Quando Rui Rocha, deputado e ex-líder da IL, tentou fazer um frete aos terroristas e estabelecer uma falsa equivalência entre a extrema-esquerda e a extrema-direita em Portugal, o ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves, foi peremptório: não há comparação possível. E a grande diferença reside no cariz violento da extrema-direita. Não apenas no discurso, na violência física que exerce amiúde ou nas várias formas de intimidação que usa, mas na propensão para a posse, uso e, sabemos agora, produção de armas de fogo. E para planear atentados terroristas.

A extrema-esquerda, em Portugal, não é uma ameaça. Já foi, no tempo das FP-25, hoje o pico da sua agressividade consiste na organização de protestos climáticos, sendo as formas de violência utilizada o arremesso de tinta e o bloqueio de estradas.

Pessoalmente, entendo atirar tinta a políticos ou contra quadros em museus é, mais do que uma palermice, uma forma contraproducente de protesto. Não gera resultados reais. E, no caso da crise climática, fazem falta formas de protesto mais eficazes, não de criancices que afastem as pessoas. Mas comparar isto à actividade de organizações terroristas, como fez Rui Rocha, é fazer um favor aos delinquentes armados. É comparar uma chapada a um tiro.

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Portugal tem um problema de décadas com a extrema-direita. Começou com os terroristas do MDLP no pós-25 de Abril, continuou com os movimentos neo-nazis dos anos 80 e 90, que espancaram e mataram pessoas por diversão, e regressa agora em força com organizações como o 1143, o Movimento Armilar Lusitano e o Reconquista, que recentemente trouxe a Portugal o antigo líder da Gestapo de Donald Trump, Greg Bovino, e Martin Sellner, como grandes cabeças de cartaz do seu evento internacional.

Quem é Martin Sellner?

Nada menos que um nazi assumido que, garante, e o que se segue é uma citação do próprio Sellner, “para a opinião pública, Hitler representa o mal absoluto. Todo o bem que fez não conta. Só porque mandou matar 6 milhões de judeus. As pessoas só pensam nisto.”

Foi este nazi que algumas dezenas de alegados patriotas aplaudiram há dias em Portugal. E convém não esquecer que o deputado Pedro Frazão, do CH, pactua com esta gente, tendo inclusive enviado um vídeo para a abertura do congresso de 2025 do Reconquista. Frazão e outros mais. Afinal de contas, foi o CH e André Ventura que normalizaram o extremismo de direita e que abriram caminho a congressos em que se elogia “o bem” que Hitler fez, apesar do “detalhe” de ter exterminado 6 milhões de judeus pelo caminho. Continuemos a normalizá-los.

Tem tudo para correr bem.

Artigo de opinião de João Mendes

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