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Crónicas e opinião

O país que, afinal, era mais pobre do que pensávamos

Diamantino Costa

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Há notícias que passam quase despercebidas, apesar de dizerem muito sobre o estado do país.
Recentemente, o Instituto Nacional de Estatística reviu em alta a população residente em Portugal. Afinal, não somos cerca de 10,7 milhões de habitantes. Somos aproximadamente 11,4 milhões.

À primeira vista, parece apenas uma correção estatística. Mas as suas consequências são muito mais profundas.

Com esta revisão, o PIB per capita português desceu de 81% para 77% da média da União Europeia. Portugal caiu quatro lugares no ranking europeu e foi ultrapassado por países como a Polónia, a Estónia, a Croácia e a Roménia.

Não ficámos mais pobres de um dia para o outro…

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Afinal, já éramos!

Durante anos, avaliámos o desempenho da economia portuguesa com base num número de habitantes inferior ao real. Produzíamos a mesma riqueza, mas dividíamo-la por menos pessoas. Agora percebemos que uma parte da convergência com a Europa existia apenas nas folhas de cálculo.

Este episódio deveria levar-nos a refletir sobre uma questão que a política portuguesa insiste em ignorar: crescer não é o mesmo que enriquecer.

Ao longo dos últimos anos ouvimos repetidamente que a economia portuguesa estava a crescer acima da média europeia. E era verdade.

O que raramente nos disseram foi que uma parte importante desse crescimento resultava do aumento da população residente, impulsionado sobretudo pela imigração, e não de ganhos significativos de produtividade.

Há uma diferença enorme entre produzir mais porque existem mais pessoas a trabalhar e produzir mais porque cada trabalhador cria mais valor.

A primeira realidade faz crescer o PIB.

A segunda faz crescer os salários.

É precisamente esta segunda que continua a faltar em Portugal.

Os países mais prósperos da Europa não são ricos porque têm mais habitantes. São ricos porque cada trabalhador produz muito mais riqueza. É isso que lhes permite pagar melhores salários, financiar melhores serviços públicos e assegurar maior qualidade de vida.

Em Portugal continuamos, demasiadas vezes, a confundir crescimento económico com prosperidade.

É um erro que condiciona o debate político.

Discutimos incessantemente a distribuição da riqueza, mas falamos pouco da sua criação.

Debatemos salários, mas esquecemo-nos da produtividade que os torna sustentáveis.

Celebramos recordes de emprego, mas ignoramos que continuamos entre os países da Europa onde cada hora de trabalho gera menos valor.

Talvez por isso os portugueses sintam um desfasamento crescente entre os indicadores económicos e a realidade do seu dia a dia.

A economia cresce.

O emprego aumenta.

O turismo bate recordes.

E, no entanto, muitos continuam a sentir que trabalham muito, poupam pouco e vivem sempre com a sensação de que o país avança menos do que anunciam.

Esta revisão estatística trouxe ainda outra questão inquietante.

Como foi possível o Estado português passar vários anos sem conhecer com rigor quantas pessoas viviam efetivamente no país?

Estamos a falar de uma diferença superior a setecentos mil habitantes.

Não é um pequeno erro estatístico.

É uma discrepância com impacto direto no planeamento da saúde, da educação, da habitação, dos transportes, da Segurança Social e até no financiamento das autarquias.

As estatísticas são a matéria-prima das políticas públicas. Quando o diagnóstico está errado, aumenta o risco de as decisões também o estarem.

Mas talvez a principal lição desta história seja outra.

Portugal precisa de deixar de medir o seu sucesso apenas pelo crescimento do PIB.

O verdadeiro indicador do progresso de um país é a riqueza que cada cidadão consegue criar, o salário que consegue auferir, a produtividade das suas empresas e a capacidade de oferecer oportunidades às gerações seguintes.

Uma economia não é mais forte porque tem mais habitantes.

É mais forte quando esses habitantes vivem melhor.

No fundo, a revisão do INE fez-nos um favor. Obrigou-nos a olhar para a realidade sem ilusões estatísticas.

E lembrou-nos de uma verdade simples: o objetivo de uma política económica não é fazer crescer os números.

É fazer prosperar as pessoas.

Artigo de opinião de Diamantino Costa

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