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Capela e Festas de Nossa Senhora das Dores: Gratidão aos fundadores

“Mais do que dever, é obrigatório referir que, nesta altura em que é notório haver dificuldades (financeiras?) para a efectividade ou realização das festas, as mesmas já passaram por grandes “crises”, e algumas bem graves, ao longo de mais de 250 anos”

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A história da Capela de Nossa Senhora das Dores e a devoção à sua “patrona” já ultrapassam o quarto de milénio e, ao longo destes mais de dois séculos e meio, já passaram várias dezenas de milhares de bougadenses (da paróquia de São Martinho) que tiveram a grande responsabilidade de manter a devoção à Virgem das Dores, assim como a organização das festas a ela dedicadas.

Por isso, terminada mais uma edição desta grande romaria, é justo que se parabenize a Comissão de Festas cessante, a cargo da aldeia de Mosteirô, pelo seu trabalho e abnegação, pois esta segue o exemplo de mais de 250 comissões anteriores (até hoje), que se entregaram, de alma, coração e devoção à tarefa árdua de pôr de pé, ano após ano, um rol de actividades religiosas e recreativo-culturais para honrar “a Virgem das Sete Espadas”.

É, no entanto, mais do que dever, obrigatório referir que, nesta altura em que é notório haver dificuldades (financeiras?) para a efectividade ou realização das festas, as mesmas já passaram por grandes “crises”, e algumas bem graves, ao longo de mais de 250 anos, mas sempre os fregueses (e paroquianos) de São Martinho de Bougado “deram a volta por cima” e as festas fizeram-se sempre, ininterruptamente, até hoje.

A melhor forma de honrar quem há mais de dois séculos e meio pôs mãos à obra e levantou uma das mais icónicas capelas e romarias da região é não regatear esforços para que se continue a efectivar com garra, bairrismo e convicção a Grande Romaria de Nossa Senhora das Dores da Trofa.

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Capela de Nossa Senhora das Dores – 4 eixos em que assenta toda a história

1- Abade Inácio de Morais Sarmento Pimentel (1696-1774): O FUNDADOR
Nasceu no ano de 1696 e tomou posse da paróquia no dia 6 de outubro de 1750. Foi um dos sacerdotes que mais relevantes serviços prestou a esta comunidade paroquial.
Sendo um fervoroso devoto do padroeiro S. Martinho, mandou vir de Roma uma relíquia deste santo. Também se deve a ele a fundação da confraria do Ssmo. Sacranento. Mas o feito que mais o relevou foi a “petição” que fez (juntamente com alguns fregueses) ao bispo diocesano, pedindo “licença” para erigir uma capela em honra de Nossa Senhora das Dores no alto do “monte da Carriça”. Passado algum tempo, chegou a “autorização”, para gáudio do pároco e paroquianos. O sonho deste sacerdote, imensamente devoto de Na. Sa. das Dores, realizou-se. Faleceu em 30 de setembro de 1774, tendo sido sepultado na capela-mor da Igreja Matriz.

2- El-Rei D. João VI – O Clemente (1767-1826) – Monarca Criador da Grande Feira Franca
D. João VI foi rei de Portugal entre 1818 e 1822, mas desde 1792 que se tornou príncipe-regente devido à doença de sua mãe, D. Maria I. Em 1807, transferiu-se (e toda a coroa portuguesa) para o Brasil e, com a morte da rainha, foi coroado Rei do Reino Unido, Portugal, Brasil e Algarves.
No ano de 1817, D. João VI “criou” as Feiras Francas no “Terceiro Domingo do mês de Agosto e Segunda-Feira Seguinte (imediata)”, através do despacho de Sua Alteza Real: “Hey por bem conseder aos supplicantes a necessária faculdade para poderem estabelecerem huma feira, no sítio do Monte na Terça Dominga do mês de Agosto, e seguinte imediata. Lisboa, 24 de Mayo de mil oitocentos e dezassete”.

3- Manuel José Ribeiro (Conde de S. Bento) O REFUNDADOR ou REFORMADOR( (1797-(1893)
Manuel José Ribeiro, futuro “Conde de S. Bento”, nasceu no dia 28 de agosto de 1797 em Poldrães – Vila das Aves. Aos 11 anos emigrou para o Brasil, mas o navio foi atacado pelos piratas que forçaram a sua volta a Portugal. Fez nova tentativa de emigração, mas o navio naufragou e ele foi acolhido por um fazendeiro. Após uma longa e laboriosa actividade (29 anos) deu sociedade a um sobrinho, José Luís de Andrade. Regressou definitivamente a Portugal em 1874. Passado um ano foi Manuel José Ribeiro agraciado com a comenda de Nossa Senhora de Conceição de Vila Viçosa. Graças à sua generosidade, subsidiou prodigamente diversas festas religiosas e associações piedosas do concelho de Santo Tirso e fora dele. A Capela de Nossa Senhora das Dores, passado mais de um século, era já muito pequena para a grande quantidade de devotos que aqui afluía e ameaçava ruína. Então, no ano de 1879, os responsáveis da paróquia pretenderam aumentar a mesma, mas o futuro Conde de S. Bento ofereceu-se para custear todas as obras de construção de uma nova capela. E assim aconteceu. As obras iniciaram em Agosto desse mesmo ano (1879). No dia 20 de Janeiro de 1881, e depois a 6 de Maio, foi agraciado, respectivamente, com os títulos de visconde e conde. Faleceu em 26 de março de 1893.

-D. Agostinho de Jesus e Sousa (1877-1952) – O Legislador, que originou o “interregno” das Festas.
D. Agostinho de Jesus e Sousa nasceu em Vila Pouca de Aguiar, formou-se em Roma e foi Cónego e professor do Seminário Conciliar de Braga, vindo a ser nomeado bispo de Lamego em 1935 até 1942. Foi bispo do Porto desde 1942 até ao seu falecimento, em 1952.
Logo que tomou posse como bispo do Porto, D. Agostinho mandou fazer um levantamento de todas as festas que se realizavam nas paróquias da sua diocese; entendendo que havia várias festas que se realizavam fora das datas litúrgicas – como era o caso das festas de Nª Sª das Dores – dirigiu uma Nota Pastoral a toda a diocese “exigindo” que as mesmas respeitassem o calendário estritamente litúrgico, o que obrigava a transferência das “nossas festas” para o dia 15 de setembro, festa litúrgica em honra de Nª Sª das Dores. E mais: não permitia a realização de festivais nocturnos nos dias (imediatos) que antecedessem os das cerimónias religiosas. Além disso, para que ficasse bem claro, com este “decreto”, o mesmo bispo decidiu proibir todas as celebrações religiosas durante essa festa – missas e procissões – o que implicaria o fecho da capela nos dias de festa.
A comissão de festas (e o povo devoto de S. Martinho de Bougado e da Virgem das Dores) não aceitou esta “nota”, até porque a Feira/Festa já tinha sido “constituída” na “terceira dominga do mês de agosto”, e considerou que essa decisão tinha sido injusta, e resolveu realizar as respectivas festas só com a vertente “profana”, apesar da tristeza e desgosto pela decisão tão drástica do prelado diocesano. Entretanto, o bispo D. Agostinho viria a governar a diocese do Porto apenas sete anos, vindo a falecer no ano de 1952.

4-D. António Ferreira Gomes (1906-1989) – O bispo culto que enfrentou Salazar e “Conciliador” no caso do “Interregno”.

É célebre a sua frase “De joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens”
A 13 de julho de 1952, D. António é nomeado bispo do Porto e toma posse, por procuração, da diocese a 14 de setembro, vindo a entrar solenemente no dia 12 de outubro.
Mal tomou posse, o novo prelado diocesano quis auscultar o sentir do seu povo, mormente no que dizia respeito à realização das festas e romarias das suas paróquias. Ouvidas e ponderadas as razões apresentadas pelos paroquianos de S. Martinho de Bougado (no referente às festas da Sra. Das Dores), D. António reconheceu o peso da tradição desta romaria que já durava há quase 200 anos e deu autorização para “repor” as celebrações religiosas (missas e procissão), nos mesmos moldes em que haviam sido criadas, antes do chamado Interregno das festas religiosas.
E foi, precisamente, a partir dos anos 50 do século XX que as festas em honra de Na. Sa. Das Dores começaram a revestir-se de maior esplendor, entusiasmo e bairrismo, até aos dias de hoje.

A capela de Nossa Senhora das Dores já foi Mosteiro?

Em 1905 o Abade de Santagões, então pároco e presidente da junta de freguesia, elaborou um inventário de todos os bens paroquiais e nele descrevia que o “Mosteiro de Nossa Senhora das Dores” no aludido terreno… que era composto de “capela-mor e respectivo altar, sacristia e casa da fábrica… arco cruzeiro, um altar no frontispício por baixo da torre para celebrar a Missa no dia da romaria de Nossa Senhora das Dores…”
Ora desconhece-se a origem desta informação, dada nesta data e prestada pelo pároco que antecedeu o Reverendo Alberto P. Machado: resultará (possivelmente) da existência, em tempos idos, de algum mosteiro de alguma congregação de eremitas, que tivesse lugar nos arredores (do recinto da capela)? A esta “curiosidade” não será alheia a coincidência de um dos lugares confrontantes com este templo se chamar precisamente Mosteirô (além de outros dois: Paranho e Finzes).
Seja como for, há razões de sobra para que os trofenses (particularmente os bougadenses de S. Martinho) se sintam orgulhosíssimos pela história deste magnífico templo que nos foi doado pelos nossos antepassados a quem devemos GRATIDÃO e HOMENAGEM. E a melhor forma de os honrar é preservar o património que nos foi legado e não deixar cair toda a tradição a ele relacionado.

ARTIGO DE ANTÓNIO COSTA

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