Crónicas e opinião
A utopia de empobrecer para salvar o mundo
De tempos a tempos surge uma grande ideia destinada a resolver vários problemas da humanidade de uma só vez. Desta vez, a promessa é particularmente ambiciosa: reduzir drasticamente a desigualdade global, financiar a transição climática e limitar o aquecimento global a 1,8 graus até ao final do século.
A proposta tem como um dos seus rostos mais conhecidos o economista Thomas Piketty e assenta na criação de um fundo global de justiça climática e social financiado através de impostos sobre patrimónios, heranças, rendimentos elevados e consumo dos mais ricos. A dimensão do projeto é impressionante: mobilizar recursos equivalentes a cerca de 10,3% do PIB mundial todos os anos.
Convém parar um momento para pensar no significado deste número.
Estamos a falar de uma transferência anual de riqueza à escala planetária sem qualquer paralelo na história da humanidade. Uma estrutura capaz de arrecadar e redistribuir milhares de milhões de euros em praticamente todos os países do mundo. Uma espécie de ministério das finanças global com poderes para definir quem paga, quanto paga e quem recebe. Tudo isto em nome da justiça.
O problema é que muitas vezes as ideias mais sedutoras são também as mais perigosas.
Piketty parte de uma observação legítima. A desigualdade existe. As alterações climáticas existem. E os mais ricos tendem a ter uma pegada ambiental superior à média. Até aqui, pouco haverá a contestar.
A divergência começa quando se passa do diagnóstico para a solução.
Ao longo de décadas habituámo-nos a ouvir que a riqueza é um problema a resolver. Que existem pessoas demasiado ricas. Que existem empresas demasiado bem-sucedidas. Que existem patrimónios excessivos. A conclusão parece sempre a mesma: é preciso redistribuir.
Mas será mesmo esse o caminho?
A história económica dos últimos duzentos anos conta uma narrativa diferente. As sociedades que mais reduziram a pobreza não foram as que redistribuíram riqueza existente. Foram as que criaram riqueza. Foram as que investiram na inovação, no empreendedorismo, na indústria, na ciência e na liberdade económica.
Quando observamos os países mais prósperos do mundo, percebemos que a sua força não resulta da capacidade de repartir riqueza. Resulta da capacidade de a produzir.
É precisamente aqui que o pensamento de Piketty revela uma fragilidade fundamental. A sua proposta parece partir do princípio de que a prosperidade é um bolo já cozinhado, bastando decidir como dividir as fatias. Mas a economia não funciona assim. A riqueza não é um recurso natural que se descobre e distribui. É algo que precisa de ser criado todos os dias.
Mais ainda: muitas das soluções apresentadas assentam numa lógica próxima do decrescimento. Menos consumo, menos acumulação, menos incentivo ao investimento. Em suma, menos daquilo que historicamente permitiu melhorar as condições de vida das populações.
A pergunta que raramente é colocada é simples: se penalizarmos sistematicamente quem investe, quem empreende e quem assume riscos, quem financiará o crescimento futuro?
Há também uma dimensão quase quimérica em toda esta visão. Para funcionar, seria necessária uma coordenação política global sem precedentes. Governos de dezenas de países teriam de aceitar regras comuns, sistemas fiscais harmonizados e mecanismos de redistribuição mundial de enorme escala. Basta observar as dificuldades que existem para alcançar acordos internacionais relativamente modestos para perceber o carácter profundamente utópico desta proposta.
Por vezes, a política cai numa forma de catóptrica moral: olha para um espelho e confunde o reflexo com a realidade. Imagina que a simples redistribuição dos recursos existentes resolverá problemas que têm raízes muito mais profundas.
A verdadeira questão não é saber como tornar os ricos mais pobres.
A verdadeira questão é saber como permitir que mais pessoas sejam prósperas.
Uma sociedade mais justa não é aquela onde ninguém tem muito. É aquela onde cada vez mais pessoas têm oportunidades para construir uma vida melhor.
As alterações climáticas exigem respostas sérias. A desigualdade merece reflexão. Mas não devemos cair na tentação de acreditar que o futuro será construído através de uma gigantesca máquina global de redistribuição.
A humanidade progrediu quando criou riqueza, conhecimento e inovação. Não quando decidiu administrar a escassez.
E talvez essa seja a grande falha destas utopias modernas: confundem igualdade com prosperidade e acabam por propor um mundo onde todos seriam, teoricamente, mais iguais… porque seriam, na prática, mais pobres.
Artigo de opinião de Diamantino Costa


