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Memórias e Histórias do Vale do Ave | O Castro de Alvarelhos: da descoberta à obrigação

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Há pouco mais de um ano, nestas mesmas páginas, escrevi sobre o Castro de Alvarelhos e sobre o eterno adiamento do seu reconhecimento. Na altura, questionei a ausência de uma intervenção mais profunda, a insuficiente valorização daquele espaço e, sobretudo, a inexistência de um equipamento museológico capaz de conservar, estudar e divulgar o património ali descoberto.

As notícias mais recentes vieram demonstrar que essa preocupação estava longe de ser infundada. Novos elementos arqueológicos confirmam que o Castro de Alvarelhos continua a possuir um enorme potencial por explorar.

As novas descobertas devem provocar duas reações. A primeira é de satisfação pelo trabalho desenvolvido por uma grande equipa. A segunda, inevitavelmente, é de impaciência. Quanto mais se descobre, mais difícil se torna compreender por que razão este património continua sem um espaço adequado de interpretação e exposição.

Foi agora anunciada a intenção de construir um Centro Interpretativo do Castro de Alvarelhos, apontando-se a possibilidade da sua concretização para o final do atual mandato autárquico. A iniciativa deve ser recebida positivamente. Todavia, depois de tantos anúncios e adiamentos no campo cultural, uma promessa já não pode ser considerada uma realização.

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Um verdadeiro centro interpretativo exige mais do que um edifício e alguns painéis informativos. Necessita de um programa científico e museológico, de condições adequadas para conservar o espólio e a investigação permanente.

A Trofa aproxima-se das três décadas de existência como município e continua sem um museu municipal que reúna e apresente a sua história. Não é por falta de património. Existem vestígios arqueológicos, peças de arte sacra, testemunhos materiais da industrialização, objetos associados ao mundo rural e inúmeros elementos da memória coletiva local. Muito desse património permanece guardado em reservas, depósitos e, metaforicamente, em gavetas, afastado do conhecimento da população.

É precisamente neste contexto que deve ser questionada a prioridade atribuída à construção de um Centro Cultural cujo investimento poderá atingir cerca de 20 milhões de euros. Não se discute a importância de a Trofa possuir um auditório, espaços destinados às artes e melhores condições para a realização de atividades culturais. Discute-se a ordem das prioridades e a dimensão das opções tomadas.

Um edifício de grandes dimensões não constitui, por si só, uma política cultural. A cultura não se constrói apenas através de obras emblemáticas, como são as grandes salas de espetáculos.

Constrói-se através do conhecimento do território, da preservação dos seus testemunhos, entre outras práticas

Os eventos terminam quando se apagam as luzes. Um museu, pelo contrário, preserva a memória para as gerações seguintes.

Investir milhões num Centro Cultural que, na configuração apresentada, não resolve de forma substantiva o problema do património histórico e arqueológico local significa, mais uma vez, começar a construir a casa pelo telhado.

O Centro Interpretativo do Castro de Alvarelhos poderá ser uma oportunidade para alterar este caminho. Mas deverá integrar uma estratégia cultural mais ampla.

Contudo, preservar a memória do Castro também implica reconhecer aqueles que, durante décadas, lutaram pela sua divulgação e valorização. Neste domínio, é impossível esquecer o professor Avelino Moreira da Silva.

Professor de História na Escola Secundária da Trofa, Avelino Moreira da Silva ensinou várias gerações. Num tempo em que a valorização do Castro de Alvarelhos ainda parecia uma miragem, foi uma das vozes mais persistentes na defesa daquele espaço. Fê-lo muito antes de existirem projetos milionários, anúncios públicos ou estratégias de promoção.

Para quando, então, uma homenagem pública ao professor Avelino Moreira da Silva? Será necessário esperar ainda mais tempo para reconhecer o empenho de um homem que dedicou grande parte da sua vida ao ensino da História e à divulgação do património trofense? As homenagens mais justas são aquelas que se fazem em vida, diante da comunidade e das gerações que beneficiaram do trabalho de quem se pretende distinguir.

A discussão não deve ser apresentada como uma escolha entre o Centro Cultural e o património. Deve ser uma discussão sobre planeamento, equilíbrio e prioridades. Uma autarquia responsável deve ser capaz de apoiar as artes contemporâneas sem abandonar os testemunhos do passado.

As recentes descobertas colocam novamente o Município perante uma responsabilidade que já não pode ser adiada. O passado voltou a sair da terra e a recordar-nos a importância de Alvarelhos. Compete agora ao poder político garantir que esse património não regressa ao esquecimento.

O Castro já esperou demasiado. E aqueles que dedicaram uma vida à sua defesa também.

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