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Edição 448

15 anos depois… Joaquim Couto em entrevista

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Quinze anos depois, Joaquim Couto recordou, numa entrevista exclusiva do NT e TrofaTv, os tempos que antecederam e sucederam a criação do concelho da Trofa. O atual presidente da Câmara de Santo Tirso admitiu que sempre considerou que a Trofa tinha “capacidade para ser concelho”.

O Notícias da Trofa (NT): Como é que geriu o processo quando se começou a falar com mais sustentação sobre a possibilidade de a Trofa ser concelho?

Joaquim Couto (JC): A notícia e as movimentações da criação do concelho da Trofa começaram, do meu conhecimento, sensivelmente por volta de 1990. Para trás havia algumas opiniões e artigos até sobre essa matéria, mas eram de pouca monta. O movimento começou a crescer por altura da inauguração da autoestrada Porto-Cruz que, desde logo teve um incidente para dar o nome ao nó da autoestrada. É nessa altura que começa uma movimentação mais acalorada com a presença até de responsáveis do PSD. Estou-me a lembrar do doutor Marques Mendes que, em cima do pontão que liga agora a portagem à Trofa em 1989, fez um discurso político em cima das eleições autárquicas, que criou grande polémica em Santo Tirso, porque nessa altura havia uma pujança maior por parte do PSD, nomeadamente Eurico de Melo, que não achou muita piada à presença de Luís Marques Mendes a fazer campanha em plenas autárquicas pela criação do concelho da Trofa.

Depois, o movimento cresceu e nas eleições de 1997 já havia uma comissão formada por elementos do PS e por elementos do PSD. Eu era presidente da Comissão Política Concelhia do PS e os responsáveis do PS na Trofa não respeitaram as orientações por parte do PS de Santo Tirso e criaram uma comissão mista com a população em geral e com destacados elementos do PSD da Trofa e com elementos do PS de Santo Tirso. As eleições autárquicas de 97 decorreram com normalidade, mas não obstante termos tido uma ligeira descida nos votos, o que não tinha acontecido antes. Mesmo assim tivemos um resultado global no concelho de 52 por cento.

 

NT: Mas criou mossa?

JC: Criou mossa. Primeiro criou mossa interna, porque as orientações políticas e partidárias por parte do partido no concelho não estavam a ser postas em prática por parte do PS na Trofa e, por outro lado, nós entendíamos que a estratégia seguida pelo PS na Trofa iria beneficiar por inteiro o PSD. E o tempo veio dar-nos razão, porque logo a seguir à criação do concelho da Trofa, a comissão administrativa foi liderada por um elemento do PSD e os elementos do PS que tinham participado nessa comissão foram passados para trás. A partidarização da comissão administrativa foi muito forte e com isso penso que ficou a perder o novo concelho.

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Mas houve muita polémica. Eu sempre fui contra a extinção ou criação de concelhos do modo casuístico, sempre defendi que devia de ser feito um estudo por uma entidade independente.

Nessa altura não ouvi falar de extinção de municípios, só se falava em criar municípios e a verdade é que nós temos no país mais de cem municípios com menos de dez mil habitantes. Alguns são muito grandes e há necessidade de os reformular e, porventura, até partir, criando estruturas intermédias de mais fácil gestão política e até sob o ponto de vista dos serviços que prestam aos cidadãos em termos de Estado. Em 98, nada disso foi tido em conta. No caso particular do Município da Trofa, o PS no Parlamento votou contra, não porque era contra a criação dos concelhos, mas sim da criação casuística, a pedido.

A verdade é que o concelho está criado e tem tido o seguimento que todos nós conhecemos.

 

NT: Foi esse argumento que sustentou a origem da sua proposta na reunião de Câmara de junho de 98 para a rejeição da criação do concelho?

JC: A legislação aplicável na altura obrigava a um parecer não vinculativo por parte da Câmara Municipal de Santo Tirso relativamente à criação do concelho da Trofa. O parecer da Câmara Municipal de Santo Tirso votado em reunião de executivo foi contra a criação do concelho da Trofa, porque se tratava de uma reivindicação e da criação casuística de um município sem ter em conta os prejuízos que ia causar ao Município de Santo Tirso e até à sua capacidade de interlocução e de relacionamento com os municípios vizinhos. O que se estava a fazer sob o ponto de vista partidário quase exclusivamente era quebrar a espinha dorsal do concelho de Santo Tirso, que tinha uma capacidade de influência regional e sub-regional, que tinha uma magistratura de influência que funcionava politicamente na região e que com a criação do concelho da Trofa obviamente que essa característica ficou muito debilitada.

 

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NT: Mas Afonso Paixão afirmou que ficou cinco a favor da criação do concelho e quatro votos contra.

JC: Não é verdade. Basta consultar as atas para ver que efetivamente a Câmara votou contra o concelho da Trofa por maioria clara.

 

NT: Essa reunião foi muito polémica também na questão dos votos, na recontagem e sobre quem é que ficou com os votos…

JC: Isso foi polémico e foi ultrapassado legalmente, ou seja, a votação final é de cinco votos contra a criação do concelho Trofa e zero a favor.

 

NT: Tendo em conta as motivações da população, considera que a Trofa tinha condições para ser concelho?

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JC: Eu ainda hoje acho que a Trofa é uma unidade territorial e populacional com capacidade para ser um concelho autónomo. Contra isso não tenho nenhuma opinião contrária. Penso até que, separadas as coisas com clareza e objetividade, a população da Trofa compreendeu os meus argumentos.

 

NT: Santo Tirso perdeu com a saída das freguesias?

JC: Perdeu, porque Santo Tirso era um concelho que se tivesse a Trofa hoje teria à volta de 115 mil habitantes e teria, obviamente, um poder regional e uma capacidade de influência junto dos Governos que perdeu e que hoje não tem.

 

NT: Pouco tempo depois deixou o Município de Santo Tirso. Sentiu-se de alguma forma fragilizado politicamente?

JC: Não. A minha saída do concelho não tem nada a ver com isto. A minha saída da Câmara tem a ver com a minha opinião que ainda hoje mantenho que os mandatos devem ser limitados e que deve de haver uma renovação de todos os mandatos políticos.

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CAIXA

NT: Agora que regressou à liderança da Câmara Municipal de Santo Tirso tem abertura para resolver alguns assuntos pendentes com o concelho da Trofa?

JC: Sim, abertura tenho e penso que isso é facilmente resolúvel, se houver bom senso de ambas as partes, nomeadamente há algumas reivindicações por parte do concelho da Trofa, que não me parecem razoáveis e penso que mesmo sob o ponto de vista técnico e dos organismos que intervêm nessas matérias e que têm de ser muito bem analisadas. Mas se houver vontade das partes de resolver aquilo que ainda existe de contencioso nós estaremos abertos, se a Trofa também estiver, para desenvolver esse trabalho. Não percebo até muito bem como é que ao fim de 15 anos de criação do concelho da Trofa esses problemas não estão ainda resolvidos. Mudou o presidente da Câmara em Santo Tirso e mudou o presidente da Câmara na Trofa, talvez isso possa ser um bom prenúncio para que se encontrem as soluções que até ao momento não foram encontradas.

 

NT: Sobre a hipotética fusão de municípios, considera que Santo Tirso está em condições para receber a Trofa?

JC: Não sei dizer, mas penso que, primeiro, isto não vai acontecer e, segundo, o município da Trofa tem um tamanho, estrutura e população suficiente para manter-se autónomo. Esse cenário de fusão com Santo Tirso parece-se um cenário pouco previsível e tenho alguma reserva se isso seria vantajoso, neste momento, quer para a Trofa, quer para Santo Tirso. No entanto, nós já temos assistido a decisões governamentais e a decisões do parlamento com as quais não concordamos e que depois acabamos por ter de aceitar, mas eu penso também que a população da Trofa já se habituou a ser independente e não estou a ver os trofenses a aceitar um regressar ao Município de Santo Tirso como um todo. Parece-se uma hipótese absurda.

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Caixa de Crédito Agrícola celebra 100 anos

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Um século ao serviço das comunidades locais e dos seus clientes, pautando a sua atuação por valores de solidariedade, entreajuda e disponibilidade. Caixa de Crédito do Médio Ave assinala aniversário no dia 30 de novembro e quer continuar a servir.

Os elementos do conselho de administração da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo do Médio Ave, CRL deram esta terça-feira uma conferência de imprensa, para apresentar o programa das comemorações dos cem anos da instituição. Realçando as raízes da cooperativa, o presidente do conselho de administração da Caixa de Crédito Agrícola do Médio Ave, António Abreu, quer continuar a “afirmar os valores da solidariedade, da entreajuda e da capacidade de estarmos disponíveis para os outros” e garante que em 2013 a Caixa de Crédito “vai centrar a sua atenção na vertente social, a mesma que há cem anos levou à criação da cooperativa”.

Durante o encontro com os jornalistas, os responsáveis da instituição deram a conhecer o programa das comemorações que decorrem a 30 de novembro e têm inicio marcado para as 9.30 horas com o descerramento de placa evocativa nas nossas instalações em Vila Nova de Famalicão, seguindo-se às 10 horas a sessão solene, na Casa das Artes, e às 13.30 horas o almoço no Palácio de Congressos Rauliana.

De acordo com António Abreu, “a Caixa tem-se mantido fiel aos valores essenciais que estão na génese das Caixas Agrícolas, que implicam a preservação de uma relação de proximidade e clientes e o acompanhamento atento da dinâmica económica e social das comunidades locais de que as Caixas fazem parte”.

O responsável adianta ainda que a Caixa vai manter uma política de apoio direcionada “às pequenas e médias empresas com linhas de crédito e programas de apoio nas mais diversas áreas de negócio”.

A Caixa de Crédito Agrícola Mútuo do Médio Ave resulta da fusão, em 2010, da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Vila Nova de Famalicão com a Caixa de Crédito de Santo Tirso e hoje tem sete agências espalhadas pelos municípios da Trofa, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso.

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Edição 448

“Conflito com Santo Tirso prolongou-se muito para além do que era razoável”

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Afonso Paixão foi vereador da Câmara de Santo Tirso nos tempos em que o povo da Trofa reivindicava a emancipação. Em entrevista ao NT e à TrofaTv recordou as dificuldades que atravessou e explicou o porquê de “votar a favor da criação do concelho”.

O Notícias da Trofa (NT): Foi vereador da Câmara Municipal de Santo Tirso, com pelouros, mas era da Trofa. Como é que viveu os momentos em que o povo reivindicava a criação do concelho?

Afonso Paixão (AP): Foram momentos complicados. Eu fazia parte de uma equipa, e ainda hoje continuo a afirmar, que fazia um bom trabalho, que tinha muito bom senso na governação e na qual estava bem integrado. Depois havia um outro valor importante, que era o concelho da Trofa e sendo eu da Trofa não podia deixar de o desejar, porque entendia que havia já dimensão e viabilidade. Era difícil conjugar as duas coisas, mas nascido que fui na Trofa não podia deixar de fazer a minha opção.

NT: Quando fala da gestão com bom senso, também se englobavam as freguesias que fazem parte do concelho?

AP: Sim. Quais eram as fragilidades da Trofa nessa altura? Eram ao nível das infraestruturas. Eu tinha o pelouro dos serviços municipalizados, a questão do volume de investimento pode merecer discussão, mas estava-se a fazer na Trofa aquilo que ela necessitava. Não era admissível que a Trofa tivesse crescido ao ritmo a que cresceu sem ter as infraestruturas de água e saneamento. Eram essas obras que, principalmente, se faziam na Trofa, que custavam muito dinheiro e que do ponto de vista político não davam vantagem nenhuma, mas mandava o bom senso que se fizessem. Enquanto não fossem criadas, o crescimento futuro estava comprometido, até a qualidade de vida das pessoas que cá estavam, porque nessa altura discutia-se muito a falta e a má qualidade da água.

NT: Quais foram as obras realizadas?

AP: Penso que não houve nenhuma escola do concelho que não fosse renovada. Foi um investimento muito grande e nessa fase teve muito mérito o professor Tedim, vereador nesse pelouro. As juntas de freguesia, incluindo S. Martinho e Santiago, passaram a ter melhores condições. As infraestruturas de água e saneamento começaram por aí, a feira e mercado da Trofa também e até equipamentos do Estado, como o posto da GNR e o centro de saúde de Alvarelhos tiveram um grande contributo da Câmara de Santo Tirso.

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O atual concelho da Trofa, que poucos anos antes estava praticamente no ponto zero, sofreu grandes investimentos em áreas essenciais e que foram muito importantes para criar as condições do concelho.

NT:Mesmo com essa gestão, a população continuava a reivindicar. Como é que analisava a vontade do povo da Trofa de criar o concelho?

AP: Na minha opinião, por muito bem que trabalhasse a Câmara de Santo Tirso, o concelho da Trofa continuava a justificar-se, porque o concelho de Santo Tirso tal como ele estava, não era uma unidade. Há uma cultura tirsense e uma cultura trofense. Não havia uma unidade social e cultural. Eram dois povos diferentes.

O problema não estava na gestão, embora na Trofa se tenha criado essa ideia, foi por razões que tem a ver com o posicionamento político de quem discute. Eu sou socialista, mas continuava a achar que entre Trofa e Santo Tirso havia algumas diferenças que justificava que fosse criado o concelho, talvez com menos traumas e que houvesse depois uma boa vizinhança.

Como foi gerir esse assunto? Falou com Joaquim Couto?

Falamos no assunto, havia uma situação que era, sobretudo para mim, um pouco delicada, porque eu estava integrado numa equipa, mas morava na Trofa. Isto do ponto de vista emotivo foi difícil, gostava de não poder repetir este tipo de situações no futuro.

Necessariamente que haveria descontentamento, ou era contra a Trofa ou era contra a equipa.

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Do que recorda da reunião de Câmara de 3 de junho de 1998?

Lembro-me que foi uma reunião muito tensa, houve algum esgrimir de argumentos, até que foi feita uma proposta de rejeição da criação do concelho, apresentada pelo presidente da Câmara, que deu muita discussão, porque se questionou se era voto de braço no ar ou voto secreto. Depois verificou-se que se fosse voto de braço no ar iríamos ficar lá cinco a votar e não todos. Optou-se pela votação secreta e deu o resultado que todos conhecem, com as peripécias que se seguiram.

Que peripécias?

Na contagem dos votos questionou-se se foi cinco a quatro a favor da Trofa ou se foi cinco a quatro contra a criação do concelho e claro que foi cinco a quatro a favor da criação do concelho. Mas houve ali uma contagem e uma recontagem. Nessa altura, como trofense e tendo votado a favor do concelho, e que ninguém teve dúvidas e as que surgiram foram de conveniência, depois de cumprir o que achei que era a minha obrigação, o meu mandato acabou ali, porque estava integrado numa equipa contra a qual votei num assunto importante e não fazia muito sentido continuar.

Depois da votação, o que é que lhe comunicou o presidente da Câmara?

Penso que ele ficou, sobretudo, revoltado comigo. Depois encontramo-nos passados uns dias, ele não deixou de entender a minha posição, mas ficou algum melindre nos tempos imediatos. E eu entendi que ele tinha que lutar pela unidade do concelho a que ele presidia. Hoje, temos um bom relacionamento.

Acompanhou o trabalho da comissão promotora?

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Não era elemento dessa comissão, fui convidado, já numa fase final, mas eram já reuniões com toda a gente, muito emotivas, a fazer lembrar o PREC (Processo Revolucionário em Curso). Depois, fiz parte da comissão instaladora e da primeira Câmara Municipal eleita.

No dia 19 de novembro de 1998, foi a Lisboa?

Fui, não podia deixar de ir, por variadas razões. Era da Trofa, tinha disponibilidade e fazia pouco sentido que, tendo eu passado pelo que passei, não fosse a Lisboa para acompanhar a criação do concelho.

Hoje considera que fez sentido a Trofa ser elevada a concelho?

Há duas leituras, uma delas é a criação propriamente dita e a outra a forma como tem sido gerido o concelho. A criação faz todo o sentido, pelas razões que indiquei. Já pela forma como foi gerida, a Trofa passou por um PREC, e nos processos revolucionários fazem-se sempre muitas asneiras. Acho que, em vários momentos, teve uma gestão frenética e até megalómana, com projetos cujos resultados não são positivos. Não creio que a Trofa tenha sido bem gerida, embora há algumas coisas bem feitas, mas o problema da gestão é um problema que se resolve, se foi má há que escolher uma boa e não é por situações momentâneas que vamos colocar em causa uma prioridade muito mais importante que era a existência do concelho.

Na gestão com Santo Tirso, acho que não soubemos ganhar a batalha. Santo Tirso era uma fera ferida e se compete a quem perde saber perder, mas também compete a quem ganha saber ganhar. O conflito com Santo Tirso prolongou-se muito para além daquilo que era razoável, com prejuízo para os cidadãos da Trofa, porque ainda hoje há processos, sobretudo de obras particulares, que estão em Santo Tirso e já podiam estar na Trofa. 

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