É considerado o “pai da Trofa” e na hora de recordar o processo que levou à criação do concelho, Luís Marques Mendes salientou a dificuldade de negociar com os partidos e o momento em que teve que dizer aos trofenses que a proposta teria de ser adiada.

Antes da aprovação da criação do concelho na Assembleia da República, que passos deu na defesa do desígnio da população?

Eu assumi três compromissos com a comissão que, na altura, foi criada para tratar da elevação do concelho: estudar o assunto, negociar com os outros partidos e tratar do agendamento desse diploma.

Estudar o assunto foi fácil, negociar é que foi um pouco mais difícil, porque juntar três partidos bem diferentes – o PSD, PCP e CDS – não era fácil, mas sem um dos três partidos não era possível, porque o PS era contra. Depois desta negociação, surgiu uma dificuldade. O diploma foi agendado para o mês de setembro, mas o PCP lembrou-se, a dada altura, que setembro era antes do referendo da regionalização e que aí não concordaria e tivemos que alterar o agendamento e eu vim à Trofa explicar isso às pessoas, que torceram o nariz, pois acharam que estava aqui mais um político para falhar. Eu disse que não, que íamos cumprir. O agendamento foi desmarcado em setembro e foi traduzido em novembro. E aí tudo se resolveu.

Nas primeiras movimentações, há um discurso acalorado da sua parte, na inauguração do troço da autoestrada Porto-Cruz, que não agradou a muita gente, especialmente a elementos do seu partido de Santo Tirso.

Isso já não sei, para ser franco já não me recordo. Mas essa parte incomoda-me pouco. A questão era o resultado final. Eu assumi o compromisso de liderar politicamente, na Assembleia da Republica, o projeto, negociar com os outros partidos e se não fosse possível juntar os três partidos, nunca o concelho seria criado, porque o PS tinha quase maioria absoluta. Esta negociação era quase tão difícil como fazer a paz entre Israel e a Palestina e, como veem, lá ainda não existe paz. Eu tive um bocadinho mais de sucesso.

Como foi a gestão do processo junto dos elementos do seu partido em Santo Tirso?

Essa é a parte que nunca me custou muito, porque uma pessoa quando tem uma convicção luta por ela. Agora, quem governa tem que fazer escolhas e nunca se agrada a toda a gente. O melhor critério não é saber se agrada a mais ou a menos, mas tem que ser em função das convicções. Se eu acredito que a Trofa merece ser concelho, há alguns que não gostam, paciência, é a lei da vida. Eu tive até alguns mimos do ex-presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso, que de vez em quando dizia publicamente que eu fiz isto e aquilo, mas eu tenho as costas largas, apesar da minha baixa estatura.

Que mensagem tem para os trofenses, que atualmente vivem um bocadinho com o fantasma da fusão de municípios?

A fusão de municípios é uma coisa que eu acho que não vai acontecer, nem sequer me parece uma prioridade nacional. Para mim, parecem-me prioridades o que referi na minha intervenção, competitividade e solidariedade. Tratar de criar condições para que os concelhos se desenvolvam. Criem riqueza e gerem emprego, ajudar aqueles que mais precisam, sobretudo porque hoje há muita gente a passar por dificuldades. Não pode ser só o poder central nem só o poder local, têm que ser todos.