Crónicas e opinião
Desabafos de uma Mãe Imperfeita | Quem fica com as crianças? As férias que já não são como eram
Quando penso nas férias da minha infância, não penso em destinos exóticos, atividades organizadas ou agendas preenchidas.
Penso na casa da minha madrinha.
Penso nos pés molhados, depois de lavarmos o terreno exterior da casa, penso no cheiro da relva acabada de cortar e penso no bolinho feito aos sábados e na disputa para rapar a bacia onde a massa tinha sido batida.
Penso nos dias que pareciam não ter fim. Dias em que o relógio não mandava em nós. Dias em que brincávamos na rua até a mãe nos chamar para jantar.
Havia bicicletas espalhadas pela rua, joelhos esfolados, esconderijos secretos e brincadeiras inventadas no momento. Não precisávamos de muito para sermos felizes.
Dias simples, sem grandes planos, mas que ficaram guardados para sempre na memória. Talvez porque, na altura, não sabíamos que estaríamos a construir memórias. Estávamos apenas a viver e havia sempre alguém por perto.
Os vizinhos conheciam-nos pelo nome e sabiam de quem éramos filhos. Se caíssemos da bicicleta, havia sempre alguém que nos levantava. E, se fizéssemos asneira, a notícia chegava a casa antes de nós.
Na altura parecia uma chatice, mas agora percebo que tinha outro nome. Chamava-se comunidade.
Hoje, quando chegam as férias dos meus filhos, dou por mim a pensar muitas vezes nesses dias. Não porque ache que a infância deles deva ser igual à minha. Até porque os tempos mudam, as famílias mudaram, o mundo mudou. Mas porque me pergunto onde encontraremos agora esse tempo e essas pessoas.
As férias escolares continuam a chegar, todos os anos, com a mesma promessa de liberdade para as crianças. E ainda bem que chegam.
As crianças precisam desse tempo. Precisam de dias sem campainhas, sem testes, sem trabalhos de casa, sem horários apertados.
Passam já grande parte do ano entre escola, atividades, compromissos e rotinas definidas ao minuto.
As férias deveriam ser precisamente o espaço onde recuperam algo que tantas vezes lhes falta: tempo para serem, simplesmente, crianças.
Mas o que é, afinal, ser criança?
Talvez seja poder aborrecer-se sem que alguém sinta necessidade de resolver esse tédio. Talvez seja construir uma cabana com lençóis, transformar uma pedra num tesouro ou passar uma tarde inteira a inventar um jogo que só faz sentido para quem o criou.
Talvez seja voltar para casa com a roupa suja, os joelhos marcados e o coração cheio.
O desafio nunca esteve nas férias, mas sim em encontrar forma de as fazer caber na vida dos adultos, que continuam a não poder parar.
Enquanto as crianças entram de férias, os pais continuam a acordar cedo, continuam a cumprir horários e a tentar encaixar tudo o que a vida lhes pede. E, de repente, aquilo que para uma criança significa férias, para muitos pais significa uma enorme operação logística.
Quem fica com os miúdos? Há avós disponíveis? Há família por perto? Há ATL? Há colónias de férias? Há alguém que possa ajudar?
Não porque os pais não queiram estar com os filhos, muito pelo contrário. Mas porque a vida não abranda ao mesmo ritmo que as férias escolares.
Essa é uma grande diferença entre a infância de muitos de nós e a infância das crianças de hoje. Não tanto as brincadeiras, mas as pessoas.
Quando éramos pequenos, existiam, muitas vezes, avós disponíveis, familiares, vizinhos atentos, primos por perto. Havia uma rede, uma espécie de aldeia invisível, que ajudava a cuidar das crianças.
Hoje muitos avós continuam a trabalhar e as famílias vivem mais longe umas das outras. Os horários são mais exigentes e tantas vezes sentimos que temos de conseguir fazer tudo sozinhos.
Um dos maiores luxos que uma criança pode ter, nos dias que correm, não passa por viajar mais, fazer mais atividades ou ter mais e diferentes brinquedos ou entretenimento. É, simplesmente, ter tempo de alguém.
Alguém que pare para ouvir uma história, sem ter de estar a olhar para o relógio, ou que consiga brincar com ela, sem pressa.
Criar uma criança nunca foi tarefa para uma pessoa só. Nem para dois pais apenas.
Sempre precisamos uns dos outros.
Talvez, por isso, as férias também nos recordem da importância das redes de apoio. Sejam elas compostas pela família ou por amigos, vizinhos, ATL, colónias de férias ou de outras pessoas que, de alguma forma, ajudam a cuidar dos nossos filhos quando não nos é possível estarmos presentes.
Quando penso na casa da minha madrinha, no cheiro da relva acabada de cortar, do bolo a saír do forno ou dos pés molhados no calor do verão, percebo uma coisa: nunca tive as férias mais extraordinárias do mundo. Tive apenas pessoas comigo e foi isso que as tornou extraordinárias.
Talvez, um dia, os meus filhos não se lembrem de todos os sítios onde passaram as férias, nem de todas as atividades que fizeram. Mas espero que, quando forem adultos, consigam fechar os olhos e recordar uma pessoa, um cheiro, uma gargalhada ou um lugar que lhes aqueça o coração, tal como me acontece, hoje, a mim.
É importante também que nos lembremos que, os pais de agora, fazem, muitas vezes, verdadeiros malabarismos para conseguirem dar aos filhos aquilo que consideram ser o melhor. Trabalham porque precisam, organizam horários quase impossíveis e procuram quem cuide dos seus filhos com o mesmo carinho com que eles o fariam.
Não importa a quantidade de tempo, mas a forma como escolhemos viver o tempo que conseguimos ter. Porque as memórias mais bonitas raramente nascem dos dias perfeitos. Nascem de pessoas imperfeitas, cansadas, ocupadas… mas profundamente presentes quando, finalmente, chegam.
Nascem de um abraço demorado, de um bolo feito em conjunto, de uma história antes de dormir, de uma gargalhada inesperada e de todas aquelas pequenas coisas que, um dia, os nossos filhos recordarão, sem saberem muito bem porquê.
Talvez nunca lhes consigamos oferecer férias perfeitas. Até porque, no fim de contas, aquilo de que as melhores memórias sempre foram feitas, nunca mudou.
Amor. Presença. E pessoas.
Crónica de Sandra Pinheiro
sandrapaisfonseca@gmail.com
@sandrapinheiro.comalma


