A alimentação é um mundo. Nós somos, irrevogavelmente, aquilo que comemos! E o mais incrível é que tudo começa na barriga da nossa mãe. Já aí estamos a adquirir hábitos alimentares dependentes da alimentação da mãe.

Cada vez mais há evidência que aponta que o crescimento fetal (e infantil) influencia a saúde do adulto. A alimentação é tão importante que as escolhas de hoje afetam os anos futuros! Escolhas antes da gravidez, no período pré-natal, quando a mulher pretende engravidar, escolhas durante a gravidez, escolhas durante a infância, onde os pais têm um papel extremamente importante, adolescência e vida adulta. As nossas escolhas serão, inevitavelmente, a nossa futura imagem.

Um dos momentos críticos do desenvolvimento fetal dá-se entre as primeiras duas e oito semanas de gestação, período no qual muitas mulheres ainda não sabem da existência de outro ser dependente de si. Isto justifica a importância da mulher adaptar a sua alimentação mesmo antes de pensar em engravidar! Uma baixa ingestão de vitamina E, ácido fólico e magnésio no período pré-concecional estão associadas, entre outros efeitos nocivos, a restrição do crescimento intrauterino. Por outro lado, sabe-se que o ácido fólico silencia genes promotores do apetite ao nível do hipotálamo. Por outras palavras, os filhos de mães com deficiência nesta vitamina terão um maior apetite e maior probabilidade de excesso de peso e obesidade no futuro.

A exposição ao fumo de tabaco, mesmo antes da gravidez, parece ser um fator de risco para o desenvolvimento de obesidade da criança, depois do nascimento. O mesmo acontece em mães que aumentam excessivamente de peso durante a gravidez.

É atualmente incontestável que o ambiente intrauterino influencia o desenvolvimento do bebé, podendo desencadear mudanças estruturais e funcionais que provavelmente persistirão por toda a vida. A teoria da programação de doenças crónicas in utero tem reunido fortes provas ao nível da suscetibilidade a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, esquizofrenia, síndrome metabólica e obesidade na idade adulta.

Por outro lado, será que podemos, durante a gravidez, mudar e modelar as preferências alimentares da criança que vai nascer? Afinal, sabe-se que o bebé reconhece e prefere a voz da mãe mesmo antes de nascer! Como será relativamente à alimentação?

Cada vez mais surgem estudos que estudam os flavours (análise sensorial que engloba o aroma e o sabor) da alimentação da mãe. Estes parecem ser transmitidos para o fluido amniótico. Assim, o feto, que desde cedo engole fluido amniótico, estará exposto a estes flavours. Por exemplo, observou-se numa criança cuja mãe, durante a gravidez, ingeria frequentemente açorda alentejana – cheia de flavour (alho, coentros, fio de azeite…) que a reação à primeira papa de açorda (ao invés das papas comerciais) era de perfeita tranquilidade. Como se já estivesse perfeitamente habituado à açorda!

Esta exposição de flavours inicia-se na gravidez e continua no período de amamentação. Os bebés amamentados experimentam precocemente uma variedade de flavours que não estão presentes nas fórmulas comerciais, o que vai influenciar a sua reação à diversificação alimentar. Ao contrário do que se pensava há anos, durante a amamentação, a mãe deverá expor-se aos mais variados alimentos e flavours para estes passarem para o leite e, assim, o bebé reconhecê-los e adaptar-se a eles!

Haverá bem mais precioso que a saúde? Ela inicia-se na barriga da nossa mãe, tendo a alimentação um papel preponderante! Assim, a referenciação, em tempo útil, de mulheres grávidas ao nutricionista poderá ser um ponto de partida para a adequação da dieta e da suplementação às necessidades da mãe e do filho.

Afinal, “Somos o que comemos” ou “Somos o que a nossa mãe comeu”…?

Ana Isabel Ferreira – Estagiária de nutrição