O economista João Cerejeira participou no estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que sugere ao país uma mudança de paradigma para uma economia mais forte e desenvolvida.

“Do ‘made in’ ao ‘created in’: um novo paradigma para a economia portuguesa” é o mais recente estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que sugere “um novo paradigma de criação de riqueza” ao país, “como resposta ao “forte impacto” que a economia portuguesa vai sofrer com o envelhecimento da população e da transição climática.
O ensaio contou com a participação do economista João Cerejeira, investigador e professor na Universidade do Minho e vice-presidente da APPACDM da Trofa, que se ocupou do capítulo relativo ao mercado de trabalho.
“É importante referir que este estudo não pretende ser um programa de governo nem uma alternativa ao Plano de Recuperação e Resiliência, mas pretende contribuir para o debate sobre os caminhos que o país, e em particular as políticas públicas, deve prosseguir, tendo em conta um contexto de acelerado envelhecimento da população, e a necessidade de aproveitar as oportunidades geradas pela transição energética tecnológica e climática”, destacou João Cerejeira, em declarações ao NT.
Na apresentação do estudo, que está disponível para consulta no site da FFMS, em www.ffms.pt, os especialistas aconselham a adoção do “paradigma ‘created in’”, através de um contexto que “favoreça o nascimento e o crescimento de empresas inovadoras”, com “mercados concorrenciais; legislação laboral que incentive a qualificação dos trabalhadores e o rápido ajustamento às mudanças tecnológicas; mercados financeiros eficientes; conectividade ferroviária, portuária e aeroportuária de excelência; e produção científica de acordo com os mais elevados padrões internacionais”.
Segundo João Cerejeira, o estudo “coloca a tónica na inovação como o principal ingrediente para aproximar a produtividade da economia portuguesa para os níveis das economias mais desenvolvidas”. “Só com aumento da produtividade será possível aumentar salários e proporcionar serviços públicos de qualidade e dar resposta aos desafios que o país vai enfrentar nas próximas décadas”, postula.
Para que isso aconteça, urge a criação de um “ambiente favorável”, que passa, segundo o economista, pela conjugação de condições que tornem o país atrativo para as empresas estrangeiras e técnicos altamente qualificados.
À lupa, o atual mercado de trabalho português é visto pelos especialistas como potencial condicionante à “mudança de paradigma”: primeiro, pela “muito baixa” qualificação média da população ativa, em comparação com os restantes países da Europa; depois, pelo envelhecimento demográfico, que vai obstaculizar o processo de recrutamento de mão de obra em determinadas ocupações profissionais, apesar de se verificar uma evolução positiva na população mais jovem.
“Nas últimas décadas acentuou-se o desfasamento entre as qualificações dos mais jovens e as competências que o mercado de trabalho procura. A procura por profissionais nas áreas CTEM (ciências, tecnologia, matemática e engenharia) aumentou, bem como para detentores do grau de mestre, sendo desfasamento referido mais evidente nos licenciados nas áreas das ciências sociais e humanidades”, detalhou João Cerejeira.
Por outro lado, considerando o topo da hierarquia, o estudo acompanha a constatação de outros, que apontam para um “maior crescimento” das empresas “fundadas por empreendedores mais qualificados”. “A educação formal das equipas de gestão reduz a probabilidade de as micro e pequenas empresas caírem em situações financeiras problemáticas e aumenta a probabilidade da sua subsequente recuperação. Equipas de gestão mais qualificadas também tendem a integrar nos quadros da empresa trabalhadores mais qualificados. E sabemos que a produtividade das empresas está diretamente correlacionada com a qualificação da força de trabalho. Assim, a melhoria da qualidade da gestão terá um impacto significativo quer no nível de qualificação dos trabalhadores contratados, quer na sobrevivência, produtividade e crescimento das empresas”, explicou.
No que respeita à legislação laboral, João Cerejeira declara que este ensaio não aponta para a necessidade de grandes alterações, mas propõe “ajustamentos pontuais” e regulação dos “novos modelos de trabalho que emergirão com a nova tecnologia e com as mudanças trazidas pela pandemia”.
“As instituições do mercado de trabalho devem facilitar (ou pelo menos não impedir) a realocação de trabalhadores e postos de trabalho entre empresas, indústrias e regiões”, nem devem “limitar o potencial de criação de postos de trabalho associado a novos modelos de negócio e a novas formas de trabalho tornados possíveis pelas novas tecnologias”.