Pressupõem-se que quem é eleito para um cargo público deva fazer serviço público consubstanciado na execução de políticas que vão ao encontro dos interesses das populações, para o seu presente e para o seu futuro. O capital para essa execução advém de transferências do Estado central, arrecadados direta ou indiretamente dos nossos impostos. E é assim que um Estado funciona: arrecada impostos e aplica-os.

Estranha-se assim que a Trofa tenha despertado para um pesadelo: o seu presidente de câmara, durante mais de dois anos, por iniciativa própria, vem negociando a instalação de uma lixeira ou aterro sanitário, como se queira chamar, no território da Trofa, mais precisamente em Covelas. Uma realidade que, dada a reduzida dimensão do território, afetará a todos, inclusive os concelhos vizinhos, não sendo, por isso, um problema apenas de alguns.

Poderia, por ventura, estar a ser tratada a vinda do metro até à Trofa, uma nova ponte sobre o rio Ave ou até mesmo a construção de uma rotunda na Carriça, promessas essas que estão por cumprir e já lá vão sete anos! Mas não é esse o caso, o trato incide sobre algo que não está no programa eleitoral e que, portanto, a todos surpreende.

Ignorando impactos nefastos no ambiente, com riscos acrescidos de contaminação da água e dos solos, odores e poluição do ar, ruído dos camiões e de maquinaria, invasão de gaivotas, destruição paisagística, a que acresce a brutal desvalorização de terrenos, de casas e até mesmo das zonas industriais. O porquê de, durante tanto tempo, não se ter tornado em discussão pública, deixando, por referendo, à população decidir?

O presidente da câmara preferiu assumir uma postura de empresário, fixando preços, referindo que a quantia de quatrocentos mil euros não é justa e que dois milhões de euros, sim. Afasta-se assim por completo das suas funções e fica aquém da sensibilidade que deveria possuir para lidar com uma matéria tão estrutural e de tamanha importância para o futuro de tantos munícipes.

Sérgio Humberto estabelece nesta questão da lixeira um princípio meramente mercantilista, tratando o público com a mesma lógica com que se trata o privado, agindo como se o território fosse seu, uma espécie de rei absoluto dos tempos modernos!

Como se o caso não estivesse já suficientemente mal contado, face à oposição que se vai desenhando por parte das populações, o edil passou a contrariar a sua narrativa inicial de defesa das vantagens desta infraestrutura (clara em diversas intervenções públicas) e a convicção de negociar com a entidade promotora, procurando “dar um dito por não dito” empurrando a culpa para os outros, não vá o assunto complicar a sua reeleição autárquica daqui por uns meses…

Até lá vai ficar tudo bem!