Em Portugal, 25 por cento das causas de morte estão ligadas ao cancro. No âmbito do Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, o NT foi conhecer a história de uma família que lidou com a doença de duas formas.

 A velha máxima de que “só acontece aos outros” mina a cabeça de muitos e a falta de conhecimento ainda agrava o desinteresse por uma doença que vitima 25 mil pessoas por ano. Ou seja, estatisticamente, 70 pessoas perdem a vida por dia… Três por hora. Só em Portugal.

Se os números atuais assustam, as estimativas para as próximas décadas não são mais animadoras. Prevê-se que dentro de 20 a 40 anos, os casos de cancro e a mortalidade a ele associada dupliquem.

Registaram-se grandes avanços na medicina oncológica, no entanto, o cancro é a epidemia do século XXI, pelo que é urgente combater a “besta” mesmo antes de ela aparecer. A prevenção e o diagnóstico precoce podem ser a tábua de salvação.

O NT não quis deixar passar despercebido o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, assinalado a 4 de fevereiro, e foi conhecer a história da família Martins, na Trofa, que passou pelo flagelo da doença que atingiu dois irmãos. Os desfechos foram diferentes. Enquanto Paulo, agora com 25 anos, conseguiu vencer o cancro, o irmão Vítor Hugo sucumbiu na luta contra a doença, que o levou precocemente, aos 31 anos, deixando saudade um pouco por todo o concelho e região.

Um carcinoma testicular foi o diagnóstico que Paulo Martins menos queria ouvir naquela consulta de quarta-feira. As suspeitas já o tinham levado a fazer uma penosa e incessante busca pela internet e foi aí que teve o primeiro confronto com a doença, em meados de setembro de 2008. “Senti dores e decidi ir à internet ver o que se passava. Foi aí que tive o primeiro grande choque. Fui ao médico, no centro de saúde, que me disse que não seria nada, mas por descargo de consciência mandou-me fazer uma ecografia. Aquando do resultado imediato, na clínica disseram logo para falar com o médico, mas deixei ir passando. Comentava com a minha mãe, mas sem ela saber o que se passava efetivamente. Com os anti-inflamatórios que o médico me receitou, ia dizendo-lhe que estavam a fazer efeito, para a acalmar. Mas não era isso que acontecia”, contou. “As dores agravaram-se” e no momento em que se tornaram insuportáveis decidiu ir ao médico mostrar os exames, que confirmou o pior cenário.

A namorada, e atual noiva, de Paulo acompanhou-o desde o início do processo e conseguiu “por intermédio de alguns professores” chegar à fala com um urologista de renome do Hospital de S. João, Ulisses Ribau, que o operou no dia seguinte. A cirurgia “foi um sucesso”.

 

A quimioterapia e o confronto com uma nova realidade

Só a palavra assusta. A quimioterapia é um dos processos normais no tratamento do cancro e Paulo Martins teve que passar por ele durante três meses: “Pelas imagens que via na comunicação social, senti que era um verdadeiro inferno. Tive sempre na cabeça a imagem das pessoas com aquelas fáceis de tristeza e de dor e dos efeitos adversos da quimioterapia, mas foi uma ideia que, ao longo do tempo, se foi esbatendo. É óbvio que se encontram pessoas mais vulneráveis, mas a balança não é certa. Pesa mais o lado das pessoas que encaram aquilo como forma de luta e coragem”.

Foi aí que encontrou “forças para enfrentar a doença” e não vacilou quando esta o pôs à prova. Depois de uma rotina diária de cinco horas de tratamentos, quis a ironia do destino “adiar” a última sessão de “quimio”. “A fase final foi a que mais me custou, pois começas a ver a luz ao fundo do túnel e ela nunca mais se aproxima de nós”, frisou. No entanto, o percurso sinuoso terminou, sempre amparado pelos pais, irmão e amigos.

Os tratamentos de quimioterapia terminaram em 2009 e a recuperação total foi confirmada em 2010.

A experiência de Paulo Martins fê-lo agarrar a vida com mais força e ensinou-lhe muito ao nível dos afetos. Para além de os poder aplicar na futura profissão – está a acabar o curso de enfermagem -, foram muito importantes mais cedo que podia imaginar.

Um ano depois da recuperação, a 22 de março de 2011, foi diagnosticada leucemia linfoblástica ao irmão, Vítor Hugo. O diagnóstico era mais desfavorável, pois ao contrário do carcinoma, que se aloja num órgão que dá para extrair, a leucemia é, numa linguagem corrente, “o ataque de células malignas à fábrica das células boas do sangue”. Paulo já tinha estudado a doença na faculdade e sabia que esta era das que tinha “pior prognóstico”, mas sempre alimentou “a esperança”

“Foi muito complicado. Apesar de ter todo o apoio, o meu irmão sempre foi muito resistente aos cuidados de saúde, nunca gostou de ir a hospitais”, explicou.

Nos primeiros tempos, Vítor Hugo encarou os tratamentos de forma positiva, mas o cancro pregou-lhe uma rasteira. Esteve três dias em coma e a recuperação foi feita “como se tivesse acabado de nascer”. “Passou por tratamentos de reabilitação física, desde andar a atividades diárias autónomas”, contou Paulo Martins. Vítor Hugo agarrou a vida e subiu os degraus, um a um, até conseguir voltar a fazer o que gostava: dar aulas e treinar escolas de futebol. “Estava tudo a correr bem” até que a “besta” regressou e o derrotou.

A grande afluência às cerimónias fúnebres, com presença de entidades dos mais variantes quadrantes do concelho, espelha o carinho que a população da Trofa tinha por este jovem, cujo “trabalho que fez nas escolas primárias, na Câmara Municipal da Trofa e nos clubes onde treinou foi reconhecido”.

Era adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica, mas também defendia com “unhas e dentes” o Clube Desportivo Trofense, que lhe prestou “uma grande homenagem”, assim como várias associações e grupos paroquiais dos quais também fez parte.

 

Um novo sentido para a vida

O cancro deu muito sofrimento e como obstáculo ultrapassado alargou os horizontes a Paulo Martins, que assimilou um novo sentido da vida. Hoje, assume-se como “um coração de manteiga”, pois não consegue guardar rancores com ninguém. “A partir do momento em que nos perdoamos e perdoamos o outro, mesmo que não tenhamos culpa, vai ser muito importante pois sentir-nos-emos muito mais leves e falo por experiência pessoal”.

A noiva, Marta, complementa: “Quem passa por estas coisas começa a dar cada vez menos importância às mesquinhas com que tantas vezes as pessoas se irritam. A vida começa a ter outro sentido. Temos é que viver o dia a dia em paz, porque nunca se sabe o que vai acontecer amanhã”.

Desde o início do tratamento, Paulo é seguido pelo Hospital de S. João, do qual elogia “o excelente trabalho do pessoal de enfermagem”. Depois da recuperação viu-se obrigado a ir ao médico, de três em três meses, fazer exames, mas o espaço temporal de vigilância aumentou. Agora, confessa, vai às consultas “com um friozinho na barriga”, mas “felizmente, até hoje, as coisas estão a correr bem”.

 

Uma mensagem de otimismo

“Para as pessoas que estão a enfrentar a doença espero que tenham confiança em vocês. Tenham força, porque vamos buscá-la onde nem sabemos que existe, para lutar e ir em frente, pensando que é só mais um dia que está a passar. Não querendo cingir-me muito em crenças, mas é aquela à qual eu acredito, é preciso ter fé. Ele vai fazer as coisas conforme a nossa vontade, se nós tivermos vontade de lutar ele vai dar-nos força para lutar. E vamos viver a vida sem ressentimentos. Se nos colocaram cá é porque é para viver uns com os outros, temos que viver em comunidade. Quando um dia chegarmos todos a ter este pensamento, acredito que é a transmitir isso ás pessoas que o mundo será muito melhor”.