Não resistindo, confesso que desta vez as minhas palavras vão-se debruçar sobre o que ando a ouvir e sobre o que vejo. Mas vamos começar já: vou falar de um disco e de um filme.
Fornelo e recta da Maganha. Por mais incrível que pareça, esta área geográfica está presente num dos melhores álbuns editados em 2016, de seu nome Villa Soledade dos Sensible Soccers. E sim, é a casa pertencente a uma figura conhecida da Trofa, alvo de muitos flashes ou, pelas palavras da banda, uma casa que “tem um jardim com uma Torre Eiffel e réplicas fiéis do autor espalhadas, lápides com dizeres estranhos, macacos a beber de um chafariz”. Uma vez que o álbum foi concebido em Fornelo, a banda teve que utilizar várias vezes a Nacional que passa na recta da Maganha e, claro, o trio não ficou  indiferente a macacos sedentos. Foi neste cenário e na vida social de Fornelo que as gravações ocorreram. Se muitos poderiam cair nos preconceitos normalmente associados a estas zonas suburbanas, os Sensible Soccers pegam em todo este espaço urbano/dormitório/industrial/rural e dão-lhe uma banda sonora moderna, onde a electrónica reflecte todo um imaginário sem complexos ou pruridos. Sendo o Villa Soledade o segundo álbum, esta é daquelas bandas em que sabemos que o próximo disco ainda pode ser melhor.
Virando a página, por estes dias fui ver ao cinema o filme A Lei do Mercado (2015) de Stephane Brizé, com Vincent Lindon no papel principal. E que papel! O filme retrata a vida de um homem de meia-idade, desempregado e que está a chegar ao limite das suas forças anímicas para enfrentar o flagelo do desemprego que acontece todos os dias à nossa volta. Sendo francês, o filme tem uma aproximação muito realista com a nossa paisagem e referências. Depois de a fábrica ter fechado, surge finalmente uma oportunidade ao protagonista de trabalhar como segurança numa cadeia de supermercados, onde o que lhe é pedido irá pôr em causa os seus valores e convicções. E tudo sem respostas fáceis ou dicotomias pueris. Mais não digo, pois o melhor é irem ao cinema.

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Esta altura do ano já é conhecida como a época de arranque dos principais festivais de música, onde a oferta é diversificada e cada vez mais segmentada. Cada tribo tem o seu festival. Em comparação, os cartazes dos principais festivais de há 15 ou 20 anos eram mais ecléticos e heterogéneos. A turma toda podia ir ao mesmo festival. Hoje os da fila da frente vão ao festival x, os da fila do meio vão ao festival y (ou não vão a nenhum) e os da fila de trás vão ao festival z. Neste tópico, parece-me que o cartaz do BeLive é rico só em calorias e óleos saturados, parecendo o seu alinhamento (vamos tirar desta equação as bandas ligadas à Trofa) uma playlist da rádio que apoia o evento.
Hoje está muito em voga o pensar “fora da caixa”. Devemos sim, é perguntar o porquê de pensarmos em “caixas”.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico