Edição 523
Autismo e tiros no pé

Em linha com o episódio que envolveu AC, também o vice-primeiro-ministro voltou a ser alvo de uma espécie de bullying por parte do parceiro de coligação. Apresentada a biografia encomendada de/por PPC, ficou o país a saber que Paulo Portas terá informado o primeiro-ministro da sua “demissão” por SMS, algo que, imediatamente após ter criado um tremendo mal-estar no seio da coligação, deu origem a um incêndio que alguns bombeiros da direita tentaram apagar mas que ainda se encontra por circunscrever. Várias foram as figuras do CDS que saíram em defesa do líder para contrariar a versão autorizada de PPC: Portas teria enviado primeiro uma carta registada e só depois a famosa SMS. Perante a incompatibilidade de versões e a ausência de comentários da cúpula do PSD ao desmentido dos centristas, ganha força a teoria de que Portas estará nas mãos de PPC e não o contrário como tantas vezes se argumentou. Se seguisse para eleições sozinho, o destino do CDS poderia muito bem vir a ser o mesmo dos Liberais Democratas no Reino Unido: tornar-se irrelevante. Daí a predisposição do irrevogável para engolir o sapo.
Apesar de evitáveis e desnecessários, ambos os casos prejudicam significativamente as aspirações eleitorais de PS e PSD. Mas Passos Coelho, fiel a uma já longa tradição de tiro no próprio pé, conseguiu ir ainda mais longe e uniu, como poucos conseguem, o disparate à falta de bom senso e ao desrespeito grosseiro pela população portuguesa quando decidiu fazer uma série de elogios a Dias Loureiro, seu antigo conselheiro e um dos arquitectos dessa desastrosa fraude laranja que foi o caso BPN. E a menos que o “bem-sucedido” Dias Loureiro tenha um job para o primeiro-ministro quando findar a aventura em São Bento, torna-se muito difícil de perceber este disparo suicida de PPC na mesma cidade onde afirmou, há 5 meses atrás, que os “políticos não são todos iguais”. Não são. Mas PPC não é diferente daqueles que mentem, tal como o amigo e político Dias Loureiro fez no Parlamento, e que bajulam pares seus envoltos em neblina. Se Dias Loureiro fosse Sócrates, PPC não hesitaria em embarcar no autocarro solidário que há uns meses se deslocou a Évora. P.S. Com tantos e tão bem pagos assessores formados na “universidade” de Castelo de Vide, não terá havido um que tivesse conseguido antecipar a figura ridícula que o primeiro-ministro fez e repetiu? Inúteis.



