Alberto Vieira, padre missionário, natural de Santiago de Bougado, está em Moçambique desde 2006, em missão. De volta a Portugal, apenas por algumas semanas, o missionário comboniano explicou, numa entrevista exclusiva ao NT e à TrofaTv, o seu dia-a-dia na missão e as razões pelas quais voltou.

 

padre-alberto.jpg“Eu não sei se irei morrer na missão, mas quero trabalhar, estar e viver para a missão enquanto tiver saúde”. Esta é a convicção de Alberto Vieira, padre missionário,  natural de Santiago de Bougado e que está em Moçambique desde 2006.

Padre Alberto como é conhecido, chegou à Trofa esta semana, mas diz querer voltar para Moçambique e para a sua missão. “Aqui estava melhor, mas é uma questão de coerência, porque cada um deve estar no local para onde foi chamado e é por isso que lá me encontro e para lá espero voltar”, acrescentou.

Apesar de muitos o terem “pressionado” para ficar, nomeadamente “quando o padre Ribeiro faleceu”, Alberto Vieira preferiu voltar para Moçambique, onde já tinha estado pela primeira vez em 1989. Devido à sua ligação com as famílias e jovens da Trofa, desenvolvida entre 1999 e 2006 – tempo em esteve  nos Missionários Combonianos em Famalicão – “quando o padre Ribeiro faleceu houve uma pressão social, eclesial e até se quisermos política, do poder local. Eu estive, desde a semana que antecedeu a morte do padre Ribeiro ao dia de todos os Santos, com o telemóvel desligado, porque a pressão era muita”, lembrou.

Apesar do carinho e preocupação que os trofenses mostravam, o padre sentia a “luta interior da fidelidade à vocação de ser missionário. E no dia de Todos os Santos, numa celebração no cemitério, expliquei porque não ficava na Trofa e a paróquia compreendeu e continuou a amar-me. Deus deu-me outra vocação”, explicou.

Actualmente está em Ribaué, uma vila em Moçambique que está a 140 quilómetros para o interior a caminho da diocese e província de Nampula. Segundo o missionário este “é um distrito com grande desenvolvimento, já tem luz hoje, não há internet, mas temos telemóvel, há energia eléctrica que chega lá 24 horas por dia embora às vezes falhe. Mas ter luz e telefone é uma revolução em África. Está em vista também passar por ali a estrada internacional, que liga o porto de Nacala para o interior, que é o único corredor importante para a economia. É um distrito com futuro e agora que vai haver eleições em algumas autarquias Ribaué vai tornar-se autarquia, vai ter autonomia de gestão. Isto é uma mostra de que o Governo também está a apostar no desenvolvimento do distrito”.

No entanto, esta situação só se verifica no local onde o padre Alberto está a viver, “porque depois quando vou para o mato, para outras comunidades, fico às vezes uma semana sem ter luz e comunicação”. Para além destes “pequenos luxos”, que para os Europeus são imprescindíveis, o missionário depara-se também com outros problemas, nomeadamente de ordem social e eclesiástica.

“São dois campos diferentes, mas que normalmente os missionários e missionárias procuram investir”. No campo social, a educação é o que mais preocupa os missionários: “Temos duas irmãs a tempo inteiro na escola secundária, e temos também um jardim infantil onde outra irmã tem cerca de 250 crianças por dia. Mas este número não é considerado muito grande porque ali crianças são aos  montes, como é normal em África. Vê-se cada vez mais uma degradação cultural, o professor transita o aluno que não tem aproveitamento escolar nem frequenta as aulas. Não há meios nem estímulos, porque o aluno sabe que tem de haver uma meta de 95 por cento que, por exemplo, tem que transitar de ano, isso desmotiva e faz com que eles não se apliquem. É um desnível cultural que cada vez mais se vai agravando”, referiu.

Quanto à vertente eclesiástica, “um aspecto que se nota é que as comunidades são muito móveis”, afirmou Alberto Vieira, explicando “por exemplo é inconcebível para eles uma pessoa estar há trinta anos a dar catequese. Eles no fim de dois anos já estão cansados de qualquer serviço, isto obriga a muita mobilidade nos serviços, e a igreja não cresce, não se estabiliza, não cria raízes como seria desejado, isto é um grande obstáculo ao desenvolvimento da religião”.

Para além desdes dois problemas, existem outros, segundo o missionário. “Não é que eles não queiram fazer nada, eles trabalham, mas não têm tantas motivações, nem tantos sonhos de ter, de mostrar e de possuir como os europeus. Como não têm essas motivações, deixam-se levar por ter o mínimo para sobreviver, tendo farinha, um pouco de feijão, amendoim e verdura e já estão satisfeitos com uma camisa usada”, contou.

Este trabalho na província de Ribaué não é desenvolvido só pelo padre/missionário português, mas também por mais dois padres de continentes diferentes, um moçambicano (África) e outro mexicano (América).

Com um território vasto no qual dão assistência, a língua, por vezes, é um obstáculo. O idioma oficial em Moçambique é o português, no entanto, nos diferentes territórios são falados diferentes dialectos desenvolvidos por cada tribo. “Eu não falo a língua, eu compreendo bastante se celebrarmos na língua deles, entendo e falo uma palavra ou outra, mas não a aprendi, onde estou a língua é a Macua, a mais falada em Moçambique, embora não tenha qualquer expressividade, porque a língua do sul, de quem governa é que é a mais importante”, justificou.

 

“Ser útil aos outros”

 

“Decidi ser missionário por vários motivos ao longo da minha história pessoal e depois de ter estado em África e de ver o trabalho que lá faziam, surgiu como um projecto de vida”.

Natural de Santiago de Bougado, na Trofa, Alberto Vieira entrou no seminário em 1975. Primeiro acabou o liceu, aprendeu Filosofia em Coimbra, e depois de um interregno em Santarém durante dois anos para ser frade, concluiu o curso de Teologia em Roma, Itália, e outros cursos em Paris, como Teologia dos Sacramentos.

A 29 de Junho de 1985 foi ordenado padre, na sua freguesia natal, mas após a celebração voltou a Paris, porque a tese do curso ainda não estava concluída. Em 1986, já em Coimbra trabalhou três anos com alunos do curso de Filosofia e teve também a seu cargo a animação de jovens em Coimbra, Leiria e Aveiro.

“Em 1989 foi quando parti a primeira vez para Moçambique, estive em Niapala, no Norte de Moçambique na diocese de Nampula, distrito de Ribaué e em finais de 1993 fui mandado trabalhar como responsável da pastoral de toda a diocese de Nampula. Era director do centro catequético, onde os missionários e os leigos se preparam para trabalhar não só na diocese de Nampula, mas em toda a zona Macua e aí fiquei até 1998, e depois voltei, fiz um ano sabático, um ano de estudos no México e em 1999 vim para Famalicão”, recordou.

Ser missionário Comboniano “foi uma questão de opção pessoal”. Depois de Alberto Vieira ter visto o modo como trabalhavam, as orientações que tinham, o modo de estar e de trabalhar na ajuda aos mais pobres, ficou seduzido e decidiu continuar a obra de Combone. “Isto porque Combone ao contrário de muitos fundadores de obras missionárias, viveu, esteve no terreno, fundou um grupo de missionários no terreno e morreu no terreno missionário, ao contrário de tantos outros fundadores. Combone teve um papel preponderante do ponto de vista social, na questão da libertação dos escravos, no empenho e na luta para que a escravatura fosse abolida, para além de ser missionário e evangelizador”, argumentou. Como Combone, Alberto Vieira quer continuar e conta: “Combone uma vez apanhou malária quando estava na Europa e escreveu ‘que vergonha, eu quase que morria na Europa e um bom soldado deve morrer no campo da batalha, isto é, um bom missionário deve morrer na missão’. Eu não sei se irei morrer na missão, mas quero trabalhar, estar e viver para a missão enquanto tiver saúde”.