O que enobrece e fortalece o regime democrático, é sem dúvida alguma, a forma como o poder é exercido, mas também, e muito, a forma como se faz oposição. Fazer oposição é um acto que engrandece a democracia e que é tanto ou mais importante que o próprio poder. Existe legislação que garante o direito à oposição, mas não tem sido só o poder que tem escamoteado o estatuto da oposição. Até os jornais lhe dão uma visibilidade mortiça e genericamente, desconhecem-se os seus argumentos. Também a própria oposição, pelas suas intervenções de credibilidade duvidosa e quantas vezes de uma qualidade paupérrima, têm contribuído para o descrédito da política e dos políticos.

   Letargia e inacção dominam o quadro político na Trofa. A oposição, ou a falta de oposição, contribui decisivamente para o ambiente de descrédito e deveras desolador, que com falta de garra e de «Trofismo», tem desanimado os Trofenses. Este ambiente que a politica provoca, tem sido interrompido por breves e burocráticos resmungos. Falta de dedicação, deslumbramento serôdio por serem autarcas eleitos e incapacidade de estarem atentos ao desenvolvimento da acção autárquica, tem sido o panorama com que muitos dos eleitos têm brindado quem os elegeu.

Ninguém chega ao poder se não souber ser oposição. Quem quer atingir o poder tem que saber construir crédito na oposição. Ser oposição não é um anexo, ou um apêndice, de quem está no poder.

Exemplos de oposição que entristece quem os elegeu, são muitos e alguns até públicos como são os casos passados recentemente na Assembleia Municipal. Numa das suas muitas intervenções, o Presidente da Câmara lamentou que a oposição não tem louvado aquilo que a Câmara tem feito (?) de bom; e logo "salta" um Deputado Municipal, dito da oposição, no seu estilo, desajustado para o efeito, para dizer que já o elogiou muitas vezes e que até contribuirá com o seu dinheiro pessoal, para o ajudar nas suas obras de beneficência. Isto não é oposição, mas sim um anexo do poder. Outro exemplo ilustrativo da má qualidade da oposição, é uma intervenção de outro Deputado Municipal, que pelo facto de se deslocar da Trofa ao Porto em pouco mais de quinze minutos, tem dúvida se se justifica a vinda do Metro à Trofa. Para este Deputado Municipal, a solidariedade não existe, para com aqueles que há mais de seis anos não tem o meio de transporte que lhes foi retirado com a promessa da vinda do Metro à Trofa e ainda hoje essa promessa não foi cumprida, como é o caso das gentes do Muro, de Alvarelhos e até de Bougado e Guidões. Ser solidário, não é com esse dito Deputado Municipal. Por analogia, como esse Deputado Municipal tem uma boa reforma, aqueles que têm uma reforma de miséria não necessitam de melhores reformas. É assim que a oposição brinda quem os elegeu.

Para ser oposição, é preciso cumprir o objectivo e a missão que os eleitores lhes deram e assumir a responsabilidade de apontar os erros ao poder autárquico, lutar contra o que está errado, mas simultaneamente levantar bandeiras justas e ter a coragem de indicar propostas alternativas. E péssimo quando não se tem bandeiras. Para ser uma oposição eficaz, é preciso saber construir uma alternativa ao poder instalado quando começa a "cheirar a eternização".

O nobre e imprescindível exercício de oposição, numa democracia, é fiscalizar os actos do poder executivo, denunciando-os e apontando sem hesitação os erros, falhas, equívocos e prepotências próprias do poder, e ao mesmo tempo indicar como corrigir. Isso sim é oposição! Ser oposição não é ser contra, por ser contra, mas opor-se com propostas, métodos e formas de exercer o poder.

Quem não tem espírito público do acto de SERVIR, pode até ser eleito pelos tradicionais métodos que todos conhecemos, mas nunca será um legítimo representante do povo. Para falarem por falar, é preferível ficarem calados!?!

  José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt