Crónicas e opinião
Linha do Equilíbrio | Quando Ser Criança se tornou numa tarefa!
No Dia Mundial da Criança celebramos a infância, a espontaneidade, a curiosidade e a capacidade única que as crianças têm de descobrir o mundo através do brincar. Contudo, esta data também nos convida a uma reflexão necessária: estaremos nós, enquanto sociedade, a permitir que as crianças sejam verdadeiramente crianças?
Numa perspetiva psicológica, a infância é muito mais do que uma etapa de preparação para a vida adulta. É um período essencial para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social. É durante esta fase que a criança começa a construir a sua identidade, a aprender, a reconhecer e a regular as suas emoções, a desenvolver a autonomia e a criar as bases da autoestima. Porém, o cenário atual parece revelar uma realidade diferente e preocupante: muitas crianças vivem hoje uma pressão crescente para desempenhar, corresponder e alcançar algo, que raramente entendem.
Começam cada vez mais cedo com agendas totalmente preenchidas, entre escola, atividades extracurriculares, desporto, explicações, línguas e música, entre outras, onde o tempo livre se transforma em tempo produtivo. A brincadeira espontânea, essencial ao desenvolvimento, que no passado ocupava as tardes inteiras, passa a ser vista como algo secundário ou até dispensável, em prol do desenvolvimento e do sucesso futuro, ignorando que brincar não é perda de tempo.
Vários autores têm demonstrado repetidamente que a brincadeira livre é uma das ferramentas mais importantes da infância. É através dela que a criança experimenta papéis, resolve conflitos, aprende a lidar com frustrações, desenvolve a criatividade e as competências sociais.
Quando uma criança brinca, não está apenas “entretida”, está a construir recursos internos fundamentais para a sua saúde psicológica.
Por outro lado, observa-se uma exigência crescente relativamente ao desempenho. Espera-se que a criança tenha boas notas, se destaque nas atividades, seja disciplinada, autónoma, sociável e emocionalmente equilibrada. Sem percebermos, podemos transmitir a ideia de que o valor pessoal está unicamente condicionado pelos resultados e pelas conquistas. A criança pode começar a sentir que precisa de “corresponder” constantemente a esta ideia para ser reconhecida e valorizada.
A este quadro, junta-se outro fenómeno particularmente presente nos dias de hoje: a comparação. Verifica-se, embora muitas vezes feitas sem intenção negativa, comparações entre irmãos, colegas ou até modelos apresentados nas redes sociais e nos contextos educativos, tais como: “Ele já lê melhor”, “ela já faz isto”, “o outro consegue”. Estas mensagens podem ser profundamente impactantes, pois a criança aprende a olhar para si através de uma lógica de competição e como sendo insuficiente se não corresponder a estes ideais, em vez de reconhecer a sua individualidade e o seu próprio ritmo.
Logo, quando a infância se transforma numa “corrida”, surgem consequências emocionais que merecem a nossa atenção. Observamos, cada vez mais, sinais de ansiedade, medo do fracasso, perfecionismo precoce, baixa autoestima e dificuldades na gestão emocional.
Simultaneamente, as crianças estão cansadas, preocupadas, desmotivadas, frustradas e excessivamente focadas em corresponder às expectativas externas.
Torna-se importante lembrar que as crianças não precisam de uma infância perfeita, precisam de uma infância equilibrada. Precisam de tempo: para brincar, sem objetivos e sem “regras” estruturadas; para se aborrecerem; para explorarem e imaginar e para brincarem, sem a pressão constante de “produzir” resultados.
Assim, talvez a pergunta mais importante que devemos fazer neste Dia Mundial da Criança seja: “Estamos a educar crianças para terem sucesso ou para serem saudáveis emocionalmente?”. Idealmente, uma coisa não deveria excluir a outra, mas quando o desempenho passa a ocupar o tempo todo, corremos o risco de retirar à infância aquilo que ela tem de essencial, ou seja a liberdade da criança crescer ao seu próprio ritmo.
Uma criança não precisa apenas de aprender para o futuro, precisa, acima de tudo, de viver o presente. E o presente da criança chama-se brincar, descobrir e ser, principalmente, criança.
Para que tod@s as crianças possam continuar a crescer a brincar!
Artigo de opinião de Sandra Maia


