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Crónicas e opinião

Escrita com Norte | Via verde

José Calheiros

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Às vezes acordo com uma vontade estranha de não cumprir regras. Não apenas aquelas que me convêm ou que dão jeito, mas todas. As escritas, as implícitas e até algumas que não sei se existem.

Mas eu sou o tipo que, algures numa estrada municipal transmontana, sem sinais de vida, às três da madrugada, dá o pisca para sinalizar a mudança de direcção. Definitivamente, sou um rígido cumpridor de regras e, basicamente, um chato.

Num desses dias, decidi tratar de um assunto simples: uma licença. Nada de especial. Um papel, um carimbo, duas ou três assinaturas e, com sorte, uma vida inteira de espera.
Saí de casa com o documento na mão, fé nas instituições e decidido a exceder o limite de velocidade dentro das localidades.

Cheguei ao edifício público num ritmo moderado, a roçar o pachorrento. Entrei e tirei senha. A máquina devolveu-me um número que me pareceu simpático: A102. Gostei. O painel indicava A17. Sentei-me, cruzei a perna e tentei manter a minha melhor pose, objectivo conseguido até à senha A42.
Ao fim de algum tempo — não sei precisar se foram minutos ou estações do ano — ouvi:

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– A102, balcão 3.

Levantei-me com com formigueiro nas pernas, mas a dignidade de quem sobreviveu a algo, e dirigi-me ao balcão.

– Bom dia, venho tratar da licença.

A funcionária, sem levantar muito os olhos, respondeu:

– Falta-lhe o formulário 7B.

– Não me pediram o 7B. – respondi.

– Pois, mas é preciso.

– Onde o consigo?

– No balcão 5.

Dirigi-me ao balcão 5, mas estava fechado.

Voltei ao balcão 3.

– O balcão 5 está fechado – disse.

– Então tem de aguardar.

– Aguardo onde?

– Aqui.

(Sentei-me a aguardar e pratiquei a “paciência”)

Passado algum tempo, o balcão 5 abriu. Fui atendido por um senhor que me explicou que o 7B tinha sido substituído pelo 7C.

– Então o 7B já não é necessário?

– É, mas agora é o 7C.

Preenchi o 7C com o cuidado de quem escreve a última carta antes do exílio. Voltei ao balcão 3.

– Agora falta-lhe a validação. – disse-me a funcionária.

– Onde?

– No balcão 2.

Chegado ao balcão 2, fui informado de que a validação era automática.

– Então está validado? – pergunto.

– Não, tem de pedir.

– Como?

– Aqui.

– Então valide, por favor.

– Não posso. O sistema está lento.

(Ah, senti que realmente estava dentro de um filme.)

Enquanto aguardava que o sistema decidisse colaborar com a administração pública, reparei num senhor que entrava e saía com uma fluidez invejável. Não tirava senha, não esperava e não envelhecia.

A certa altura, aproximou-se de mim:

– Então, está complicado?

– Um pouco.

– Mas isto resolve-se.

Disse-mo aquilo com a tranquilidade de quem conhece os atalhos do labirinto.

– Como?

– Há sempre forma de acelerar.

Fiquei ofendido. Menos pela proposta e mais pela clareza.

– Não, não. Eu quero fazer tudo como deve ser.

Ele sorriu e disse-me:

– Deve ser chata a demora.

– Eu tenho tempo.

(Já tinha deixado de ter, mas mantinha os meus princípios.)

Horas depois — ou anos fiscais — voltei ao balcão 3 com tudo validado, carimbado e emocionalmente desgastado.

– Agora sim, está tudo.

A funcionária pegou nos papéis, olha para o computador e diz:

– Isto agora segue para análise.

– Ui, quanto tempo demora?

– Depende.

– De quê?

– Da urgência.

– E como se define a urgência?

A funcionária olhou para mim pela primeira vez com atenção:

– Normalmente, as pessoas tratam disso.

Saí de lá com a sensação de que tinha feito tudo certo e, ainda assim, nada como deve ser.

Recusei atalhos, respeitei o processo e abracei a lentidão como um valor.

No fim, percebi que não tinha evitado a corrupção, apenas fiquei fora dela.

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