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Opinião: Sobre o futuro das Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores

“Agora que já passou quase um mês do encerramento das Festas de N.ª Sr.ª das Dores deste ano, e que as luzes se apagaram, na esperança de se reacenderem no próximo ano, parece-me fundamental iniciar uma profunda reflexão sobre o futuro das Festas”.

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Agora que já passou quase um mês do encerramento das Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores deste ano, e que as luzes se apagaram, na esperança de se reacenderem no próximo ano, parece-me fundamental que todos os trofenses que valorizam e amam as Festas, e tudo o que elas representam, não só no plano religioso, mas também no panorama cultural, social e patrimonial desta que é a mais longa e relevante tradição da freguesia de São Martinho de Bougado – perdoem-me a imprecisão técnica, mas sou um daqueles saudosistas que se recusa a aceitar a nova geografia concelhia imposta desde Lisboa – e do próprio concelho da Trofa, iniciem uma profunda reflexão sobre o futuro das Festas. Se me permitem, aqui vão os meus cinco tostões sobre o tema.
Em sede própria, mais concretamente numa das reuniões alargadas a todos os que se juntaram para organizar as Festas deste ano, defendi, à imagem daquilo que acontece com outras festas noutras paragens, ser fundamental que as Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores começassem a ser pensadas e trabalhadas logo em Setembro, imediatamente após a realização das mesmas. Que existisse, por assim dizer, uma passagem de testemunho entre comissões, numa lógica de partilha de conhecimentos, contactos, experiências e práticas para que, ao invés de recomeçar tudo de novo, fosse possível trabalhar em continuidade, aproveitando aquilo que foi bem feito, acrescentando o que de melhor a nova comissão possa trazer.
Trabalhar em continuidade poderá ser a solução para um dos grandes problemas sentidos este ano, que foi a dificuldade de constituir, atempadamente, uma comissão, com todas as consequências que isso trouxe, pese embora os constantes apelos da paróquia, na pessoa do padre Luciano. Trabalhar em continuidade permitirá também pressionar a constituição de uma comissão logo em Setembro, para discutir, de forma antecipada, toda a organização macro das Festas, contribuindo para que, no início do ano seguinte, todas as equipas estejam já perfeitamente definidas, com tarefas a atribuições bem delineadas, prontas para trabalhar. Planear, pensar a longo prazo, mais ainda num cenário em que, a nível dos fundos necessários para organizar o certame, se começa sempre da estaca zero, parece-me indispensável para que tudo se desenrole da forma mais produtiva possível.
Outra dimensão que me parece fundamental abordar é a questão das comissões. Se Finzes, Padrão, Castêlo e Bairro da Capela, zonas de elevada densidade populacional, tiveram enormes dificuldades para constituir uma comissão, obrigando à “importação” de bougadenses de outros lugares, antevejo iguais ou ainda mais profundas dificuldades para a mesma missão no futuro, em lugares mais pequenos com pouca população. Aliás, isso foi bem visível nas dificuldades sentidas por alguns lugares na organização para a construção dos andores deste ano – tarefa fora da esfera da comissão, mas que a obrigou a reagir – com casos de andores que estiveram próximos de não conseguir integrar a procissão por falta de voluntários e fundos.
Uma solução para este problema poderá estar na junta de freguesia, ou na própria autarquia, que poderão, no futuro, assumir um papel mais activo na organização, logística e financiamento das Festas. Como de resto acontece em concelhos vizinhos. É preciso ter em consideração que o bairrismo trofense já não é o que era, e isso ficou muito claro este ano, situação para a qual muito tem contribuído a crescente condição de “dormitório” do Porto, com uma larga fatia da população actual que apenas cá dorme, sem uma ligação emocional ou afectiva às nossas raízes e tradições. O que de resto é normal e não exclusivo do nosso concelho.
Contudo, o planeamento antecipado das Festas, que me parece ser a chave para parte significativa dos seus problemas actuais, poderá contribuir, decisivamente, para contornar ou pelo menos minimizar esses problemas. Em todo o caso, seja qual for a solução, é fundamental que se inicie uma reflexão séria sobre o futuro das Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores, uma tradição com mais 250 anos que enfrenta, objectivamente, a extinção.

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