O caminho de Santiago de Compostela que passa pelo concelho da Trofa, via Porto-Braga, esteve em evidência na iniciativa conjunta da Associação para a Protecção do Vale do Coronado (APVC) e Clube de Campismo da Trofa (CCT).

“Caminhante solitário//Entre uma multidão//Na fé, na procura…//Às vezes perdido,//Tantas outras esquecido,//Mas sempre firme,//Sempre crente,//Sempre convicto”. Esta é uma das estrofes do poema “Caminho” da romanense Alexandra Santos, que o declamou durante a palestra promovida na noite de sábado, 30 de abril, na Junta de Freguesia do Coronado, em S. Romão.
Organizada pela APCV e pelo CCT, a palestra pretendia mostrar “o que é o caminho” de Santiago e o “porquê de ele existir”, tendo sido convidado Manuel Araújo, que, na opinião do presidente da APCV, André Tomé Ribeiro, é “um peregrino com bastante bagagem histórica” e que “faz investigação histórica acerca do caminho”.
Perante uma sala “cheia”, Manuel Araújo fez “uma introdução histórica” aos caminhos de Santiago, “uma descrição do que foram, a importância que têm e o que são atualmente”. Segundo o orador, os caminhos “estão na moda”, mas “muitas pessoas” fazem-no e “não sabem o porquê” de andarem nele. “Aceitei com bom grado este desafio, porque acho que é importante fazer-se esta sensibilização para que a população do concelho da Trofa saiba o que tem a passar à sua porta e ajude a preservar”, denotou.
Além do momento cultural, a palestra, a primeira do Ciclo de Conversas APVC, contou ainda com debate, perguntas e testemunhos sobre peregrinações a Santiago de Compostela e toda a envolvência cultural e religiosa.
No dia seguinte, houve a 2.ª edição da Caminhada, que levou muitas pessoas a percorrer os “13,4 quilómetros do Caminho de Santiago que atravessa o concelho da Trofa, com início no Coronado (Largo de Trinaterra) e fim em S. Martinho de Bougado (junto à Ponte da Lagoncinha)”. Os caminheiros, alguns provenientes do “Porto, Braga, Maia e até de Sacavém”, percorreram “o Vale do Coronado (S. Mamede e S. Romão), Covelas, Monte de Paradela e Bougado”. Com esta atividade, pretendia-se “dar a conhecer o trajeto do Caminho Português de Santiago, via Braga, após a remarcação do mesmo no troço que atravessa a Trofa”.
A remarcação das setas amarelas é um projeto que tem sido levado a cabo desde “2002” por “14 voluntários do CCT, da APVC e da ACRABE”, com o intuito de “proporcionar mais informação e segurança aos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela”.
O presidente da APVC, André Tomé Ribeiro, mencionou que “o caminho de Santiago é um património valioso e extremamente interessante” e, por isso, numa “parceria simbiótica” com o CCT resolveram promover esta iniciativa de dois dias.
Já António Sá, presidente do Clube de Campismo da Trofa, referiu que o percurso pela Trofa é “um dos caminhos mais antigos”, mas, como o concelho “não tem apoio ao peregrino”, isso “condiciona a utilização do mesmo”. “Faz com que os peregrinos optem pelos caminhos que têm mais apoios, albergues e toda essa dinâmica”, declarou.
Na sessão, José Ferreira, presidente da Junta de Freguesia do Coronado, congratulou-se com este tipo de iniciativas que “mostra o dinamismo que existe na freguesia”, estando as associações de “parabéns” por “ano após ano” ter tentado “divulgar e melhorar a questão da identificação do percurso para a comunidade e sobretudo para quem o utiliza”.

“Não é um dos caminhos
mais concorridos”
O orador Manuel Araújo esclareceu que o caminho de Santiago de Compostela que passa pelo concelho da Trofa, via Porto-Braga, “não é um dos caminhos mais concorridos de Portugal para Santiago”, por “não ser o mais direto”. O caminho que atravessa a Trofa ganhou relevância devido à “importância de Braga como centro espiritual”, como explicou o orador. “Na Idade Média, o peregrino dirigia-se a Santiago por fé e não por moda como agora. Muitos séculos antes do aparecimento do fenómeno de Santiago, no século nono, Braga era reconhecida como um centro espiritual e era um local de devoção. E já que os peregrinos iam para Santiago, desviavam por Braga e outros desviavam mais um bocadinho e iam a Guimarães venerar a Nossa Senhora da Oliveira”, completou.
Manuel Araújo disse ainda que um peregrino, ao dirigir-se a um santuário, “tenta, por norma, fazer o caminho mais direto”.