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Na sua quarta edição na cidade do Porto, o NOS Primavera Sound terá recebido a sua maior assistência de sempre, e segundo a organização cerca de 77 mil espectadores de mais de 40 nacionalidades diferentes terão passado pelo Parque da Cidade durante os três dias do festival.

Durante os dias 4, 5 e 6 de Junho, um total de 49 bandas abrilhantou os quatro palcos do NOS Primavera Sound. 

Na primeira noite do festival, Mac de Marco, com o seu inconfundível macacão, deu um concerto muito celebrado e terminou em celebração partilhada com os seus fãs, depois de uma enorme sessão de crowdsurfing.

FKA Twigs subiu ao Palco Super Bock para um dos concertos mais esperados do festival. Muito sensual, Tahliah Debrett Barnett foi aplaudida com enorme carinho pelos fãs. A artista de LP1 brilhou com a sua voz cristalina. Não terá convencido aqueles que não conheciam o seu trabalho antes do concerto. Até porque o ambiente de festival talvez não seja o melhor para a sua música e estilo.

Coube aos Interpol a atuação em horário nobre na primeira noite do Festival. Talvez não sejam os cabeças de cartaz naturais, talvez seja mesmo discutível que sejam animais de palco. A verdade é que serviram um cardápio de canções em jeito de best off, que terá agradado maioritariamente aos seus fãs. Aqueles que não eram propriamente fãs da banda assistiram à eficácia das canções do passado.

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Caribou, emersos num magnífico jogo de luzes e com os quatro músicos muito próximos entre si, ofereceram aos mais resistentes do primeiro dia um concerto eletrizante, com destaque óbvio para os temas do último álbum Our Love eSwim. Muito ritmo, um psicadelismo qb, e uma eficácia que resultou na exigência de encore pelo público, mesmo apesar de serem quase três da manhã quando terminaram a sua atuação.

Patti Smith, com os seus 68 anos e cabelos cinza, tem uma voz que parece impermeável ao tempo. Numa tenda Pitchfork repleta Smith apresentou no dia 1 do festival a dose inicial da sua passagem pelo Porto, tendo executado Horsesna íntegra no dia seguinte ao subir ao palco principal. Uma artista de enorme vitalidade, senhora de uma inquietação admirável, carismática e empática.

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Os Belle & Sebastian reuniram uma audiência bastante significativa para escutar os seus temas indie. 60 minutos de concerto com um alinhamento muito bem escolhido e com uma entrega muito especial da banda, que não deixou a boa disposição por mãos alheias. Stuart Murdoch – que saltou, dançou e chamou os fãs ao palco para celebrar com The Boy with the Arab Strap – e companhia deram um concerto muito divertido, animado e celebrado por todos os que assistiam, e que com certeza o guardarão na memória. 

No concerto anterior no palco Super Bock, José González tinha igualmente encantado com as suas melodias indie. Os aplausos foram tão sentidos, que mesmo fazendo parte de um festival com rigorsos horários, houve lugar a encore.

Os Twerps, na sua estreia europeia, foram uma agradável surpresa e Sun Kill Moon deram um concerto energético onde se destaca a caricata subida ao palco de Yasmine Hamdan. A cantora libanesa, a quem Kozelek chamou de amiga, lá foi convencida a cantar I Got You Babe (Sonny and Cher), limitando-se a trautear a letra depois de ter assumido não falar inglês.

Os Death Cab for Cutie tinham estado no alinhamento do Primavera Sound há três anos, “but some shit went down” disseram eles durante a sua muito esperada atuação no festival. As confidências da banda não se ficaram por aqui, pois Ben Gibbard afirmou ainda que a banda se encontrava em Portugal há uma semana a passear de carro. Deram um concerto muito empenhado que agradou particularmente às primeiras filas que acompanharam, sem falhas, a banda nas letras dos seus hinos indie.

Antony Hegarty (que não se deixou fotografar) e a orquestra de quase 50 músicos que o acompanhou ofereceram um espetáculo ambicioso, de uma sensibilidade especial e uma beleza raraVestindo uma longa túnica branca, o cantor apresentou temas intimistas recortados por silêncios que numa atuação intensa como a que comporta o repertório de Antony & the Johnsons exige. No centro do palco foram projetadas imagens de um filme japonês. Intensas, sofridas, capazes de encaixar um soco no estômago da audiência. O público resistiu em massa ao concerto, mas as conversas aqui e ali perturbaram certamente a apreciação plena de uma atuação sem falhas num concerto dificilmente repetível. Antony não é de todo um nome para festivais de verão, se bem que se diz por aí, ter sido recebido no Porto com enorme respeito por um público mais calmo e considerativo que o do festival de Barcelona.

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Manel Cruz, já sobejamente conhecido do público português animou e muito o início dos concertos do último dia. Atuando ao fim da tarde perante uma assistência já considerável, foi igual a si mesmo (e sim, claro, acabou sem tshirt, de tronco nu) e percorreu os vários caminhos de uma carreira multifacetada, tendo sido carinhosamente aplaudido e voltando para um pequeno encore.

O palco Super Bock, haveria ainda de ver neste dia um concerto ímpar dos Americanos Foxygen, que pularam sem parar, e até saíram do palco ao fim de meia hora, deixando o público a interrogar-se se voltariam. “Que gajos malucos” ouvia-se enquanto se aguardava o desenvolvimento em palco. Voltaram sim senhor, para destilar mais energia e protagonizar um dos concertos surpresa do festival.

Os Ride, que não são propriamente a banda inglesa mais famosa em Portugal, atuaram na hora mais nobre do Primavera, no último dia. Talvez a sua atuação tenha perdido por ter ocorrido no enorme palco principal e respetivo anfiteatro, mas a concentração e dedicação da banda que ofereceu um intenso som envolvente (shoegazing) com distintas guitarras e vozes harmoniosas, foram inegáveis.

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Coube aos Underworld, originários do País de Gales, fechar as hostilidades no palco principal. A sua atuação foi dedicada ao clássico dubnobasswithmyheadman. Num cenário minimalista, os títulos das canções apareciam à medida que o concerto avançava. Uma parte significativa do público já tinha saído do Parque da Cidade, e a atuação de Underworld foi uma espécie de prémio para os mais resistentes. A atuação terminou em enorme êxtase com “Born Slippy. NUXX” (canção que estará para sempre ligada ao filme Trainspotting ) e que transformou o parque numa enorme pista de discoteca numa homenagem aos loucos anos 90. 

Nesta edição do NOS Primavera Sound, houve ainda tempo e lugar para o funk electrónico dos britânicos Jungle, o pop dos antípodas Twerps, a elegância dos australianos MovementBruno Pernadas, que abriu o festival, provou a sua excelência enquanto multi-instrumentalista, tocando os seus hits e mostrando músicas do álbum novo. A Banda do Mar rendeu o público à doçura luso-brasileira de Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Fred, com muito calor e sol a servirem de companhia aos artistas e ao público.  

Passaram pelo Parque da Cidade outras propostas curiosas como o rock experimental dos alemães Einstürzende Neubauten ou o pop cheio de intensidade dos canadianos The New Pornographers, ou o rock fervilhante dosOught, também vindos daquele país norte-americano. Os SpiritualizedJuan Maclean, Jungle, um coletivo numeroso que faz uma espécie de soul moderna com enorme destaque dado aos sintetizadores e com toques de funk,Damien Rice, Giant Sand, Run The Jewels, Ariel Pink e Cinerama foram outras das apostas do cartaz da edição de 2015.

O NOS Primavera Sound tinha já oferecido à cidade do Porto a oportunidade de ver alguns artistas de forma gratuita e em espaços míticos da cidade. Primeiro, a 24 de Maio o Mini Nos Primavera Sound no Parque da Cidade, com as participações de Noiserv, Clã e B Fachada e muito pensado nos mais pequenos, e depois no dia 3 de Junho nas Fontainhas (coração das festas de São João) o aquecimento do Festival com Rodrigo Affreixo, Cícero, Regula Moulinex (em dj set). 

Em 2016, o festival continuará no Porto e no Parque da Cidade e terá lugar nos dias 9, 10 e 11 de Junho.

Texto: Joana Vaz Teixeira e Miguel Pereira
Fotos:Hugo Lima