Eu estava lá há 16 anos atrás. Era um miúdo de 14 anos e a minha percepção daquilo que estava em jogo era praticamente nula. Naquele tempo, que não foi assim há tanto tempo mas que ainda assim era um tempo muito diferente do actual, onde a internet era ainda um luxo e as redes sociais nem sequer existiam, a informação sobre a situação da nossa terra era escassa e dependente daquilo que se ouvia por aí, com os habituais ditos por não ditos e alguma neblina à mistura. Para além disso, com 14 anos, tinha coisas bem mais “importantes” com que me preocupar como tirar boas notas, divertir-me e namoriscar. Isso sim eram prioridades.
Ouvia eu dizer, naquele tempo, que a Trofa era explorada por Santo Tirso, pois pagava muitos milhares de contos em impostos e recebia investimento residual e desproporcional à colecta que para pouco ou quase nada chegava. E isto visto da perspectiva de quem morava em São Martinho, nem quero imaginar o que seria de zonas mais “interiores”. Ouvia também falar de uma identidade que nos distinguia de Santo Tirso, que não éramos iguais a eles, apesar de tal como eles humanos. Mas não éramos tirsenses. Éramos da Trofa e a Trofa era nossa! E entre nós e essa realização encontrava-se Joaquim Couto, a personificação do inimigo que nos vendiam panfletariamente pelas ruas da Trofa. E nós, miúdos, mesmo sem saber bem quem era esse senhor, nutríamos já por ele uma repulsa que nos fazia acreditar que havia ali um combate épico a travar.
Chegou então o dia 19 de Novembro de 1998 e lá estava eu no meio de mais de 8 mil pessoas, naquele cortejo de autocarros que saiu da Trofa em direcção à capital para ir “buscar o concelho”. Para mim aquilo era algo único e inexplicável: milhares de pessoas da minha terra, munidas com faixas, bandeiras, t-shirts e chapéus alusivos à causa, a berrar palavras de ordem e a invadir com estrondo o largo em frente ao Parlamento. Ninguém arredava pé até que os deputados nos dessem aquilo que era nosso por direito: independência. Foi um dia de festa e de fé inabalável num momento único de união em que todos remávamos no mesmo sentido. Quando da varanda do Parlamento veio o anúncio que confirmou a inevitável vitória, a nova explosão de alegria mais não foi que o confirmar daquilo de que todos estávamos à espera. Pegamos nas nossas trouxas e lá voltamos nós, Portugal acima, cheios de ilusões e sonhos.
16 anos mais tarde, muitos desses sonhos estão ainda por realizar. A Trofa é hoje um dos concelhos mais endividados do país, cujos limites territoriais não estão ainda devidamente definidos. Como podemos alegar que a Trofa é nossa quando ainda não temos exacta certeza sobre onde começa e onde acaba? Os Paços do Concelho continuam a ser um jardim imaginário, as acessibilidades estão hoje piores do que quando a N14 era menos movimentada e a via estreita ainda existia, o metro continua por resolver e a obra de unificação de parques arrasta-se lentamente enquanto outro parque, o das Azenhas, é lentamente reabsorvido pela natureza. Claro que a Trofa de hoje tem melhores arruamentos e a água e o saneamento chegam à maioria dos habitantes do concelho. Mas ainda estamos longe daquilo que idealizamos e o tempo não joga a nosso favor. 16 anos mais tarde, é fundamental que a Trofa se levante novamente e exija mais rigor, competência e respeito. Não chega sermos da Trofa: é fundamental que a Trofa seja verdadeiramente nossa.