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Crónicas e opinião

Escrita com Norte | O homem dos dias marcados

José Calheiros

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– Quero uma cerveja!

Foi o pedido de uma figura alta, magra e de óculos escuros, que, mesmo com os olhos escondidos, senti sorrir.

Eu estava sentado ao lado, ambos ao balcão do café.

– O amigo gosta de cerveja! – digo-lhe, como que querendo descobrir aquela personagem, que nunca vira antes.

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– Muito – responde-me.

– Pago-lhe outra. – disse-lhe e, de braço em riste, virei-me para quem atendia – Menina, mais duas cervejas.

– Não, não. – reponde-me prontamente a pessoa, baixando-me o braço.

Saca de uma agenda, já de 2027, e aponta algo no mês de abril.

– Zé, eu sou o Zé! – apresento-me – E o amigo?

– Eu hoje sou o António e volto a sê-lo no dia 21 de abril de 2027. Se por acaso amanhã me encontrar, teremos o mesmo nome! Amanhã sou o Zé.

Intrigado, quis saber mais sobre aquela figura caída do céu.

– E então, mora por cá?

– Sim, já há dois anos.

Depois de devidamente explicado, fiquei a saber que o António é meu vizinho. Mora em frente a mim. Dorme lá uma vez por ano. Fiquei a saber, também, que gosta de andar de bicicleta e de jogar futebol… tal como eu.

– Logo quer vir jogar à bola? Falta-nos um. – convido-o, como forma de o integrar no meio.

– Aaah, que pena! Gostava, mas já joguei ontem de manhã.

– Aaah! Então conhece gente aqui! – constato, com alguma alegria.

– Sim, sim, e costumo estar com eles… no dia 20 de abril de todos os anos, da parte da manhã, para jogar à bola, e no primeiro sábado de fevereiro, para um passeio de bicicleta, que dura o dia todo… até me farto de os ver.

– E por que nome o conhecem?

– Na bola, por Raúl; no passeio de bicicleta, por Fredo.

Num instante, a expressão serena de (neste dia) António, esfria.

– Passa-se alguma coisa, amigo? – pergunto.

– Aquele ali! – com o dedo a apontar para o exterior do café, onde passava o tipo dos seguros, prosseguiu – Encontrei hoje uma carta, colocada por baixo da minha porta, a informar que vou estar isento do pagamento anual do seguro do carro, por dois anos… não tenho acidentes, dizem que é um bónus! Pudera, eu só pego no carro uma vez por ano. Tinha uma vida preenchida, com acontecimentos anuais todos os dias. Agora fico sem ter o que fazer no dia 29 de Agosto.

– Mas o que faz nesse dia, António? – pergunto.

– Para começar, nesse dia sou o Mendes. Pagava o seguro.

Nesse momento, senti o António perdido.

– Ó António, só se quiser combinar para esse dia uma cervejinha… aqui no café!

– Não pode ser, já venho aqui neste dia. Pode ser um pingo, no café ao lado?

– Está combinado!

– E nesse dia sou o Mendes. Não se esqueça!

A conversa foi-se desbobinando, estranhamente natural, e nesta figura de hábitos peculiares invejei o facto de a sua mulher lhe fazer todas as noite bacalhau.

– E não se enjoa?

– Não! – respondeu-me. – Conheci-a no dia 22 de abril de 2023, da parte da manhã e namorámos da parte da parte, e logo aí combinámos casamento para o ano seguinte. Foi no dia…

– …22 de abril de 2024! – completei.

– Esteve lá?

– Não! Foi um palpite. Continue.

– E desde que casei, sempre que estou com ela, faz-me bacalhau. Já comi duas vezes…amanhã é a terceira! – e sorri. – Estou ansioso por estar com ela. Viram-na e disseram-me que ela está grávida de quatro meses…vou ser pai!

– Parabéns! – disse-lhe, sem grande convicção.

Despedimo-nos. No telemóvel, registei o dia 29 de agosto… e fiquei à minha espera.

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