Crónicas e opinião
Escrita com Norte | O homem dos dias marcados
– Quero uma cerveja!
Foi o pedido de uma figura alta, magra e de óculos escuros, que, mesmo com os olhos escondidos, senti sorrir.
Eu estava sentado ao lado, ambos ao balcão do café.
– O amigo gosta de cerveja! – digo-lhe, como que querendo descobrir aquela personagem, que nunca vira antes.
– Muito – responde-me.
– Pago-lhe outra. – disse-lhe e, de braço em riste, virei-me para quem atendia – Menina, mais duas cervejas.
– Não, não. – reponde-me prontamente a pessoa, baixando-me o braço.
Saca de uma agenda, já de 2027, e aponta algo no mês de abril.
– Zé, eu sou o Zé! – apresento-me – E o amigo?
– Eu hoje sou o António e volto a sê-lo no dia 21 de abril de 2027. Se por acaso amanhã me encontrar, teremos o mesmo nome! Amanhã sou o Zé.
Intrigado, quis saber mais sobre aquela figura caída do céu.
– E então, mora por cá?
– Sim, já há dois anos.
Depois de devidamente explicado, fiquei a saber que o António é meu vizinho. Mora em frente a mim. Dorme lá uma vez por ano. Fiquei a saber, também, que gosta de andar de bicicleta e de jogar futebol… tal como eu.
– Logo quer vir jogar à bola? Falta-nos um. – convido-o, como forma de o integrar no meio.
– Aaah, que pena! Gostava, mas já joguei ontem de manhã.
– Aaah! Então conhece gente aqui! – constato, com alguma alegria.
– Sim, sim, e costumo estar com eles… no dia 20 de abril de todos os anos, da parte da manhã, para jogar à bola, e no primeiro sábado de fevereiro, para um passeio de bicicleta, que dura o dia todo… até me farto de os ver.
– E por que nome o conhecem?
– Na bola, por Raúl; no passeio de bicicleta, por Fredo.
Num instante, a expressão serena de (neste dia) António, esfria.
– Passa-se alguma coisa, amigo? – pergunto.
– Aquele ali! – com o dedo a apontar para o exterior do café, onde passava o tipo dos seguros, prosseguiu – Encontrei hoje uma carta, colocada por baixo da minha porta, a informar que vou estar isento do pagamento anual do seguro do carro, por dois anos… não tenho acidentes, dizem que é um bónus! Pudera, eu só pego no carro uma vez por ano. Tinha uma vida preenchida, com acontecimentos anuais todos os dias. Agora fico sem ter o que fazer no dia 29 de Agosto.
– Mas o que faz nesse dia, António? – pergunto.
– Para começar, nesse dia sou o Mendes. Pagava o seguro.
Nesse momento, senti o António perdido.
– Ó António, só se quiser combinar para esse dia uma cervejinha… aqui no café!
– Não pode ser, já venho aqui neste dia. Pode ser um pingo, no café ao lado?
– Está combinado!
– E nesse dia sou o Mendes. Não se esqueça!
A conversa foi-se desbobinando, estranhamente natural, e nesta figura de hábitos peculiares invejei o facto de a sua mulher lhe fazer todas as noite bacalhau.
– E não se enjoa?
– Não! – respondeu-me. – Conheci-a no dia 22 de abril de 2023, da parte da manhã e namorámos da parte da parte, e logo aí combinámos casamento para o ano seguinte. Foi no dia…
– …22 de abril de 2024! – completei.
– Esteve lá?
– Não! Foi um palpite. Continue.
– E desde que casei, sempre que estou com ela, faz-me bacalhau. Já comi duas vezes…amanhã é a terceira! – e sorri. – Estou ansioso por estar com ela. Viram-na e disseram-me que ela está grávida de quatro meses…vou ser pai!
– Parabéns! – disse-lhe, sem grande convicção.
Despedimo-nos. No telemóvel, registei o dia 29 de agosto… e fiquei à minha espera.


