Edição 776
Comemoração de Todos os Santos – serão milhões, os Santos?
Muitos cristãos veneravam Pôncio Pilatos como santo. De acordo com a Sociedade de Arqueologia Bíblica, os primeiros cristãos veneravam Pilatos de uma forma diferente. Agostinho saudava-o como “um convertido”.
A Igreja Católica celebra, no dia 1 de novembro de cada ano, a festa de Todos os Santos. Segundo a Enciclopédia Católica, esta comemoração “honra todos os Santos, conhecidos e desconhecidos”.
No fim do século II, os cristãos começaram a honrar os que haviam sido martirizados por causa da sua fé, e “achando que eles já estavam com Cristo no Céu, oravam a eles para que intercedessem a seu favor”. A comemoração regular iniciou quando, a 13 de maio de 609 ou 610, o papa Bonifácio IV dedicou o Panteão (templo romano em honra de todos os deuses “pagãos”,) a Maria e a todos os mártires.
A data foi mudada para novembro, quando Gregório III (731-741) dedicou uma capela em Roma a Todos os Santos e ordenou que eles fossem “todos” homenageados no dia 1 de Novembro. No ano de 835 o papa Gregório IV declarou (e confirmou) a festa de Todos os Santos como uma festa universal de toda a Igreja.
A celebração de Todos os Santos, é feita pela Igreja Ortodoxa no primeiro domingo depois de Pentecostes, tal como a Igreja Oriental e a Igreja Luterana.
Santos não reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica… e que o são por outras igrejas cristãs
Há mais de 20.000 santos e beatos (católicos) reconhecidos pela Igreja Católica através do processo de canonização (e beatificação) pela forma como fizeram a vontade de Deus no mundo ao ponto de, pela graça de Deus, merecerem esse reconhecimento por parte da Igreja, mas além desse número (20.000) de santos reconhecidos, dados por ela e por Deus como exemplos a seguir, como refere Paulo (Filipenses 3.17) a esse propósito, há no Céu uma população “incontável” de santos de todas as gerações, como está escrito em Apocalipse de João Evangelista (Apoc. 6,9-11; 7,9-16) que louvam a Deus sem cessar.
Entre as Igrejas Ortodoxas bizantinas, e Igrejas orientais (ex.: Igreja Ortodoxa Copta) os números poderão ser maiores uma vez que não há um processo fixo de “canonização” e cada jurisdição nestas duas comunidades ortodoxas mantém listas paralelas de santos que podem ou não coincidir parcialmente.
Biografia de Pilatos
Não há data precisa sobre o ano de nascimento de Pôncio Pilatos. É voz corrente que terá nascido em Roma e foi governador ou prefeito da província da Judeia entre os anos de 26 e 36 d.C. Segundo os cronistas, Pilatos era casado com Cláudia Prócula.
Na tradição cristã, Pilatos é conhecido por ter sido o juíz que “não interveio” contra os fariseus na condenação de Jesus Cristo a morrer na cruz. A importância de Pilatos no Cristianismo moderno é enfatizada pelo seu lugar proeminente tanto no Credo dos Apóstolos, como no de Niceia.
Embora seja o governador com mais nome da Judeia, poucas fontes sobre o seu governo sobreviveram. Terá pertencido à bem atestada família Pôncio, de origem samnita, mas nada se sabe sobre a sua vida antes de ser nomeado governador, pelo imperador Tibério. O título de prefeito de Pilatos implicava que os seus deveres (responsabilidades) eram principalmente militares; no entanto as suas tropas eram mais uma polícia do que uma força militar: Como governador romano. ele era o chefe do sistema judicial. Pilatos tinha o poder de infligir a pena de morte e era responsável pela colecta de tributos e impostos e até pela cunhagem de moedas. Além disso compartilhava uma quantidade limitada de poder civil e religioso com o Sinédrio judeu.
Pilatos e sua esposa Cláudia Prócula “venerados” (santos) por igrejas cristãs
Além de Judas, outro responsável pela morte de Jesus foi Pôncio Pilatos. Ele poderia ter libertado Jesus-tinha poder para isso- e tê-lo ia protegido da ira da multidão furiosa. Mas não o fez; e ainda declarou: “Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco” (Mt, 27). E, segundo os evangelhos (do N.T.), Pilatos lavou as mãos.
Apesar disso, muitos cristãos veneravam Pôncio Pilatos como santo. De acordo com a Sociedade de Arqueologia Bíblica, os primeiros cristãos veneravam Pilatos de uma forma diferente. Agostinho saudava-o como “um convertido”. “Certas igrejas, incluindo religiões gregas ortodoxas e os Coptas consideravam santos Pilatos e sua esposa (Cláudia Prócula). E quando ele aparece pela primeira vez na arte cristã, nos meados do século IV, é justaposto com Abraão, Daniel e outros grandes crentes”.
Interrogatório de Pilatos a Jesus sobre a “Realeza” (e “Reinado”) de Cristo
Pilatos perguntou: Logo Tu és Rei? “Sim”, respondeu Jesus “Tu o disseste. Foi para isso que nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz… Mas o Meu Reino não é deste mundo” (Jo. 18.:37).
Estas frases desnortearam Pilatos, pois percebeu que não estava perante um “rebelde”, mas sim de alguém “especial”, e, segundo Aldo Schinvone, autor do livro “Pilatos- Um Enigma entre a História e o Mistério” aquele interrogatório tornou-se “numa conversa em que Pilatos parece cada vez mais fascinado e perturbado” e é “quase um diálogo platónico”.
“Conversão” e “martírio” ou “suicídio “ de Pilatos ?
Segundo uma antiga tradição, Pilatos e sua esposa Cláudia foram convertidos ao cristianismo por intermédio de São Paulo. Diz-se igualmente que a conversão de Pilatos se deveu após ver as muitas maravilhas que ocorreram depois da morte de Jesus. Aliás Pilatos reportou todos os acontecimentos relativos à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus a Tibério, imperador romano.
A “conversão” de Pilatos pode parecer estranha para os cristãos ocidentais, principalmente para os católicos, mas é uma indicação de que ninguém é excluído da graça de Deus e da salvação. Nem mesmo Pôncio Pilatos… “ A Deus, tudo é possível”…
Outro historiador, Eusébio de Cesareia refere que Pilatos não sobreviveu por muito tempo à sua desgraça, após a morte de Jesus, suicidando-se após exílio em Viena.
A tradição etíope aponta o martírio de Pilatos com a execução por decapitação, em Roma.às ordens do imperador Nero. Os textos chamados “Anaphore Pilati e Paradosi Pilati”, na tradução da Grande Igreja são de facto “conhecidos em várias formas de árabe, notadamente como duas homilias de Cyriaque, bispo de Bahnasa (Oxyorhychos), essas homilias foram traduzidas para etíope” .As homilias do bispo egípcio sobre o “martírio de Pilatos”também despertaram grande interesse siríaco em todo o mundo. Eles foram traduzidos para “carchunie”, uma escrita que foi praticada a partir do século XIV” por árabes cristãos da comunidade síria.
Na versão siríaca (do século V) dos “Actos de Pilatos” é explicada a conversão como ocorrida depois de Pilatos ter culpado os judeus pela morte de Jesus, na frente de Tibério.-antes de sua execução (por decapitação), Pilatos “ora a Deus e converte-se, tornando-se um mártir cristão”.
Uma outra versão (medieval) da morte de Pilatos, desta feita no “Martyrium Pilati, preservado em árabe, copta e grez, retrata Pilatos como sendo crucificado duas vezes, uma pelos judeus outra por Tibério, por causa da sua fé.
A sua morte terá ocorrido entre o ano 38 e 39 d.C. no Império Romano
Pilatos é festejado como santo pela Igreja Etíope a 19 de junho e celebrado pela igreja copta a 25 de junho.
Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos
Cláudia Prócula terá nascido em Roma, de uma família aristocrática; segundo várias tradições foi identificada como parente do imperador Tibério, segundo outras era neta do imperador Augusto. Talvez devido a esse parentesco aristocrático se explique a ascensão social do marido tão rapidamente,
No Novo Testamento aparece, segundo Mateus, como esposa de Pilatos. Ela envia um recado ao seu marido pedindo-lhe que não condene Jesus à morte porque, segundo ela “ foi afectada, em sonhos, por causa dele ( Jesus)”
No século II, Orígenes sugere em suas pregações sobre Mateus “ que a mulher de Pilatos converteu-se ao Cristianismo” através do sonho mencionado no Evangelho de Mateus. Esta interpretação foi compartilhada por diversos teólogos da Antiguidade e da Idade Média. Os adversários da tese defendem que o sonho teria sido enviado por Satã numa tentativa de atrapalhar a” Salvação”que resultaria da morte de Cristo.
A esposa de Pilatos também é mencionada no apócrifo do Novo Testamento “Actos de Pilatos” (também conhecido de Evangelho de Nicodemos), escrito provavelmente em meados do século IV, que nos apresenta uma versão mais elaborada do sonho do que a do Evangelho de Mateus.
Cláudia Prócula terá morrido em 13 de setembro do ano 81 no Alto Império Romano, sendo venerada pela Igreja Ortodoxa Etíope a 25 de junho e pela Igreja Ortodoxa, a 27 de outubro.
ANTÓNIO COSTA
Foto: DR


