A satisfação deu lugar à indignação: a eleição dos Santeiros do Coronado como uma das Maravilhas da Cultura Popular de Portugal, que levou os trofenses a uma euforia generalizada, na qual me incluí, afinal teve um custo, um custo muito elevado a ser pago pela autarquia trofense! A primeira fatura já chegou, vinda da operadora de comunicações MEO, titulada em nome do Município da Trofa, e ascende a 74.899,20€ (Ajuste Direto para “Reforço da votação…”, de 19/08/2020). E sim, esta é a primeira fatura de uma conta elevadíssima a que acresce os custos de trabalhos de funcionários camarários, imagine-se, com a ordem de trabalhos: PARTICIPAR NUM CONCURSO TELEVISIVO!

Inicialmente, vi o processo como um movimento bairrista de trofenses, a lembrar a moda antiga de que temos memória, presumindo uma participação massiva de cada agregado trofense, com contributos individuais e espontâneos. Mas, afinal, o processo veio a revelar-se uma manobra orquestrada a partir do castelo municipal por um presidente que gere os destinos da Trofa a seu belo prazer e que procura capitalizar apenas para fins eleitoralistas – o Coronado está na sua mira.

Heroicamente, o Coronado, a freguesia que tem sido mais ostracizada, durante os 7 anos de mandato da coligação que governa os destinos do concelho da Trofa, privando-a de serviços e obras básicas, não obstante ser um grande polo populacional e, imagine-se, só porque o seu presidente de junta é de outra cor política!

Já tínhamos tido um episódio rocambolesco, recentemente, na freguesia de Covelas, onde uma visão estreita e solitária deste presidente que acreditou piamente que um aterro para a Trofa seria um grande negócio. Felizmente, foi travado a tempo pela ação dos partidos da oposição e por uma indignação generalizada da população trofense. No entanto, e desta feita, nada a fazer… os consumos já estão feitos, o importante era, a todo o custo, chegar às audiências da televisão para “5 minutos de fama do edil trofense na RTP”.

Nem se discute a importância dos Santeiros do Coronado. O trabalho dos Mestres está bem esculpido, sendo de reconhecida excelência, a começar por todos aqueles que em Portugal e em todo o mundo, ao longo de décadas, lhes foram fazendo encomendas, levando a que esta arte se elevasse na nossa memória coletiva. Por mérito dos Mestres, assente num talento nato e ímpar que foram aprimorando ao longo dos tempos, trabalhando no silêncio dos seus ateliês, criando verdadeiras obras primas e um legado cultural que nunca precisou de grande alarido: sempre foi assim a vida de um Mestre…

O que terá passado pela cabeça do presidente de Câmara, Sérgio Humberto, enquanto gestor de dinheiros públicos, arrecadados de impostos que estão a ser cobrados aos munícipes trofenses pelas taxas máximas, para encarnar num espírito de jogador de casino, sentado numa roleta, investindo todas as fichas num concurso, deturpando princípios básicos de ética optando mesmo por fazer batota!

E agora pergunto: depois deste precedente da mobilização de recursos municipais (trabalho de funcionários e avultadas verbas), para participar num concurso televisivo de chamadas de valor acrescentado, terá legitimidade, esta semana, o presidente Sérgio Humberto para participar no concurso da Santa Casa, Euromilhões, invocando que é um investimento?