Conhecido por muitos por ser um Santo casamenteiro, o S. Gonçalo também é advogado daqueles que têm problemas nos ossos. O NT entrevistou uma das covelenses mais antigas para saber quais as tradições associadas a esta festa centenária.

Clarinda Martins Vieira conta 93 anos. Será uma das covelenses com mais anos de vida e a que melhor conhece as tradições daquela freguesia do concelho da Trofa.

A festa em honra de S. Gonçalo recorda como sendo “sempre igual”, mas houve um ano que se destacou: “O meu avô já contava que era sempre muita chuva e que a festa era muito difícil de fazer, depois mudaram-na para o Verão, e dizem que foi azar, porque nesse dia choveu. Tiveram de mudar outra vez a festa para Janeiro, porque o Santo não queria aquele dia”.

A tradição é “ir à beira do Santo rezar e puxar a bengala”, porque “traz felicidade”. “As moças agora já não fazem isso”, garante. Mas o Santo também é conhecido por aqueles que têm problemas de ossos e que vêm à festa para pedir as melhoras.

“Eu tenho muita devoção, mas vem muita gente do Porto e da Maia com muita fé, eu até fico admirada”, contou Clarinda, recordando histórias de possíveis milagres realizados pelo santo: “Há um senhor que já vem aqui há muitos anos, que nem sabia quem era o S. Gonçalo e onde era. Veio convidado por um amigo que lhe disse ‘lá o que mais há são doces e figos!”. O homem veio saber quem era o Santo, entrou na capela, rezou e viu a procissão. Depois contou-me que tinha um catraio que na segunda-feira ia fazer uma operação aos dedos e que o médico tinha dito que seria preciso cortar um dedo. O homem estava com fé e pediu pela saúde do filho. Quando chegou à beira do filho ele já não precisava de cortar o dedo, nem da operação. Ele disse-me ‘depois disso, nunca mais deixei de vir ao S. Gonçalo’”.

A este ritual das caminhadas até Covelas para pedir um pouco de tudo a S. Gonçalo, junta-se ainda a boa comida, que se pode encontrar nas tasquinhas espalhadas pelas ruas que circundam a capela.

“Na nossa tasquinha, quando ainda estava a minha mãe, faziam-se papas de sarrabulho e rojões. Vinha cá muita gente”, lembrou. O negócio começou a evoluir e foram alargando o espaço e contratando pessoas para ajudar a servir às mesas. “Vinha gente toda a semana, de todos os lados, eu até comprava 500 quilos de fêveras, fazia rojões e arroz”, contou.

Apesar da idade, a Clarinda Vieira nada impede de continuar a comandar os destinos deste restaurante na freguesia. “Eu tomo conta do restaurante e ainda ensino a cozinhar”, frisou, referindo que agora à ementa se juntam outras especialidades.

Hoje, vê o negócio ser gerido por um dos netos e prefere ficar em casa a rezar e a apreciar a festa pela vidraça. “Mas quando era moça ia à festa rezar e ver o fogo-de-artifício”, referiu.