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Crónicas e opinião

Memórias e Histórias do Ave: 50 anos a cuidar dos nossos

José Pedro Reis

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Estimado leitor, na edição anterior não me foi possível escrever a habitual crónica. Aconteceu o milagre da vida: a família cresceu e, na azáfama de acolher um novo ser, o tempo tornou-se curto. É curioso pensar como, nestes 10 anos de companhia e ligação que fomos construindo, tanta coisa mudou. A vida continua a escrever-se, página após página, guardando sempre espaço para nos surpreender e demonstrar que o caminho que ainda será percorrido, é uma incógnita.

Também a história da nossa terra se escreve com novos começos, coragem e fundamentalmente vontade de construir, fazendo forte a forte gente que esteve acorrentada por décadas.

Recentemente, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Trofa celebrou o seu 50.º aniversário. Cinquenta anos de uma instituição que faz parte da identidade trofense e cujo percurso deve encher-nos de orgulho. Para os fundadores que puderam testemunhar esta data, terá sido particularmente comovente olhar para a obra construída e reconhecer nela o resultado de uma decisão tomada há meio século, quando seguramente seria mais fácil continuar a alimentar ciclos viciosos, mas eis que, alguns tiveram coragem de arriscar.

O medo pode fazer-nos recuar. Felizmente, houve quem encontrasse na certeza do caminho a força necessária para avançar, enfrentar resistências e desafiar os poderes instituídos. Foi assim que, a 30 de setembro de 1976, começou esta história. No terreno, destacou-se a liderança operacional de Paupério, figura incontornável da história dos bombeiros no distrito do Porto, acompanhado por diretores, dirigentes e por todos quantos acreditaram que a Trofa precisava de uma resposta própria para proteger a sua gente, fazendo com que fosse colocado um término a décadas de marasmo, recordo que em crónicas anteriores já há praticamente um século se discutia o surgimento de uma corporação de bombeiros que inclusivamente chegou a ter viaturas destinadas a este fim.

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As prioridades foram definidas de acordo com as necessidades e com os recursos disponíveis. A primeira foi uma ambulância, indispensável para responder às urgências da população. O orçamento era curto, como tantas vezes acontece quando os sonhos são grandes e os meios são bastante escassos. Era preciso engenho, persistência e capacidade de encontrar ajuda para transformar a vontade em serviço efetivo.

Para o combate aos incêndios, a primeira resposta chegou num pequeno jipe, cedido pelos Bombeiros Voluntários de Valongo, com uma reduzida reserva de água. Um começo modesto, mas carregado de significado. Esse gesto de entreajuda merece ser lembrado: também ele faz parte da história dos Bombeiros da Trofa e recorda-nos quanto se pode construir quando diferentes instituições se unem para servir a população, deixando para um segundo ou mesmo terceiro patamar egos que são muitas vezes superiores ao tamanho físico de quem os defende.

Ao longo dos anos, a associação encontrou apoio em dois pilares fundamentais. Desde logo, numa população bairrista, que reconheceu nos bombeiros uma causa sua e bastante justa. A Trofa tem esta força: sente as suas instituições, acompanha-as e mobiliza-se por elas. Aquele quartel, viaturas e fardas passaram a representar a segurança das famílias e o esforço de uma terra inteira.

Depois, num tecido empresarial forte, profundamente ligado à comunidade. Muitos dos seus protagonistas conheciam de perto as necessidades locais e ajudaram a dar resposta a quem precisava, até porque surgiram do seu meio. Numa terra onde a iniciativa e a capacidade de arriscar há muito fazem parte do quotidiano, dizem que se chama empreendedorismo, eu prefiro chamar coragem, garra, espírito de sacrifício, essa ligação foi essencial para sustentar o crescimento da associação.

Cinquenta anos não são cinquenta dias. São gerações de bombeiros, diretores, comandantes, associados e beneméritos. São horas retiradas à família, ao descanso e ao trabalho. São homens e mulheres que deram o que puderam, durante o tempo que a vida lhes permitiu, deixando a sua marca numa história que pertence a todos os trofenses.

Honrar esse percurso exige continuar a construir. Um concelho que cresce na indústria, na atividade económica e na população precisa de acompanhar esse desenvolvimento com meios, instalações e condições para quem assume a missão de nos proteger. O orgulho nos nossos bombeiros deve traduzir-se também no apoio que lhes damos.

Desde 30 de setembro de 1976, a Trofa sabe que tem nos seus bombeiros um amparo nos momentos mais difíceis. Meio século depois, cabe-nos cuidar desta instituição com o mesmo bairrismo e a mesma determinação de quem a fundou. Porque, quando a sirene toca, é a nossa gente que parte para acudir à vida de alguém.

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