Crónicas e opinião
Escrita com Norte | Não é uma ida à praia
Há uma altura do ano em que determinadas famílias deixam de ir à praia e passam simplesmente a deslocar-se para a praia.
A diferença parece pequena, mas não é. Quem vai à praia leva uma toalha e quem se desloca para a praia monta uma operação logística.
E observa-se logo de manhã, quando aparece na areia uma pequena procissão composta por adultos, crianças, carrinhos, sacos, cadeiras, chapéus, guarda-sóis, geleiras e uma quantidade de objectos que ninguém consegue explicar muito bem, mas que, aparentemente, são indispensáveis.
É bonito de se ver, tem qualquer coisa de migração sazonal.
A família avança lentamente pelo areal, cada elemento carregando uma parte da civilização.
Chegados ao local escolhido, começa a montagem.
Primeiro, a tenda e o guarda-sol. Depois, as toalhas, seguidas das cadeiras e finalmente a mesa.
Segue-se a distribuição dos brinquedos, das bolsas, dos chinelos, das garrafas de água e de mais umas quantas coisas que estavam dentro de sacos que, aparentemente, continham outros sacos.
Ao fim de trinta minutos, já está tudo instalado. Um espanto a rapidez de execução da obra!
E é nessa altura que se percebe a verdadeira dimensão do projecto.
Não é uma ida à praia, é um empreendimento turístico, que paga IMI!
Tem sombra, restauração, área de lazer e alojamento temporário.
A geleira neste tipo de projecto ocupa uma posição central, como se fosse a recepção do estabelecimento. É grande, robusta e preparada para sobreviver a pelo menos três dias sem contacto com o resto do mundo.
Dentro dela há comida suficiente para alimentar a família, os vizinhos e a equipa de socorro a náufragos.
Depois começa a vida balnear. As crianças correm, os adultos procuram a posição mais confortável, alguém lê uma revista durante sete minutos, o avô adormece, a prima vai à água.
Depois, a prima regressa da água a pingar e passa por cima da toalha de outra pessoa, o avô acorda a babar-se, alguém adormece a ler uma revista.
E começou o carrossel própria da praia.
Uma pessoa sacode a toalha, outra fecha os olhos para não levar com areia, uma criança faz um buraco com dimensões preocupantes, outra decide que o melhor sítio para brincar é exactamente onde está o livro de alguém. Tudo normal. É a praia.
A certa altura, há sempre uma discussão silenciosa sobre a temperatura da água.
Uns entram, outros molham apenas os pés e deixam-se estar até ficarem roxos. Há aqueles que passam vinte minutos a preparar-se mentalmente para entrar e depois regressam à toalha e aqueles que ao sentirem a areia fria, exclamam, “Eu não sou tolo”.
Entretanto, o sol sobe e a sombra muda de lugar.
E começa a operação mais importante do dia, mover o guarda-sol sem desmontar o empreendimento turístico. É uma tarefa de precisão.
Puxa daqui, roda dali, endireita, enterra mais fundo, testa o vento. É como assistir à instalação de uma antena parabólica.
E depois chega a hora do almoço. A geleira abre-se e o estabelecimento entra em funcionamento.
Sandes, fruta, bolachas, bebidas, comida que foi cuidadosamente preparada em casa e transportada durante quilómetros para ser comida na praia. É uma experiência gastronómica!
Há areia nas mãos, na toalha, nos pés, na comida e, misteriosamente, em sítios onde ninguém consegue perceber como ali foi parar.
No final da tarde começa a desmontagem.
É talvez a parte mais impressionante. Tudo o que demorou meia hora a montar desaparece em dez minutos.
As cadeiras fecham, as toalhas são sacudidas, os brinquedos são recolhidos, os sacos voltam a encher-se e a geleira é fechada.
E aquela pequena aldeia balnear desaparece como se nunca tivesse existido.
Fica apenas a areia e, provavelmente, um balde ou uma forma esquecidos.
Porque há coisas que fazem parte da tradição, no dia seguinte, tudo recomeça.
A mesma família, a mesma praia, a mesma logística, mudando só uma coisa, a geleira parece um bocadinho maior.
E começa-se a desconfiar de que, afinal, aquilo não é uma família de férias, é um franchising.
Todo este ritual é observado com espanto e carinho, porque também faz parte das nossas memórias de criança!


