Crónicas e opinião
Desabafos de uma Mãe Imperfeita | Quando tudo é especial
Há dias dei por mim a fazer uma pergunta que, provavelmente, muitas mães fazem durante as férias: “O que vamos fazer hoje?”
Curiosamente, os meus filhos ainda nem me tinham questionado. A pergunta nasceu primeiro em mim.

Olhei para o dia e comecei, quase sem pensar, a tentar preenchê-lo. Podíamos ir à praia, fazer um bolo, dar um passeio, ir ao parque, ver um filme com pipocas, ir à piscina, convidar um amigo para vir cá… Como se uma boa tarde precisasse, obrigatoriamente, de um bom plano. Como se uma tarde sem nada marcado, ou definido, fosse uma oportunidade desperdiçada.
E, então, ocorreu-me uma pergunta ainda mais inquietante:
Quando foi que deixamos de acreditar que uma tarde sem planos pode ser um bom dia?
Vivemos numa época extraordinária para sermos pais. Nunca tivemos tantas possibilidades.
Há atividades para todos os gostos: parques incríveis, piscinas, insufláveis, oficinas, experiências, livros, brinquedos, jogos, …
Nunca foi tão fácil proporcionar momentos bonitos às crianças. E ainda bem!
Acredito que cada geração tenta oferecer aos seus filhos um pouco mais do que o que recebeu. Também eu o faço. Também eu gosto de os surpreender. Também eu quero criar memórias.
Faço-o porque os amo. Não há culpa nisso, há amor.
Mas começo a perguntar-me se, na tentativa de lhes dar tudo, não estaremos, sem intenção, a deixar pouco espaço para algo muito importante: a espera.
Quando penso nos verões da minha infância, penso nos passeios em família, nos piqueniques aos domingos, onde se juntavam quase todos os primos, e penso na casa da minha Madrinha, nos bolos feitos aos sábados.
Na altura não me apercebi que aqueles momentos foram especiais. Hoje sei que eram. E talvez tenham sido, precisamente, porque não aconteciam todos os dias.
O bolo ao sábado, o piquenique ao domingo… esperava-se pelo dia, desejava-se, saboreava-se. Sempre ouvi a frase “antigamente as coisas sabiam melhor” mas, agora, entendo que não era porque os “sabores” eram melhores.
Era o tempo.
Tempo para esperar, tempo para olhar o céu, tempo para me aborrecer… E ninguém parecia assustado com isso. Ninguém corria para preencher esse vazio. A vida simplesmente acontecia. E, pouco a pouco, acontecia também qualquer coisa dentro de nós. Uma ideia, uma história, uma brincadeira, uma invenção.
Hoje os nossos filhos têm uma infância diferente. Não melhor, não pior. Diferente.
Conhecem lugares que muitos de nós nunca visitámos em criança. Vivem experiências maravilhosas e têm oportunidades pelas quais só podemos sentir gratidão.
Mas vivem, também, num mundo que raramente abranda.
Um brinquedo sucede o outro, um vídeo leva imediatamente ao seguinte, uma atividade termina e já estamos a preparar a próxima. Até as férias parecem, por vezes, precisar de ser produtivas. E nós entramos nesse ritmo sem dar conta. Não porque alguém nos obrigue, mas porque queremos aproveitar tudo.
Queremos que eles sejam felizes, queremos que eles tenham um verão inesquecível. Talvez nunca tenha existido uma geração de pais que se preocupasse tanto em construir memórias.
Filmamos os primeiros mergulhos, fotografamos os castelos de areia, guardamos as pulseiras dos parques aquáticos, procuramos experiências, partilhamos momentos, … e fazemos tudo isto movidos pelo amor.
Mas há algo curioso nas melhores memórias… raramente sabemos quais elas são enquanto estão a acontecer.
Não se grava, ou filma, uma hora inteira passada a inventar histórias com uma caixa de cartão. Ninguém publica uma tarde em que, aparentemente, não aconteceu nada. E, no entanto, talvez seja precisamente nesses momentos que a infância acontece.
No tempo que não tem objetivo, na brincadeira que ninguém organizou, no silêncio entre atividades. No instante em que uma criança diz “estou aborrecido” e, cinco minutos depois, transformou um pau numa espada, uma manta numa cabana ou uma pedra num tesouro.
Não porque alguém lhe ensinou, mas porque lhe deram tempo.
Cada vez acredito mais que o maior luxo que uma criança pode ter hoje não é mais um brinquedo, mais uma atividade ou mais uma viagem. É ter uma tarde sem nada marcado.
Uma tarde onde possa esperar, imaginar, inventar e descobrir. Uma tarde onde não lhe mostremos imediatamente o caminho. Porque algumas das competências que mais desejamos para os nossos filhos– criatividade, autonomia, capacidade de resolução de problemas, pensamento crítico– não nascem nas atividades que, cuidadosamente, lhes preparamos. Nascem, justamente, nos momentos em que nós, adultos, temos a coragem de não intervir de imediato.
É aí que aprendem a ouvir as próprias ideias, a lidar com o silêncio e a descobrir que, afinal, há muito que podem fazer.
Talvez da próxima vez que um dos meus filhos me pergunte “Mamã, o que vamos fazer hoje?”, eu continue a ter vontade de responder com um plano. Mas, também, talvez espere um pouco mais para falar. Não porque tenha deixado de querer tornar os dias deles especiais, mas porque acredito, cada vez mais, que algumas das melhores experiências da infância não nascem de algo meticulosamente organizado por um adulto.
Acontecem, simplesmente, porque alguém lhes ofereceu aquilo que, nos dias de hoje, parece cada vez mais raro: tempo.
Tempo para que a imaginação entre em ação.
Tempo para que a curiosidade encontre o seu caminho.
Tempo para que uma tarde aparentemente vazia se transforme, sem que niguém dê por isso, numa das memórias mais felizes da infância
Crónica de Sandra Pinheiro
sandrapaisfonseca@gmail.com
@sandrapinheiro.comalma


