Crónicas e opinião
A hora da União Europeia assumir a liderança
Estimados leitores, o mundo atravessa um momento de enorme instabilidade, e o Médio Oriente volta a ocupar o centro das preocupações internacionais. A escalada do conflito na região, com consequências ainda difíceis de prever, não é apenas um problema distante. É, cada vez mais, uma realidade que se faz sentir no dia a dia dos portugueses, com impactos diretos na economia, no custo de vida e na segurança energética.
A história recente mostra-nos que cada crise naquela região tem repercussões globais. O aumento do preço do petróleo, a instabilidade nos mercados energéticos e a incerteza geopolítica acabam sempre por chegar à Europa, e, obviamente, a Portugal. Hoje, voltamos a assistir a esse fenómeno. O preço do gasóleo sobe, o gás encarece, os bens essenciais tornam-se mais caros. E, como sempre, são as famílias e as pequenas empresas as primeiras a sentir o impacto. Não estamos perante um fenómeno isolado. Estamos perante um efeito dominó que resulta de decisões políticas, muitas vezes unilaterais, que ignoram as consequências globais.
A postura de Donald Trump, marcada por decisões imprevisíveis e por uma lógica de confronto, tem contribuído para agravar tensões e para fragilizar equilíbrios internacionais que demoraram décadas a construir. O impacto destas decisões não se fica pelos Estados Unidos ou pelo Irão, rapidamente se prolonga à Europa e, por arrasto, à economia portuguesa.
Perante este cenário, impõe-se uma reflexão sobre o papel da União Europeia. A Europa não pode continuar a ser um mero espectador num mundo cada vez mais marcado por decisões unilaterais. É fundamental que assuma uma posição mais firme, mais coesa e mais estratégica.
A defesa dos interesses europeus exige uma política externa mais assertiva, capaz de antecipar crises e de responder de forma coordenada aos desafios globais.
Para Portugal, esta realidade tem um impacto particularmente sensível. A nossa dependência energética, aliada a uma economia ainda vulnerável a choques externos, torna-nos especialmente expostos. O aumento dos combustíveis reflete-se nos transportes, na produção e na distribuição. O encarecimento do gás pesa nas contas das famílias e das empresas. E, como consequência, o custo de vida sobe, muitas vezes mais depressa do que os rendimentos.
Estimados leitores, é precisamente nestes momentos que se exige uma resposta política à altura. O Governo Português não devia limitar-se a acompanhar os acontecimentos. Tem de ser proativo, tem de agir, tem de proteger. A memória recente mostra-nos que é possível ir mais além. Durante os governos liderados por António Costa, foram implementadas medidas extraordinárias para mitigar os efeitos da pandemia de COVID-19 e, posteriormente, do impacto inicial da guerra na Ucrânia. Apoios às famílias, às empresas, controlo de preços, mecanismos de compensação. Tudo medidas que, com maior ou menor eficácia, procuraram dar resposta a uma situação excecional.
Hoje, a pergunta que se impõe é simples: porque não estamos a fazer o mesmo?
O agravamento do custo de vida exige medidas concretas. Exige apoio direto às famílias mais vulneráveis, exige mecanismos de contenção dos preços da energia, exige uma política fiscal que alivie quem mais sofre com esta pressão. Não basta reconhecer o problema, é imperial agir sobre ele.
O contexto internacional é complexo, é volátil, e não depende exclusivamente de nós. Mas a forma como respondemos internamente faz toda a diferença. Portugal não pode ser apenas um país que reage; tem de ser um país que protege, que antecipa e que responde com eficácia.
Vivemos tempos em que as decisões tomadas a milhares de quilómetros têm impacto direto na nossa vida quotidiana. É precisamente por isso que as políticas nacionais e europeias ganham uma importância redobrada. A estabilidade não é garantida, a previsibilidade desapareceu, e os desafios acumulam-se.
O que se exige, neste momento, é clareza, responsabilidade e ação. A Europa tem de assumir o seu papel no mundo. Portugal tem de assumir o seu papel dentro da Europa. E o Governo tem de assumir, sem hesitações, o seu papel.
Artigo de opinião de Amadeu Dias


