Ano 2007
A Moral e a Fractura
O referendo do transacto domingo, revelou, além do óbvio, resultados insondáveis e deu azo a reacções que importam analisar.
Em termos de análise política ao nosso regime democrático, será necessária alguma boa vontade para nos congratularmos com a participação dos cidadãos eleitores, porquanto a abstenção atingiu um patamar superior aos 50%.
Não será esse facto, porém, a colocar em causa a vitória do sim à questão referendada, nem o próprio instituto do referendo. Quem não votou tomou uma de duas posições, ambas legítimas: ou considerou que o seu não-voto é uma forma de participação e de exprimir os seus sentimentos para com o actual regime político; ou, pura e simplesmente encerrou-se no seu casulo e não deu a esta forma de participação popular qualquer relevância justificativa para se “incomodar”, indo votar quando tal não é legalmente obrigatório.
Ora, como dizia o nosso primeiro-ministro a uma cadeia de televisão estrangeira, 
Não obstante, importa da mesma via recordar as palavras de Jerónimo de Sousa, considerando o resultado do referendo como uma vitória do 25 de Abril. E neste ponto, vemo-nos na contingência de concordar: a despenalização do aborto, numa época em que se fala na Europa Ocidental da preocupante crise de natalidade e da sustentabilidade das reformas e pensões da Segurança Social, em que os Estados já compensam directa e indirectamente os casais que decidam ter filhos – quantos mais, melhor! -, inclusive pela via pecuniária, e cogitam a possibilidade de proibir o aborto em certas circunstâncias, é digno de realce o facto Portugal estar, também a este nível, atrasado cerca de 30 a 40 anos.
De outra guisa, além das declarações políticas no apurar dos resultados de dia 11, convém atentar na distribuição de votos sobre esta matéria a nível nacional. Foi clara a divisão nacional entre o Norte conservador e o Sul liberal. Aliás, à excepção do distrito do Porto, onde o sim na resposta ao referendo fez vencimento, todos os distritos até à Guarda, no interior, e Aveiro, no litoral, votaram não. A estes juntaram-se os votos das Regiões Autónomas, Madeira e Açores. Esta é premissa bastante para uma conclusão: culturalmente e em termos de valores, Norte e Sul distinguem-se, não conseguindo apresentar pontos de convergência. Se o Norte se apresenta, maioritariamente, católico e moralista, já o Sul é dominado, de forma avassaladora, por uma matiz enrubecida, laica e amoral. Aliás, a Sul as populações tendem mais a agregar-se em torno dos grandes centros urbanos, contrariamente ao Norte, onde o meio rural ainda apresenta peso significativo.
O futuro trará as apreciações devidas para o que actualmente sucede em Portugal. Em certa medida, deixamo-nos dominar pelo verdadeiro espírito europeu, dos falsos unanimismos e uniões de circunstância. Afinal, um mero reflexo da presente sociedade europeia: sem pontos em comum, sem auto-estima, sem valores, sem moral, sem identidade. Portugal está, assim, mais próximo da integração europeia.


