Crónicas e opinião
Folha liberal: Com a verdade me enganas…
“Podemos ficar com a sensação de que a economia portuguesa apresenta uma pujança que não víamos há décadas, mas se olharmos de uma forma mais atenta, logo verificamos que isso não é nada assim”.

Há pouco mais de um mês, foi noticiado com grande ênfase, que a economia portuguesa cresceu 6,7% em 2022, o valor mais alto desde 1987 e o 2º maior da UE.
Visto assim, podemos ficar com a sensação de que a economia portuguesa apresenta uma pujança que não víamos há décadas, mas se olharmos de uma forma mais atenta, logo verificamos que isso não é nada assim.
Estes dados, sendo verdadeiros, escondem uma realidade bem mais dura. É que estamos a comparar com 2021, um ano em que ainda existiram fortes restrições relacionadas com a pandemia de Covid-19, em que, por exemplo, ainda existiam grandes limitações ao turismo.
Se compararmos com 2019, o último ano completo antes da pandemia, verificamos que o PIB real português apenas cresceu 3,2%. Em 4 anos o PIB português cresceu 3,2%, quando a Irlanda cresceu “só” 27,8%. Se compararmos com o último ano antes da pandemia, deixamos de ter o 2º maior crescimento, para passarmos a ter apenas o 17º (em 27).
As estatísticas podem sempre ser “trabalhadas” para nos dar um resultado melhor ou pior, dependendo daquilo que queremos, ou que queremos que os outros vejam. Esta excelente notícia, é afinal a prova de que a nossa economia foi das que mais sofreu com a pandemia.
Aliás, isso fica provado com um estudo que chegou à conclusão, que as famílias portuguesas perderam 4,1% de rendimento disponível desde o início da pandemia. Foi, segundo esse estudo, o segundo país da OCDE onde as famílias perderam mais rendimento disponível. Atrás de nós apenas fica a Espanha, que nos últimos anos se tem esforçado muito para ser o pior dos piores…
A pergunta que se coloca é: porquê? Porque é que em Portugal até aquilo que parece ser uma boa noticia é apenas o reflexo e a confirmação da fragilidade da nossa economia?
Um estudo (World Competitiveness Ranking 2022), produzido há dias pelo Institute for Menagement Development (IMD) pode, perfeitamente, ajudar-nos a perceber o porquê, e a encontrar soluções. Segundo este estudo, Portugal caiu 6 posições no ranking de competitividade mundial, com a política fiscal e as práticas de gestão (especialmente a iliteracia financeira,) a serem as áreas onde o país apresenta pior desempenho.
Este relatório propõe 5 desafios para melhorar a competitividade da nossa economia: Alcançar um crescimento económico sustentável acima da média da União Europeia; criação duma estratégia nacional que promova a literacia financeira e o empreendedorismo, levando a uma melhoria da qualidade da gestão; Reforçar a transformação digital e a transição energética que ajude a competitividade das empresas; fazer reformas na justiça, na saúde, na educação e segurança social, e almejar a sustentabilidade da dívida pública; e, finalmente, lidar com as questões demográficas urgentes do envelhecimento, da baixa natalidade e da migração.
Sabemos porque estamos aqui, sabemos o que é preciso fazer para melhorar, mas não se faz uma reforma, digna desse nome, em Portugal há décadas, e as poucas que se querem fazer, como a da habitação, são tão absurdas, tão feitas em cima do joelho, que acabam por não dar em nada.
O problema não está em aceitar as ideias novas, o problema está em livrarmo-nos das ideias velhas. O diagnóstico está feito, os desafios para a obtenção de resultados são conhecidos, mas é mais fácil enganar o povo com a verdade.


