Edição 784
Roteiro Histórico-Cultural Trofense à volta dos Caminhos de Santiago
O Roteiro Trofense à Volta dos Caminhos de Santiago pretende ser uma resposta (e dar a conhecer) uma panóplia de informações do território que abrange o concelho, a nível histórico-cultural, patrimoniais, sociais e de âmbito religioso, aos inúmeros “caminheiros”.
O Roteiro Trofense à Volta dos Caminhos de Santiago pretende ser uma resposta (e dar a conhecer) uma panóplia de informações do território que abrange o concelho, a nível histórico-cultural, patrimoniais, sociais e de âmbito religioso, aos inúmeros “caminheiros”, viajantes ou, simplesmente, visitantes que diariamente chegam ou cruzam as diversas ruas, aldeias e o centro da cidade (do nosso concelho) e/ou pretendem conhecer, fazer (ou refazer) amizades ou participar em eventos de lazer ou culturais; e até a quem quem visite a Trofa para estabelecer relações comerciais e/ou industriais.
Capítulo I
APONTAMENTOS HISTÓRICOS E GEOGRÁFICOS SOBRE A TROFA
O concelho da Trofa está situado no limite da região de Entre Douro e Minho, no extremo norte do distrito do Porto. O município é limitado a norte pelo município de Vila Nova de Famalicão, a leste por Santo Tirso, a sul pela Maia e a oeste por Vila do Conde. Dispõe de vias de comunicação rodoviárias (estradas nacionais 14 e 104) e ferroviárias – Linhas do Minho, Braga e Guimarães (pelas estações da Trofa, São Romão do Coronado e apeadeiro de Portela, em Covelas) -, de rápido e fácil acesso, seja do/ao Porto, Braga ou da/para Galiza, através da A3. A proximidade com o aeroporto Francisco Sá Carneiro (Pedras Rubras) e o porto de Leixões (em Matosinhos) permite a maior mobilidade e hipótese de escolha do meio de transporte para quem visita a Trofa.
Com uma área de 72 quilómetros quadrados, o concelho da Trofa compreende as freguesias de Alvarelhos, Santiago de Bougado, S.Martinho de Bougado, S. Mamede do Coronado, S. Romão do Coronado, Covelas e Muro. Segundo os Censos 2021, o concelho apresentava 38.548 habitantes. Em 2013, com a chamada lei da “Reforma Administrativa”, da reorganização das freguesias, o município da Trofa passou a ter 5 Juntas de Freguesia: União de Freguesias de Bougado (S. Martinho e Santiago), União de Freguesias do Coronado (S. Romão e S. Mamede), União de Freguesias de Alvarelhos e Guidões, Covelas e Muro.
Apesar de ser um concelho recente (desde 19 de novembro de 1998), a existência e/ou o percurso histórico da Trofa é longo e anterior à própria constituição da Nacionalidade. Acredita-se que uma das primeiras citações conhecidas está integrada num documento de escritura do Mosteiro do Divino Salvador de Moreira (da Maia), datado de 979. Este documento refere Alvarelhos (Alvarelios), São Cristóvão do Muro (Sanctum Cristoforum) e Cedões (Zadones), este, localizado em Santiago de Bougado.
Contudo, o povoamento deste território, actualmente conhecido como pertencente ao concelho da Trofa, remonta a milhares de anos atrás, como comprovam os vários legados existentes. São exemplos as diversas mamoas encontradas em S. Martinho de Bougado, Santiago de Bougado, Monte Grande (Alvarelhos) e o Castro de Alvarelhos, na Idade do Ferro, assim como 34 machados “descobertos” na Abelheira (S. M. Bougado), pelo Abade Joaquim Pedrosa, um dos maiores vultos trofenses do século XIX, em matéria de arqueologia.
No tempo da “romanização” da Península Ibérica, os romanos construíram várias estradas militares (Vias Romanas), uma das quais passava pelo centro da cidade da Trofa: a denominada Via XVI Braccara-Ulissipo (de Braga a Lisboa). Ao longo desta Via Romana, foram também encontrados vários Marcos Miliários (romanos), no século XIX.
As freguesias do concelho da Trofa estiveram ligadas, umbilicalmente, durante vários séculos, às Terras da Maia, principalmente após o Foral concedido à Maia pelo rei D. Manuel I, em 15 de dezembro de 1519.
Em meados do século XIX, a sua paisagem era claramente marcada pelo verde da “ruralidade”: mas com o advento do liberalismo, da revolução industrial e, principalmente, com a chegada do comboio, em 1875, e dos CTT a Trofa sofreria uma grande transformação a nível social e económica.
Fruto da dinamização industrial do território trofense e, sedentos de autonomia administrativa, as gentes da Trofa iniciaram, nas últimas décadas do século XX, uma luta pela emancipação (do concelho de Santo Tirso), com vista à criação de um novo concelho, o concelho da Trofa, que englobaria as oito freguesias que haviam sido retiradas à Maia (pela Reforma de Mouzinho da Silveira), e integradas no concelho de Santo Tirso, a partir do ano de 1836. Finalmente, a criação do novo concelho haveria de ser “decretada” na tarde do dia 19 de novembro de 1998, através de uma deliberação histórica da Assembleia da República.
Capítulo II
CAMINHOS DE SANTIAGO
Caminhos de Santiago são os percursos dos peregrinos que afluem e dirigem a Santiago de Compostela desde o século IX para venerar as relíquias do corpo do apóstolo Santiago Maior, cujo suposto túmulo terá sido descoberto no Bosque de Libredón (Compostela). Esta peregrinação foi uma das mais concorridas da Europa medieval, cuja importância só era superada pela “Via Francigena” (Roma) e Jerusalém (Terra Santa). O Caminho de Santiago passou por uma profunda crise, no século XVI, motivada por várias razões e que só viria a terminar no século XIX, altura em que há a (re)descoberta das relíquias “autênticas” do Apóstolo. Após este “segundo fôlego”, motivado por esta “redescoberta”, a peregrinação volta a recuperar e nas últimas décadas do século XX iniciam-se as celebrações do “Ano Santo” ao mesmo tempo que, em 1987, o “Caminho de Santiago” é declarado como “Primeiro Itinerário Cultural Europeu”. Seguidamente, em 1993, é declarado “Património da Humanidade”, em Espanha, e, em 1993, na França.
Portugal acompanhou, logo de início, as peregrinações à Catedral do apóstolo Santiago Maior. Logo em 1064 há notícia que Fernando Magno terá realizado a primeira peregrinação e no século XII, após a independência nacional, os peregrinos começaram a aumentar, assumindo particular relevo a estrada Porto-Barcelos-Ponte de Lima-Valença.
Actualmente, o Caminho é constituído por várias vias, sendo que a mais longa é a que parte do Algarve, ainda que o ponto de partida se encontre no Porto (Terreiro da Sé).
A riqueza espiritual do percurso cruza-se com a riqueza histórica e paisagística, com a passagem por florestas, bosques, terras agrícolas, aldeias, vilas, cidades históricas, fontes, capelas e igrejas dedicadas ao Apóstolo, assim como mosteiros e conventos, confrarias devocionais e até várias lendas, verdadeiros testemunhos de um fluxo de pessoas que povoam e fortalecem os laços de intercâmbio cultural, económico e até ideológico.
Caminhos Portugueses
De entre os diversos “Caminhos” existentes no Mundo, há um, que é “luso-espanhol” – cujo nome é Caminho de Torres -, e parte de Salamanca, entra em Portugal por Almeida, atravessa Pinhel, Trancoso, Lamego, Amarante, Guimarães, Braga, Ponte de Lima e Valença, volta a entrar em Espanha por Tui, seguindo por Pontevedra, Padrón e Santiago de Compostela. A seguir, salienta-se aqueles que têm origem em Portugal:
Caminho Português Principal (Central) – Lisboa, Coimbra, Porto, Matosinhos, Maia, Vairão, Rates, Barcelos, Ponte de Lima, Rubiães, Valença, Tui, Redondela, Pontevedra, Santiago de Compostela; Caminho Via Portugal Nascente – Tavira, Évora, Castelo Branco, Guarda, Trancoso, seguindo para Torres (Espanha)…, Santiago de Compostela;
Caminho Português do Interior – Viseu, Lamego, Régua, Vila Real, Chaves, Verin (Espanha) … Santiago de Compostela; Caminho pela Costa (portuguesa) – na zona Norte, sai do Porto (Terreiro da Sé), Maia, Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Caminha, La Guardia, Vigo, Santiago de Compostela;
Caminho Central Português (por Braga) – este Caminho liga duas importantes cidades portuguesas à capital regional da Galiza (Porto-Braga-Santiago de Compostela). Tem início no Porto (Terreiro da Sé), seguindo pela Maia, Vila do Coronado, Covelas (S. Gonçalo), Abelheira (São Martinho de Bougado), Ponte da Lagoncinha, Famalicão, Braga…).

Há um último, (n.º 6) que não vem mencionado em nenhum “roteiro” (ou manual oficial) – e que tem o percurso mais primitivo – ou seja, vem dos tempos em que os Romanos “dominavam a Península Ibérica”, caminho esse que passava na chamada Via Romana XVI, em que os peregrinos começaram a seguir esse mesmo percurso, cujo Caminho passa (nos tempos de hoje) pelo “centro histórico” da Trofa.

“Caminhos” que passam pela Trofa (e que se completam, sendo um a variante do outro)
Caminho Central (por Braga). Este Caminho foi um itinerário muito utilizado em território português, até ao primeiro quartel do século XIV, altura em que se constrói a ponte de Barcelos e se procede à reforma da ponte de Ponte de Lima, situação que favorecerá a alternativa pelo Caminho Central. Com início no Porto (Terreiro da Sé), desce pelas escadas para a Igreja dos Grilos, Centro da Cidade, Rua da Cedofeita, Paranhos, S. Mamede de Infesta, Ponte da Pedra, Maia, Silva Escura, entra na freguesia de S. Mamede do Coronado pelo Largo de Trinaterra, Lago do Feira Nova, Capela do Espírito Santo, passa por antiga Hospedaria dos Peregrinos (ainda no largo do Espírito Santo), Capela de Santa Eulália, Igreja de S. Romão do Coronado, passa junto ao Restaurante “O Bêco”, Capela de S. Bartolomeu, Capela de S. Gonçalo (Covelas), Monte de Paradela, (baloiço do Meco), desce o monte, passa pelo “S. Gonçalo pequeno”, segue em frente pela rua Campos Monteiro, Largo da Bela Vista, vira à direita pela rua Martins Sarmento, passa pela ACRABE (Abelheira) – Campo da Louseira, entra na EN 104, vira à direita, caminha cerca de 40 metros, flecte à esquerda pela Rua Vicente de Sá Couto, rua dos Combatentes, contorna o largo de Nossa Senhora do Rosário, na Nova Abelheira, contorna a rotunda, segue em frente, desce cerca de 150 metros, chega a um largo (já na rua da Ponte-Lousado), onde se encontra (cruza) com o Caminho da Via Romana XVI, passa pela ponte sobre o ribeiro de Ervosa, caminha cerca de 100 metros, passa pela ponte da Lagoncinha, na Garrida, Pé de Prata, Monte e Capela de Santa Catarina (Cabeçudos), Devesa, Esmeriz, Portela de Baixo, Real, Santiago de Antas, passando ao lado da igreja paroquial, e continua em direcção a Braga.
Caminho pela antiga Via Romana XVI. Este caminho poderá ser, sem dúvida alguma, o mais antigo trajecto, percorrido por diversas figuras ilustres do nosso país, à época, em direcção à catedral de Compostela. Há registos que apontam que os reis D. Afonso II, D. João I e D. Isabel de Aragão (a Rainha Santa Isabel, esposa de D. Dinis) terão feito várias peregrinações à Catedral do Apóstolo. Há historiadores que referem este Caminho como englobado no Caminho Central por Braga, aproveitando a Via Romana que havia sido construída séculos antes da nossa nacionalidade.
Para corroborar a informação e o crédito histórico de que esta Via Romana passava pelo concelho da Trofa, Carlos Alberto Ferreira de Almeida, na sua crónica Romanização das Terras da Maia, Edição da Câmara Municipal da Maia, 1969, refere o seguinte: “… A estrada romana (Via XVI) de Lisboa a Braga passava pela parte mais alta de S. Pedro de Avioso. Pelos limites de Guilhabreu, seguia para Alvarelhos, pela parte ocidental da Quinta de Paiço, e descia à Peça Má, indo cruzar o rio Ave em Santiago de Bougado”.
Apresenta-se, de seguida, o troço do “Caminho”, agora “reconstituído”, através da remarcação realizada recentemente, tendo por base a antiga Via Romana XVI, com bastantes alterações (ao traçado original e/ou desvios provocados pelas construções de habitações e de caminhos ou ruas de via pública: Vindo de Lisboa, este “Caminho” parte do Terreiro da Sé (Porto), passa pelo centro da cidade, Rua da Cedofeita, Paranhos, Gueifães, Leça do Balio, Maia, Barca, Castêlo da Maia, São Pedro de Avioso, Carriça, entra em Alvarelhos pela rua de Santa Maria, Quinta do Paiço, Quintão (Muro), Peça Má, Lantemil, Capela de Nossa Senhora da Livração, ponte sobre o ribeiro de Cedões (Trofa-Velha), Recta das Pateiras, entra no Parque Nossa Senhora das Dores, (Fórum Trofa XXI) passa ao lado da capela de Nossa Senhora das Dores, Alameda da Estação, Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado (Rua de S. Martinho), Rua Alberto Pimentel, ponte de Real, passa ao lado da Casa de Real, flecte em ângulo recto para a esquerda, caminha cerca de 50 metros, vira à direita, passa pela Casa da Eira, em Real, prossegue cerca de 100 metros; em frente à Igreja Nova vira à esquerda pela Rua do Carvalhinho, Rua Teixeira Lopes (na Esprela), Rua Henrique Lopes de Mendonça, Rua Júlio Brandão, entra no caminho de terra batida, num percurso com cerca de 300 metros, (na margem esquerda do rio Ave), ponte sobre o ribeiro de Ervosa (no lugar da Ponte), ponte da Lagoncinha – Garrida, Pé de Prata, Santa Catarina (de Cabeçudos), Devesa, Esmeriz, Portela de Baixo, Santiago de Antas (Vila Nova da Famalicão), S. João Pedra Leital, São Martinho e São Cosme do Vale, Telhado, Figueiredo, São Miguel, Lomar, Ferreiros e Braga.
ANTÓNIO COSTA


