Crónicas e opinião
Folha Liberal: Cada vez mais dependentes do Estado
Quando quisermos culpar alguém pelo estado em que estamos (ou dar os parabéns), talvez valha a pena olhar para estes dados.
Um estudo da OCDE refere que do total de despesas com a saúde em Portugal, cerca de 27,5% são pagos diretamente pelos portugueses, e não pelo SNS. Quase o dobro da média europeia que se fica pelos 15,8%.
Isto significa que há muita gente que pode ficar em muitos maus lençóis, se tiverem a infelicidade de adoecerem. Tanto mais que, segundo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimentos do INE, realizado em 2022, cerca de 30% da população portuguesa não consegue pagar uma despesa extra de 555 euros sem recorrer a um empréstimo. São cerca de três milhões de portugueses.
Sabemos também que em Portugal há cerca de 4,4 milhões de pobres, sabemos que há 1,4 milhões de pessoas sem médico de família, sabemos que 70% dos trabalhadores recebe menos de 1000 euros por mês, sabemos que 20% da população portuguesa vive emigrada, sabemos que somos o 3º país da União Europeia mais envelhecido, sabemos que somos o 4º país da Zona Euro com menor poder de compra, e sabemos também que somos campeões no que ao pagamento de impostos diz respeito (de 2015 para 2022 as receitas ficais cobradas cresceram cerca de 30.000.000.000,00€ – trinta mil milhões de euros).
Parece-me importante tentar perceber porque é que estamos sempre na mesma “cepa torta”, porque é que não fazemos as reformas necessárias para criarmos uma economia mais forte e mais robusta que permita a todos os portugueses viver uma vida melhor.
Há anos que ouvimos e vemos culpar a “Troika” por tudo o que nos aconteceu, fazendo “tábua rasa” dos motivos que levaram a que tivéssemos que “implorar” a sua assistência. Mas, a Troika sé esteve em Portugal pouco mais de 3 anos, pouco mais de 1000 dias.
Mas, se a “Troika” esteve “só” esse tempo, então, quem foram os governantes que mais tempo estiveram em funções governativas (seja como ministro ou como secretário de estado) desde 15 de Maio de 1974 até à data em que escrevo esta crónica (06 de Fevereiro de 2023):
Não ficará, certamente, surpreendido o caro leitor ao saber que quem esteve mais tempo no governo em Portugal no pós 25 de Abril foi o Dr. António Costa. Esteve no governo durante uns estonteantes 5777 dias (quase 16 anos) e promete estar ainda mais alguns. O segundo também não deve surpreender muito: foi o Dr. Augusto Santos Silva com uns “singelos” 5497 dias (um pouco mais de 15 anos) e, para não maçar mais o caro leitor digo-lhe só que o terceiro foi o Dr. Eduardo Cabrita durante 4478 dias (um pouco mais de 12 anos).
Quando quisermos culpar alguém pelo estado em que estamos (ou dar os parabéns), talvez valha a pena olhar para estes dados. São estes os que tiveram tempo e oportunidades para fazer alguma coisa pelo país, mas a única coisa que conseguiram foi tornar os portugueses, relativamente, mais pobres, mais frágeis e mais dependentes do estado.
O Dr. Vítor Bento num artigo do Observador indica que em 1980, 34,2% da população votante “dependia” do estado. Mais uma vez não ficará o caro leitor surpreendido ao verificar que em 2020 essa percentagem passou a ser de 61,3%. Mais de 6 em cada 10 votantes depende do estado.
Sabemos o que nos trouxe até aqui, sabemos quem nos trouxe até aqui, sabemos que mantendo as mesmas políticas os resultados serão os mesmos, mais dependência, mais empobrecimento, mais mão estendida à União Europeia, mas mesmo assim temos grande dificuldade em mudar.
Vamo-nos habituando…

Foto: Parlamento.pt


