Crónicas e opinião
Memórias e Histórias da Trofa: Inventário Republicano da Igreja de S. Martinho de Bougado
Uma das primeiras medidas do novo governo foi de inventariar os bens da Igreja Católica
A 5 de outubro de 1910 era instaurada a República em solo português. Terminavam séculos e séculos de governação monárquica e várias mudanças abruptas iriam acontecer na sociedade.
O manifesto de pendor anticlerical dos republicanos na fase final da monarquia era uma das bandeiras mais marcantes da sua agenda política. Entre eles, o trofense Heliodoro Salgado era bastante crítico na sua ação de “missionação”, apelando para a separação entre o Estado e a Igreja Católica.

Uma das primeiras medidas do novo governo foi de inventariar os bens da Igreja Católica e os arrolamentos àquelas instalações foram acontecendo nas semanas e meses seguintes de governação.
Na freguesia de S. Martinho de Bougado, essa missão ficou encarregue ao cidadão Alberto de Graça Maia Leitão, que era capitão médico e também administrador do concelho, como também Alfredo Guedes Machado, Alberto Augusto Correia de Guimarães, funcionário das finanças.
Os elementos procuravam os artigos que eram usados para o culto religioso nas várias comunidades, uma ação concertada entre vários ministérios, entre eles o das Finanças, sendo que eles apontaram na Igreja Matriz da Trofa sobretudo: alfaias, móveis e paramentos.
Numa análise rápida e sucinta, facilmente podemos ver que não existiam artigos em grandes quantidades, cogulas, estolas, peças em prata, na prática os artigos indispensáveis ao culto religioso.
Seriam no total 50 artigos diferentes, inclusivamente as jarras entravam para este arrolamento, sendo também escrutinados os títulos da dívida pública, que também estavam presentes, como eram exemplo os certificados de investimento. O arrolamento de bens continuava, mas não deixava de ser engraçado perceber que a própria Igreja se destinava a práticas capitalistas, como prova a presença de certificados de investimentos nos valores da instituição.
Uma tarefa complexa, atendendo a que poderia redundar em abusos das autoridades como acabaria por ocorrer em algumas localidades, com o padre de Santiago de Bougado em exercício a protestar contra aquela prática, afirmando que era um atentado ao legítimo direito da Igreja sobre os seus bens.
Acabaria por não cooperar nesse ato e inclusivamente pede que seja escrito o respetivo auto a condenar esta sua atitude.
Um padre de coragem diga-se de passagem…



