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Ediçáo 728

Memórias e Histórias da Trofa: Os trofenses na Associação Comercial e Industrial de Santo Tirso

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O impacto do desenvolvimento económico da Trofa é uma marca com várias décadas e até pelo menos um século, não ignorando que anteriormente o tecido económico era sustentado pelo setor agrícola.

Um concelho progressivo que ia dando cartas no panorama nacional que ia beneficiando da sua indústria e também das inúmeras oficinas dispersas pelo seu território.

O desenvolvimento económico não se centrava somente na sede de concelho em Santo Tirso e nesse propósito para tentar agregar os membros que a distância geográfica procurava afastar, fez nascer a Associação Comercial e Industrial de Santo Tirso que tinha como fundador Augusto da Costa Gonçalves.

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Ediçáo 728

Je suis Anjinho

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Bem cedo, antes das oito da manhã, saio de casa. Destino? O costumeiro de segunda a sexta, o local de trabalho. Antes disso alguns procedimentos e reacções habituais sucedem-se, começando pelo tocar do despertador, de seguida odeio-o durante breves segundos, mas sem nunca me passar pela cabeça “desfazê-lo” pelo facto de não me agradar, levanto-me e tomo o pequeno almoço. Até aqui, tudo dentro da legalidade, até ao momento em que saio de casa… continuo com o velho hábito conservador de trancar a porta e manter a minha casa protegida!

Como ando “desalinhado” da corrente imposta do “Tens Mais de Dezoito Anos Mas Tens Que Continuar a Acreditar no Pai Natal”, estou identificado pela PPC (Polícia do Politicamente Correcto), como prevaricador e tenho um agente à porta de casa a vigiar-me, como se deviam vigiar terroristas, a obrigar-me a cumprir a lei…ou seja, deixar a porta aberta, com consequências severas, mas só para mim, cidadão comum!

Ao final da tarde, regresso a casa. Estaciono, saio do carro e o agente da PPC olha-me como se olha para um malandro. Para não deixar dúvidas, levanto o braço onde tenho um saco com algumas compras e, a medo, digo-lhe, “Paguei tudo!”. A única coisa boa de sair de casa e deixar a porta aberta é que quando chego não tenho trabalho a abri-la…nem os outros.

Entro e pouso as compras na cozinha. Vou para a sala e encontro um grupo, homem, mulher e crianças, todos morenos e feições bem diferentes das minhas. Mas o “à vontade” do grupo era tão grande, numa casa que não era a deles, que pensei que era a família do meu primo José Alberto, que ficam todos muito morenos no Verão. Perspicaz como sempre sou, para tirar dúvidas, disse – Ó José Alberto, tira os pés de cima do sofá!
Perante a falta de resposta, noutro golpe de perspicácia, pensei, “Este não é o meu primo. E aquela mulher e as meninas, com lenço na cabeça, não são a mulher e as filhas!”

Nos tempos em que trancava a porta de casa, só lá entrava quem eu convidava, tendo eu o dever de ser hospitaleiro e o convidado tinha que respeitar três regras básicas – não alterar a decoração da casa, não parti-la e respeitar quem lá vive…de resto, toda a diversidade era bem-vinda.

Ainda com alguns resquícios desses tempos, em que o meu sobrinho dentro de minha casa tirava o chapéu, pedi à senhora e ás meninas que tirassem o lenço. Gritaram coisas que não percebia e o homem atirou-me um bibelot, muito bonito, que tinha comprado no dia anterior, que só não me acertou na cabeça, graças à minha boa esquiva.

Saí de casa e contei o sucedido ao agente da PPC, que me respondeu – Claro, você insultou-o! Merecia era levar com uma pedra no meio da testa. A sua sorte é que são boa gente!

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Regressei para dentro e com o passar do tempo sentia-me cada vez mais um estranho em minha casa. Os meus amigos deixaram de aparecer, primeiro aqueles que gostavam de falar livremente e com o tempo, todos os outros, não aguentando a aplicação da sharia (em minha casa) impondo comportamentos medievais e o tratamento subalterno dado às mulheres da família lá instalada. Queimaram os meus livros, partiram a televisão e o meu rádio, coisas do diabo! Agora, em casa, passo o tempo a observá-los…é a vida!

A mulher deu novamente à luz…um rapaz, a alegria suprema do pai, já que as filhas eram peças acessórias usadas apenas para o servir! O agente da PPC, apressou-se a dizer que como a criança nasceu em minha casa, a minha casa ia passar a ser dela também.

  • Vai ser educada por mim, segundo os Direitos Humanos Universais? – pergunto, para me certificar que a criança iria ter uma educação que validasse o sentimento de pertença ao sítio onde nasceu.
  • Nem pensar, é árabe e muçulmano e vai ser educado de forma intolerante, como se vivesse na “casa” dos pais dele! – responde o agente.
    Desgastado, vou para a varanda ver quem passa e avisto um amigo de infância, o Alan, que saúdo, com uma abordagem jovem:
  • Olá Alain, tudo baril?
    Antes de ouvir a resposta do meu amigo, sou puxado para dentro da sala pela família invasora, que me grita em uníssimo:
  • TU DISSESTE QUE ALÁ É UM BARRIL??!!!

Sem direito a defesa, fui condenado a mil chicotadas, aplicadas em suaves doses de cinquenta por semana…porque é tudo boa gente!
Je suis Anjinho…!

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“Nunca ponham em causa o trabalho que está a ser feito pelas equipas de saúde pública”

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Depois de quase duas décadas a trabalhar na unidade de Santo Tirso do Centro Hospitalar do Médio Ave, Nuno Carvalho abraçou um novo desafio profissional. Da realidade dos cuidados hospitalares migrou para a dos cuidados primários de saúde, um mundo que, sendo dentro da mesma área, é novo, principalmente para quem assume funções diretivas em plena pandemia de Covid-19.

Nomeado, a 16 de outubro, novo diretor executivo do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Santo Tirso/Trofa, o engenheiro hospitalar não esconde que ficou “preocupadamente admirado” com o trabalho desenvolvido pela equipa de saúde pública e por isso considera que é importante não colocar “em causa” o que está ser feito neste período de agravamento da pandemia.

Com uma vasta experiência no voluntariado, tendo sido presidente da direção da Liga dos Amigos do Hospital de Santo Tirso, vogal na direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Tirsenses e presidente da assembleia-geral da Casa do Pessoal do Hospital de Santo Tirso, Nuno Carvalho é, atualmente, presidente da direção da delegação de Santo Tirso da Cruz Vermelha Portuguesa e deverá ser por isso que defende a ideia que, neste momento, a união de esforços é um dos caminhos a trilhar para aliviar a pressão das unidades de saúde. Convocar entidades com proximidade à população, como farmácias e juntas de freguesia, é, por conseguinte, um dos objetivos para o mandato, como revelou ao NT, em entrevista concedida uma semana depois de assumir funções, na sede do ACES, em Santo Tirso.

O Notícias da Trofa (NT): Como é que surge este desafio de liderar a direção executiva do ACES Santo Tirso/Trofa?
Nuno Carvalho (NC):
Foi um desafio que me foi lançado, há alguns meses. O processo foi mais longo do que se estava à espera, porque há um conjunto de burocracias a cumprir. Fui avaliado pelo dr. Carlos Nunes, presidente da ARS-N, numa primeira conversa que tivemos, tendo considerado, depois, que eu tinha as características necessárias para o desempenho da função. E embora seja por proposta dele ao gabinete da senhora ministra da Saúde a indicação de um diretor executivo do ACES; há outro trabalho mais burocrático que é feito pela CRESAP (Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública), que avalia os dirigentes com base numa análise curricular, numa entrevista, que, fruto dos momentos em que vivemos, foi feita de forma não presencial e num pequeno inquérito em que se determina as soft skills dos candidatos.
Passando estas três fases, fui considerado como adequado para exercer a função e o gabinete da senhora ministra acabou por me nomear.

NT: Seria mais fácil aceitar o desafio num contexto pré-Covid-19?
NC:
Quanto maior o risco maior é a probabilidade do sucesso. Esta é uma frase de um antigo diretor-geral, com quem tive oportunidade de trabalhar e com quem aprendi muito. O risco é elevado, neste momento, o ACES Santo Tirso/Trofa tem bastante notoriedade, se houvesse um ranking, ele seria um dos melhores do Norte do País, senão do País. E como tal, tenho a noção clara que vou estar a dirigir uma equipa de exceção. A realidade é nova para todos nós, tenho a noção de que estamos com as equipas esgotadas, que têm feito muito trabalho, e que normalmente não é visto pela comunidade, mas não pode ser visível, porque é dentro de portas. As nossas equipas de saúde pública têm sido incansáveis e não conseguem responder a todos os problemas que temos. E com o receio de poder não nomear alguém, porque são 14 unidades que temos, a equipa de saúde pública talvez seja a face mais visível, a que talvez tenha mais trabalho e a que seja menos reconhecida.

NT: E que trabalho é esse que as equipas de saúde pública têm tido, principalmente nos últimos dias, com o agravamento da pandemia?
NC:
Numa fase pré-Covid, a unidade de saúde pública tinha um conjunto de competências que lhe são exigidas por lei, atingindo-as com competência. Esta fase que vivemos, com uma segunda vaga mais complexa e demasiado violenta e rápida, cria nas equipas alguma dificuldade de resposta. Posso dizer que tomamos a decisão de encerrar a nossa unidade de saúde pública ao atendimento presencial. Aparentemente, parece ser um contrassenso, mas acreditamos que esta é melhor forma de podermos servir melhor a população. Qualquer pequena alteração na unidade provoca a paragem de seis a oito profissionais para se resolver um problema mais pontual e não vou dizer que eles possam não ter alguma razão subjacente, mas o facto de nós evitarmos o contacto presencial vai-nos permitir prestar um serviço um pouco mais eficiente e conseguirmos evitar que se gerem mais atrasos.
Os ACES são o “front office” enquanto a Linha SNS24 está mais em back office e todas as necessidades da população têm de ser resolvidas nas unidades de saúde pública. Ora, todo este acréscimo de trabalho veio fazer com que equipas excelentes – e que não o deixam de ser durante este tempo – fiquem com uma imagem menos boa no seio da comunidade. Se há algo que eu posso pedir à população é que nunca ponham em causa o trabalho que está ser feito pelas equipas de saúde pública, porque ao fim de uma semana, eu próprio, que venho de um ambiente hospitalar onde estive 20 anos, fiquei admirado com a quantidade de trabalho não visível que é feito dentro desta casa. Preocupadamente admirado, porque sei que as equipas estão num processo de saturação e com asa quais temos de trabalhar com alguns pezinhos de lã. E se pensarmos que a nossa área é composta por 120 mil utentes e nós temos quatro ou cinco reclamações, afinal, estaticamente, atingimos os nossos objetivos. Lembro-me das palmas, há uns meses, aos profissionais de saúde, numa altura em que nós não sabíamos o que estávamos a viver e este momento será, talvez não necessariamente para bater palmas, mas para agradecer aos profissionais de saúde sempre que os contactam, porque eles são a última barreira de uma batalha que travamos contra um inimigo imprevisível e invisível.

NT: Já teve oportunidade de tomar o pulso da realidade das diferentes unidades do ACES?
NC:
Estou há cerca de uma semana em funções. Os primeiros dias estiveram mais relacionados com questões burocráticas, já tive contacto com a maior parte da população que trabalha na sede, aqui em Santo Tirso e temos mais quatro unidades na área de Negrelos e cinco na área da Trofa e de uma forma calma e ponderada irei visitá-las todas, dando-me a conhecer aos coordenadores e às pessoas que lá trabalham. Não quero alterar as rotinas, que já estão muito alteradas devido à Covid-19 e aproveitar as reuniões que fazem para marcar presença, apresentar-me, lançar alguns desafios e pôr-me à disposição para o que for necessário, dentro das competências que me estão confiadas por força da legislação.

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NT: É uma pessoa externa ao ACES. Tem algum receio que essa questão possa causar algum tipo de resistência nas equipas das diferentes unidades?
NC:
Não. Os cuidados primários de saúde e os cuidados hospitalares estão, muitas vezes, de costas voltadas. Talvez por eu conhecer tão bem a realidade dos cuidados hospitalares e, a breve prazo, vir a conhecer também a realidade dos cuidados primários, me possam ver como uma oportunidade. Talvez ajuda a quebrar algumas barreiras que existem entre as duas áreas, que não devem ser separadas, mas sim complementares. E se conseguirmos essa complementaridade, de certeza que haverá alguém a ganhar muito, que é a população que nós servimos e esse será um dos desafios.

NT: Estamos numa altura, que, por força das circunstâncias, não permitirá grandes planeamentos a longo prazo, mas que projetos idealizou executar para este mandato?
NC:
Eu propus-me, inicialmente, em criar condições e garantir uma maior facilidade de acesso aos cuidados hospitalares de saúde. Ou seja, tentar diluir as tais barreiras que muitas vezes se criam entre os cuidados de saúde primários e os hospitalares.
Nós temos o Centro Hospitalar do Médio Ave, com um Hospital de Santo Tirso, em que, com os devidos protocolos, poderá complementar, com o ACES, um conjunto de serviços à população, para evitar deslocações ao Porto ou a Braga. Com isso, acho que temos muito a ganhar e, na primeira linha, ganhará o ACES, com a notoriedade que conseguirá, garantindo uma facilidade de acesso aos cuidados hospitalares. Ganhará o próprio hospital, que terá acesso aos mesmos serviços e poderá ampliar as suas linhas de produção, mas sobretudo ganhará a população que poderá encontrar uma interligação entre as duas áreas de saúde, que se vão complementar.
A segunda área a que me propus, e que poderá ser absurda neste momento em que combatemos uma pandemia, será tentar criar condições para que todos os núcleos do ACES tenham acesso a saúde oral. Neste momento, temos um médico dentista a atuar na área de Negrelos e é um objetivo para as áreas de Santo Tirso e Trofa, que se poderá equacionar a muito curto prazo.
A equipa de cuidados paliativos será uma outra área que gostávamos de ver aprovada pela ARS.
Há, em cima da mesa, a possibilidade de termos equipamentos de imagiologia no ACES e iremos lutar por isso. Também aí nos podemos complementar à unidade hospitalar e retirar-lhe alguma pressão.
Um outro desafio que temos é a nossa capacidade de comunicarmos com a comunidade, por forma a que esta esteja informada de todas as pequenas alterações que são feitas. Este aspeto é importante para não defraudarmos os utentes nem lhes causarmos falsas expectativas.
Neste meu processo de governação do ACES irá ter um papel fulcral o trabalho de interligação com os municípios, juntas de freguesia e farmácias para chegar a uma população que tem mais dificuldade com as novas tecnologias, como o email, uma das ferramentas que usamos cada vez mais e que pode ser uma excelente alternativa para desentupir as linhas telefónicas, que estão constantemente lotadas.
Este será um processo que não pode ser lento, terá de ser discutido de forma rápida, porque não temos tempo para tomar decisões. Provavelmente, iremos celebrar um conjunto de protocolos com as juntas de freguesia e farmácias, que nos queiram ajudar a apoiar as suas populações, uma vez que têm equipamentos informáticos disponíveis e as competências para as utilizar dentro de portas. Desta forma, conseguiríamos tirar alguma pressão de utentes nas nossas unidades, que nos seria útil, para fazer o trabalho relativo à Covid-19 e garantir que os recursos mínimos eram salvaguardados.

NT: Sobre o novo centro de saúde que está a ser construído em Santiago de Bougado, qual o feedback que recebeu acerca do ponto de situação da obra?
NC:
Ainda tenho pouca informação, porque ainda não tive oportunidade de falar com o engenheiro que acompanha a obra. Sei que houve alguns problemas iniciais, que atrasaram, em cerca de um ano, o prazo de conclusão da obra, mas ainda não estou munido de informação detalhada. Contudo, uma coisa é certa, iremos fazer os possíveis e impossíveis para que a obra avance a bom ritmo, fazendo pressão junto da ARS-N.

NT: Ao nível de pessoal médico, como está o ACES?
NC:
Nós temos um misto. A população médica está em constante mutação, com os concursos dos jovens que fazem a sua especialização em medicina geral e saúde pública, com base nas saídas de médicos por reforma ou mobilidade. Nós tentamos que esses quadros sejam preenchidos. Nesta fase de pandemia, direi com alguma facilidade que temos escassez de recursos, uma vez que temos um quadro que tem de prestar um conjunto de serviços normais e outras tarefas ligadas à situação pandémica, que são complexas e que há oito meses não existiam.
Em termos de quadro, foram colocadas, ontem, duas jovens médicas que irão para a Trofa e estamos à espera, possivelmente já está definido, de quatro enfermeiros. Iremos também tentar reforçar, junto das bolsas da ARS-N, a parte de secretariados clínicos.
Não posso deixar de relevar o trabalho da equipa residente, que tem sido excecional. Sábados, domingos e feriados em casa em teletrabalho, as vezes, até com os próprios equipamentos telefónicos para se manterem contactáveis e contactarem os utentes. O meu trabalho será encontrar soluções que permitam menos stress e algum desafogo nas equipas, o que não será fácil.

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