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Escrita com Norte: Não crentes à espera de milagres

“Não sou religioso, mas que espero por milagres, isso espero!”

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Segundo a Bíblia, os milagres praticados por Jesus de Nazaré estenderam-se até à morte do último apóstolo.


Para quem não é crente, este facto não diz muito, mas para quem é cristão, afirmar e atribuir milagres após a morte de João, não é correto, mas eu condescenderia caso um dia, Zé Cabra, famoso cantor pelo facto de não saber cantar, afinasse uma nota!
Apesar disto, conheço céticos, que esperam mais por milagres do que os crentes, na expectativa divina de que esses milagres superem a sua falta de vontade.
O meu amigo Zé Gordo, detentor desta alcunha desde a primária e que ainda se mantém ajustada ao seu porte físico, desde há anos que quer emagrecer. A vontade e o porte mantêm-se intactos, o que varia quando o vejo é o bolo que ele está a comer, ora uma bola de berlim, ora um napoleão ou uma nata – Estou a tentar emagrecer – diz-me, já o Sr. Manuel, está a reduzir ao tabaco, conta-me, enquanto acende um cigarro com o que está a acabar de fumar…chega a ser místico esperar que as coisas aconteçam sem nada fazer, como o cego, a quem Jesus perguntou – Que queres que eu te faça? – e o cego respondeu – Mestre, que eu veja! – e no mesmo instante ele recuperou a vista.
Atualmente, o Zé Gordo, o Sr Manuel e eu, que quando o meu Sporting é campeão, acredito que o vai ser nos próximos anos, não temos um “Jesus”, para satisfazer as nossas vontades. No meu caso, tenho o Gonçalo, meu sobrinho de doze anos, que me alerta – Tio, agora só daqui a dezanove anos.
Sim, o meu clube é campeão com uma frequência certa como a passagem do cometa Haley nos céus da terra.

Eu, apesar de ser um “não binário” religioso, tenho momentos de espanto comigo mesmo, deixando a razão escapar e o meu mundo é tomado pela fé…como no passado fim de semana.
Deixo o gabinete mais cedo, ao passar junto da Direção de Relações Humanas ponho a mão na porta para entrar e despedir-me, não dos colegas para lhes desejar bom fim de semana, mas para me demitir. Tiro a mão da porta, sem entrar, e vou embora…este foi o meu momento de fé contida. Tomo a direção do ginásio e pelo caminho passo no quiosque, onde a minha amiga Patrícia regista na máquina o meu euromilhões…”Com cem milhões, nunca mais sou acordado pelo despertador para ir trabalhar!”, pensei.
Sábado de manhã. Apesar de ter sabido que o primeiro prémio não saiu em Portugal, confiro número a número e exclamo – Ahh, não saiu! Ainda bem que não me despedi! – o telefone toca, é o meu amigo Joaquim – Calheiros, amanhã tens que vir jogar, senão não ganhamos!
Já há algum tempo que não tenho ido aos jogos da bola com a malta e, apesar da fé depositada em mim, porque sou o melhor (este é o meu momento de fé absoluta), chegou o domingo, jogámos e perdemos.

– Ganhámos para a semana, Calheiros. Vens? – pergunta-me o Quim.
Se um milagre fez o cego ver, a fé do Quim em mim, cega-o.

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– Ok, eu apareço! – respondo-lhe.
Fui para casa e fiquei a aguardar pelas 16h45m, para ver pela octogésima quinta vez o filme, “Titanic”, na esperança que no fim o Leonardo DiCaprio não morra.

Não sou religioso, mas que espero por milagres, isso espero!

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