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Crónicas e opinião

Desabafos de uma Mãe Imperfeita | Há coisas que eles começam a guardar só para eles

Sandra Pinheiro

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Tenho um filho que ainda me conta tudo.

Tem três anos e o mundo ainda cabe quase inteiro nas nossas conversas. Conta-me o que aconteceu há cinco minutos como se estivesse a contar uma história extraordinária. À noite, ainda me chama, ainda procura a minha mão sem pensar.

E tenho outro filho.

O mais velho faz dez anos este mês. E começo a perceber que há coisas sobre ele que eu já não sei.

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Não aconteceu de repente. Foi acontecendo, devagar.

As histórias, que tinha sempre para me contar na hora de ir dormir, foram ficando mais curtas. Aquele relato interminável sobre o seu dia– quem disse o quê, o que aconteceu no recreio, uma coisa engraçada que a professora disse, uma discussão que lhe pareceu importantíssima– já não acontece sempre.

Todos os dias pergunto:

– Então, como correu o teu dia?

– Bem.

– O que fizeste hoje?

– Nada.

E eu ainda tento.

Não porque desconfie ou ache que algo esteja mal. Faço-o porque ainda me lembro do tempo em que sabia quase tudo.

Agora há amigos que eu não conheço pessoalmente, conversas que não ouvi, piadas que provavelmente nem entenderia e pensamentos que ficam só com ele.

E sei que isto é bom.

É o que queremos quando dizemos que queremos filhos autónomos. Queremos que descubram o mundo, que tenham o seu grupo de amigos, que façam escolhas, que aprendam a resolver algumas coisas sozinhos.

Mas há uma diferença entre sabê-lo e senti-lo.

Porque uma coisa é dizer:

“Quero que o meu filho seja independente.”

Outra é perceber que, para isso, ele começa a construir partes de si onde nós já não estamos. E isso custa um bocadinho. Não porque o esteja a perder, mas porque algumas versões dele vão ficando para trás: o menino que contava tudo, o menino que achava que eu sabia todas as respostas, o menino que me vinha chamar só porque tinha algo para contar.

Esta é uma parte estranha da maternidade. Passamos anos a ensiná-los a caminhar e, quando começam a fazê-lo sem a nossa mão, temos de aprender a não correr atrás.

Ainda são pequenos para umas coisas e já são grandes para outras.

Ainda querem colo, mas começam a querer espaço.

Ainda procuram o nosso olhar, mas começam também a procurar outros.

Ainda assim, há algo que continua a ser nosso.

De cada vez que ele está num palco e eu estou na plateia, há um momento em que os nossos olhares se encontram. Ele procura-me no meio de todos aqueles rostos, alguns desconhecidos, e eu sei exatamente o que ele procura. Fazemos o nosso gesto: “amo-te”, em Língua Gestual Portuguesa. Só nós dois. É algo pequeno, quase ninguém à nossa volta percebe. Mas eu vejo qualquer coisa a mudar nele depois disso. Como se, por um instante, bastasse aquele nosso “amo-te” para ele se lembrar de que eu estou ali. E, a partir daí, ele parece ficar pronto. Pronto para enfrentar o palco, os olhares desconhecidos, a vergonha e aquela pequena ansiedade que se sente quando sabemos que há pessoas a olhar para nós.

Ele olha para mim, eu digo-lhe “amo-te” com as mãos, ele retribui. E vai.

Esta é uma das coisas que mais me emociona nesta fase. Porque percebo que, mesmo quando já não precisa que eu esteja ao lado dele, ainda precisar de saber que eu estou. Não para fazer por ele ou para lhe dizer o que fazer. Só para lhe lembrar que tem onde voltar.

E aqui eu aprendo uma nova forma de estar.

Aquele “está tudo bem” nem sempre precisa de ser seguido por outra pergunta. Pode estar apenas a ser um dia normal, pode ser cansaço, pode ser vontade de guardar algo só para si. E eu quero que ele saiba que não precisa de me contar tudo para eu estar aqui. Quero que saiba que pode ter coisas só dele, que pode descobrir quem é sem que eu precise de acompanhar cada passo. Porque estar presente não é saber tudo. Por vezes, é simplesmente estar disponível.

Tenho um filho de três anos que ainda me conta o mundo inteiro e outro, quase com dez, que começa a guardar algumas partes do mundo só para ele.

Talvez por estar a viver as duas fases ao mesmo tempo consigo sentir melhor esta passagem.

Num dia, há uma mão pequenina a procurar a minha. No outro, há uma mão que se solta para brincar. E eu quero aproveitar as duas coisas.

O colo de agora e a autonomia que começa a chegar.

As histórias intermináveis e os silêncios novos.

Porque crescer não é deixar de precisar da mãe, mas sim começar a precisar de forma diferente.

E ser mãe é aprender a reconhecer essa mudança sem a tentar travar.

O meu menino vai fazer dez anos. Ainda é o meu menino. Mas já começa também a ser um rapaz que eu tenho de aprender a conhecer de outra forma. E eu ainda estou a aprender.

Não quero ficar agarrada à versão dele que já conheço tão bem. Quero descobrir quem ele se está a tornar, mesmo que, para isso, tenha de aceitar que nem todas as histórias me vão chegar. Talvez essa seja a parte mais difícil e também a mais bonita. Perceber que ele começa a ter um mundo só dele e, ainda assim, saber que existe um lugar onde pode sempre voltar.

Sei que terei alturas em que me custará vê-lo crescer… E, quando sentir saudades daquele menino que me contava tudo, quando houver dias em que me apetecer perguntar mais uma vez “mas o que aconteceu?” só para sentir que ainda conheço cada pedacinho do mundo dele, quero lembrar-me de que crescer é bom. Que é para isso que o estamos a preparar. Para que, um dia, ele possa ir mais longe do que nós. Para que tenha o seu mundo, as suas pessoas, as suas escolhas e as suas histórias.

E que eu não preciso de ir com ele para continuar a ser casa. Porque sei que ele sabe.

Sabe que pode voltar. Sabe que pode contar. Sabe que pode pedir colo, mesmo quando já for grande demais para caber no meu.

É esta a liberdade que lhe quero dar: a certeza de que pode ir. Porque, quando quiser voltar, eu estarei aqui.

Tenha dez, tenha vinte, tenha quarenta…

Haverá sempre um lugar onde ele não precisa de explicar nada, não precisa de ser forte, não precisa de saber o que fazer. Pode simplesmente ser meu filho. E eu continuarei a ser casa e colo.

Por Sandra Pinheiro
sandrapaisfonseca@gmail.com
@sandrapinheiro.comalma

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