Com as linhas que se seguem não pretendo emitir qualquer juízo sobre a decisão do governo venezuelano de não renovação da licença de um canal privado de televisão, apenas dar a conhecer alguns factos relacionados com a história daquele canal e com situações semelhantes (ou relacionadas) na América Latina que não mereceram o mesmo relevo nos noticiários do mundo ocidental. 

O Governo venezuelano decidiu não renovar a licença de uma televisão privada (a RCTV) para que continuasse a emitir em canal aberto. Contudo, a RCTV não terá mais sinal de transmissão aberta mas continua na posse de todas as suas instalações e equipamento e poderá transmitir via cabo.

Desde que o presidente do governo da Venezuela anunciou esta decisão que a RCTV desencadeou uma Jaime Togacampanha de envolvimento de diversas estruturas internacionais na condenação desta posição.

Nas várias notícias apenas ouvi referências ao facto deste canal televisivo ter tido um papel de apoio ao golpe militar contra o governo de Hugo Chávez. No entanto, aquando do mesmo golpe, não há memória de que se tenha feito tanto alarido à decisão dos golpistas de encerrar o canal estatal.

Assim como, todas as noticias emitidas recentemente sobre isto passaram ao lado da história do canal dirigido por Marcel Granier que por sinal é rica em "casos" destes. Vejamos alguns deles:

– Em 1976, Andrés Pérez, governante social-democrata, suspendeu o canal durante três dias por difundir «notícias falsas e tendenciosas»;

– Em 1980, Herrera Campins, governante democrata-cristão, fechou-o por 36 horas acusando-o de «sensacionalista»;

– Em 1981 voltou a ser posto fora do ar por emitir cenas de pornografia «hard core»;

– Andrés Pérez voltou a encerrá-lo durante 24 horas «por ridiculizar o presidente de forma humilhante»;

– Há alguns meses apresentou, em horário infantil, uma série de degolamentos numa peça sobre a guerra «contra o terrorismo». 

Mas, bem perto da Venezuela, naquela rica América Latina, o presidente peruano acaba de encerrar (por razões burocráticas) não um canal de televisão, mas sim dois canais de televisão e três estações de rádio: Canal 15, Canal 27, Radio Ancash, Radio Miramar e Radio Armonia.

O que disseram os jornais, as rádios e as televisões portuguesas e ocidentais perante tal decisão?

E os cronistas e fazedores de opinião porque se calaram?

Não estava em causa a liberdade de expressão e de informação? 

Repito o propósito de não querer emitir qualquer juízo sobre a decisão do governo venezuelano, mas quando os Órgãos de Comunicação Social dão tanto destaque a esta não renovação de licença a um canal de televisão privado, o mínimo que lhes podemos exigir é que contem a verdade toda, o lógico é que quem tem o dever de informar o faça na plenitude e com isenção.

Independentemente da opinião de cada jornalista, independentemente da orientação editorial de cada jornal, rádio ou televisão portuguesa, não têm o direito de informar parcialmente dos factos. 

A liberdade de informação e a liberdade de expressão não pode ser desligada do sentido de responsabilidade de cada Órgão de Comunicação Social e do seu dever para com a sociedade portuguesa.

Neste caso, possivelmente como em muitos outros, apenas nos contaram parte da notícia.

Neste caso, possivelmente como em muitos outros, esconderam situações de maior relevo que aconteceram em países com governos de orientação política diferente. 

Que legitimidade tem esta gente para falar em liberdade de informação? 
 
 
 

Jaime Toga

http://jaimetoga.blogspot.com/