.Trofa de há 80 anos na Casa da Cultura

A Trofa de há 80 anos atrás pode ser vista na Casa da Cultura. Os costumes, as tradições e os trajes de antigamente foram recordados por Carlos Campos, um trofense, que ofereceu dois DVD que contêm imagens do concelho de há quase um século.

Um Santiago de Bougado sem indústria nem comércio. Uma festa de Senhora das Dores do tempo das velas, que se enchia de balões para iluminar o recinto e que acolhia a feira das loiças de Barcelos ou os grandes espectáculos com bandas de música. A Trofa de antigamente, que pode ser vista agora na Casa da Cultura, graças à doação de Carlos Campos, um bougadense de 93 anos, que ofereceu à actual biblioteca municipal dois DVD’s que contêm imagens da Trofa de há 80 anos atrás, resultaram de um trabalho “árduo” que foi “solicitado pelas professoras da escola de Cidai”. A este pedido, Carlos Campos não se poupou “em esforços para tentar relatar da melhor maneira o que era o povo e a vivência da gente da lavoura”.

“Um mundo muito diferente do nosso” está retratado nas imagens recolhidas por Carlos Campos e que deixa saudades ao trofense que se considera o “camisola amarela” do concelho em termos de idade. No entanto, António Pontes, vereador da Cultura da Câmara Municipal da Trofa, atribui-lhe muitos mais motivos para a alcunha: “é um camisola amarela pela doação à vida pública e de trabalho que sempre prestou à comunidade e pela presença de espírito, com esta bonita idade e lucidez que manifesta”.

O autarca valorizou a doação, caracterizando-a de “valor incalculável”, que permitirá “ter sediado para as gerações vindouras aquilo que era a vida de há 80 anos”.

Nas imagens podem ser vistos os trajes utilizados há quase um século atrás e alguns dos utensílios da lavoura como o arado, a grade de dentes ou o carro dos bois.

Carlos Campos recorda “com saudade” os tempos de criança e adolescente, onde se valorizavam as festas tradicionais e os jogos do peão ou da roda, que se fazia na junto ao Catulo. Quanto ao futebol, esse, “veio muito mais tarde” e ainda se recorda de ver o primeiro campo no Parque Nossa Senhora das Dores.

Os automóveis, “eram raros. Apareciam de vez em quando ao domingo e à quarta-feira vinha um camião do Castêlo (da Maia) com as ‘galinheiras’, para a feira de Famalicão”, contou.

O comércio era inexistente. Na feira, “trocava-se uma quarta de feijão ou milho por calçado e vestuário”, contou Carlos Campos que lembrou ainda a abertura da primeira loja na Trofa, “a do Zé Maria Machado”.

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O mundo de hoje, segundo o trofense, é muito diferente do de ontem. “A vida era mais comunitária, havia mais respeito pelas pessoas. Ainda hoje recordo com saudade um cantoneiro, com uma simples fardeta de ganga mandava parar um carro de bois ou de cavalos, para lhe passar uma multa e não havia insultos. Hoje um agente da GNR é insultado e até é morto”, referiu.

“Se um rapaz se apresentasse como uma bicicleta inglesa, com umas correntes de ouro, diziam as mulheres ‘quem será o ricaço?’. É como hoje ter um Mercedes. As raparigas iam para as romarias com o seu cordão em ouro. Hoje nem dentro das ourivesarias”, contou Carlos Campos.

Esta doação vai juntar-se a outros espólios resultantes do trabalho de recolha “permanente” que tem sido efectuado pela Casa da Cultura. A compilação já conseguida resultou “de um trabalho feito junto de privados e particulares, sobretudo ao nível de documentos históricos, aos quais procuram obter doações ou registos, através de fotocópias ou filme”, referiu António Pontes.

A Casa da Cultura está também a trabalhar junto de espólios editados pela livraria Sólivros e que foram feitos por vários autores da Trofa. “Estamos a fazer tudo para que estes trabalhos não se percam, porque o passado da Trofa ajuda-nos a perceber o que somos hoje e o que seremos no futuro”, sublinhou.