Fique ligado

Trofa

“Aprendemos matemática e geografia, mas também devemos aprender a salvar vidas”

Avatar

Publicado

em

Dois estudos desenvolvidos pela investigadora e profissional de saúde Mónica Azevedo, natural de S. Romão do Coronado, foram selecionados para apresentação no European Emergency Medicine Congress (EUSEM) 2026, em Paris. Em entrevista, a autora explica as conclusões dos trabalhos sobre o ensino do Suporte Básico de Vida entre jovens e o impacto do burnout nos profissionais de emergência, defendendo mudanças estruturais na formação, na educação e na organização dos cuidados de saúde.

Jornal do Ave (JA): Como surgiu a ideia para o estudo do Suporte Básico de Vida e que metodologia foi utilizada?
Mónica Azevedo (MA):
A ideia surgiu de uma constatação básica: a sobrevivência em situações de paragem cardiorrespiratória depende frequentemente da intervenção precoce de testemunhas e, apesar das recomendações europeias para a implementação do Suporte Básico de Vida (SBV) nas escolas, existia pouca informação sobre o nível de conhecimentos dos estudantes portugueses. Para explorar esta realidade, realizei um estudo observacional transversal envolvendo 174 estudantes dos 12 aos 18 anos. Foi aplicado um questionário estruturado para avaliar conhecimentos de SBV, reconhecimento da paragem cardiorrespiratória, utilização do Desfibrilhador Automático Externo (DAE), confiança para atuar em situações de emergência e experiências prévias de formação nesta área.
Enquanto profissional de emergência e formadora, é difícil aceitar que uma pessoa possa perder a vida por ausência de conhecimentos básicos numa situação em que alguém ao lado poderia ter feito a diferença. E é importante lembrar que esse “alguém” pode, inclusive, ser um dos nossos familiares.

JA: Quais foram as principais lacunas identificadas nos conhecimentos de Suporte Básico de Vida?
MA:
Os resultados revelaram lacunas significativas e traduzem uma realidade preocupante na formação dos jovens: apenas cerca de 20% dos estudantes identificaram corretamente como iniciar manobras de Suporte Básico de Vida e menos de 3% referiram saber utilizar um Desfibrilhador Automático Externo (DAE), um equipamento que pode ser determinante para salvar vidas em situações de paragem cardiorrespiratória.
Além disso, verificou-se uma baixa confiança para atuar perante uma emergência, o que demonstra que existe uma diferença importante entre a vontade de ajudar e a preparação efetiva para agir de forma correta.

JA: Houve algum resultado que a surpreendeu particularmente?
MA:
O que mais me surpreendeu foi a discrepância entre a disponibilidade dos jovens para ajudar e o seu nível real de preparação. A maioria reconhece a importância do tema e apoia a introdução da formação nas escolas, mas os conhecimentos práticos e a confiança para atuar continuam a ser reduzidos.
Foram inúmeros os relatos que evidenciavam receio de prestar socorro e muitos deles traduziam experiências reais em que tiveram de o fazer sem qualquer conhecimento prévio; em alguns casos, essas experiências foram descritas como eventos traumáticos.
Em média, formo cerca de 400 formandos por ano e posso dizer que, em cada 10 formandos, há frequentemente 1 ou 2 que relatam exatamente isto: ter vivido a necessidade de agir e não saber o que fazer.
Talvez seja precisamente isso que mais me preocupa: muitos jovens querem ajudar, mas quando chega o momento decisivo não têm as ferramentas necessárias para o fazer e, numa emergência, alguns minutos podem fazer toda a diferença entre a vida e a morte.

Publicidade

JA: Considera que as escolas portuguesas estão preparadas para ensinar estas competências?
MA:
Muitas escolas já desenvolvem iniciativas pontuais de educação para a saúde, mas a implementação do SBV continua a ser muito desigual e pouco consistente.
Creio que, mais do que avaliar se as escolas estão preparadas, importa criar condições para que esta formação seja integrada de forma estruturada, com recursos adequados, materiais apropriados e formadores qualificados.

JA: Defende que a formação em Suporte Básico de Vida deve ser obrigatória no currículo escolar?
MA:
Sim, defendo a 100%. A evidência internacional demonstra que as crianças e os jovens conseguem aprender estas competências e retê-las ao longo do tempo. Desta forma, introduzir o SBV no currículo escolar permitiria aumentar a literacia em emergência, melhorar a resposta da comunidade perante situações críticas e, potencialmente, salvar vidas. Costumo dizer que aprendemos matemática, história e geografia porque são importantes para a vida. Mas saber reconhecer uma paragem cardiorrespiratória, pedir ajuda e iniciar manobras de reanimação pode literalmente salvar uma vida.
Por isso, considero que estas competências devem ser encaradas como uma competência básica de cidadania.

JA: Que impacto poderia ter uma formação generalizada nesta área junto das crianças e jovens?
MA:
Poderia ter um impacto muito significativo. Uma população mais preparada para reconhecer uma emergência, iniciar compressões torácicas e utilizar um DAE aumenta a probabilidade de sobrevivência em casos de paragem cardiorrespiratória. Além disso, promove uma cultura de responsabilidade cívica, solidariedade e ajuda ao próximo.
Recentemente, vimos ganhar destaque a história do pequeno Rodrigo, que auxiliou de forma exemplar a mãe numa situação de emergência. Foi justamente considerado um herói. Mas a verdadeira questão é: por que razão continuamos a considerar extraordinário aquilo que deveria ser uma competência acessível a todos os cidadãos?

JA: Como compara a realidade portuguesa com a de outros países europeus?
MA:
Existem diferenças muito significativas entre os países europeus no que diz respeito à formação da população em Suporte Básico de Vida.
A experiência internacional demonstra que, quando o SBV é encarado como uma competência básica de cidadania e integrado de forma sistemática no percurso escolar, aumenta a probabilidade de intervenção por testemunhas e, consequentemente, a sobrevivência das vítimas de paragem cardiorrespiratória.
Os países nórdicos, nomeadamente a Noruega, a Dinamarca e a Suécia, são frequentemente apontados como referências internacionais nesta área.
Na Noruega, por exemplo, o ensino de primeiros socorros e SBV faz parte do currículo escolar há várias décadas, tendo sido introduzido ainda na década de 1960. Atualmente, estima-se que cerca de 90% da população tenha recebido formação em reanimação cardiopulmonar ao longo da vida.
Na Dinamarca, a formação em SBV foi integrada nas escolas e passou também a ser obrigatória para a obtenção da carta de condução. Ao longo dos últimos anos, o país registou um aumento muito expressivo das taxas de reanimação iniciada por testemunhas, que passaram de cerca de 20% para mais de 75%, acompanhado por melhorias significativas na sobrevivência após paragem cardiorrespiratória.
Portugal tem vindo a evoluir positivamente e existem iniciativas muito meritórias desenvolvidas por escolas, instituições de saúde e associações. No entanto, quando comparado com os países mais avançados nesta matéria, continua a existir margem para uma implementação mais uniforme e estruturada da formação em SBV junto das crianças e jovens.
Os resultados observados nos países nórdicos mostram que não estamos perante uma utopia ou uma medida difícil de implementar. Estamos perante uma decisão de política educativa e de saúde pública.
Os exemplos existem, os resultados são conhecidos e os benefícios estão demonstrados.
Na verdade, a questão já não é saber se a formação em Suporte Básico de Vida nas escolas funciona. A evidência internacional demonstra claramente que funciona. A verdadeira questão é saber quanto tempo mais estamos dispostos a esperar para garantir que todos os jovens tenham acesso a esta formação.

JA: O que a levou a investigar a relação entre burnout e segurança do doente?
MA:
O burnout é frequentemente analisado apenas como um problema de bem-estar dos profissionais. No entanto, a literatura científica tem vindo a demonstrar que também pode influenciar a tomada de decisão, a comunicação, o trabalho em equipa e, consequentemente, a segurança dos doentes.
Em contextos de emergência pré-hospitalar, onde muitos profissionais acumulam horas e horas de trabalho e onde as decisões são tomadas sob pressão e em segundos, compreender esta relação torna-se particularmente relevante.
Enquanto profissional da área, fui observando ao longo dos anos o impacto que o desgaste emocional, a sobrecarga e a fadiga podem ter nas equipas. Presenciei situações em que excelentes profissionais, altamente competentes e experientes, enfrentaram dificuldades de desempenho ou cometeram lapsos em momentos de elevada pressão. Não por falta de conhecimento ou capacidade técnica, mas porque ninguém é imune aos efeitos do cansaço acumulado, do stress crónico e da exaustão emocional.
Isso levou-me a questionar não apenas como o burnout afeta os profissionais, mas também de que forma pode influenciar os cuidados prestados aos doentes. Foi precisamente essa preocupação que motivou a realização deste estudo.

JA: Quais foram as principais conclusões do estudo?
MA:
Os resultados demonstraram níveis significativos de burnout entre profissionais de emergência pré-hospitalar e evidenciaram uma perceção clara de que esse desgaste influencia a tomada de decisão e aumenta o risco de erro. O estudo identificou níveis moderados a elevados de burnout em 68% dos participantes; 64% reportaram um impacto negativo na tomada de decisão clínica e 72% referiram um aumento da perceção do risco de erro. Este dado é particularmente relevante em contextos onde as decisões são tomadas em segundos e podem ter consequências diretas na vida dos doentes.
Num contexto como o português, marcado por escassez de recursos humanos, dificuldade de retenção de profissionais e crescente pressão dos serviços, estes resultados merecem uma reflexão séria porque reforçam a ideia de que o burnout não deve ser encarado apenas como um problema de saúde ocupacional ou de bem-estar dos profissionais – os dados sugerem claramente que pode também ter implicações relevantes para a qualidade e segurança dos cuidados prestados.
Em última análise, quando falamos de burnout não estamos apenas a falar dos profissionais, estamos também a falar das condições necessárias para garantir cuidados seguros, eficazes e de qualidade aos doentes.
E, talvez a principal conclusão seja precisamente esta: cuidar dos profissionais não é apenas uma questão de valorização humana, é também uma estratégia fundamental para garantir cuidados mais seguros e de melhor qualidade.

JA: De que forma o burnout pode afetar a tomada de decisão em situações de emergência?
MA:
O burnout pode reduzir a capacidade de concentração, aumentar a fadiga mental, dificultar o processamento de informação e comprometer a avaliação de situações complexas.
Em contexto de emergência, as decisões têm frequentemente de ser tomadas em segundos, muitas vezes com informação incompleta e sob elevada pressão. Na prática, exige pensar e decidir em simultâneo. Quando existe desgaste emocional ou fadiga acumulada, pode tornar-se mais difícil priorizar informação, antecipar riscos ou manter níveis elevados de atenção ao longo de um turno exigente. Isto não significa que os profissionais deixem de ser competentes, mas sim que o desempenho humano é influenciado pelas condições em que o trabalho é realizado.

JA: O burnout continua a ser um problema subestimado no setor da saúde?
MA:
Sem qualquer tipo de dúvida. Durante muitos anos existiu a ideia de que trabalhar sob pressão fazia parte da profissão e que os profissionais de saúde deveriam ser capazes de suportar cargas emocionais e operacionais muito elevadas sem consequências. Felizmente, essa visão tem vindo a mudar, mas ainda persiste em muitos contextos.
Apesar da crescente atenção ao tema, ainda existe uma tendência para encarar o burnout como uma questão individual, quando na realidade resulta frequentemente de fatores organizacionais, escassez de recursos, pressão do sistema, exigências operacionais e condições de trabalho particularmente exigentes.
Na realidade do universo da saúde, os profissionais de saúde enfrentam frequentemente equipas reduzidas, turnos exigentes, acumulação de funções, dificuldade de conciliação entre vida pessoal e profissional e uma crescente complexidade dos cuidados prestados; quando estas condições se prolongam no tempo, o desgaste deixa de ser um problema individual e passa a ser um problema organizacional!
O risco maior está em normalizarmos sinais de exaustão que nunca deveriam ser considerados normais… é urgente perceber que o burnout não é uma demonstração de fragilidade individual; muitas vezes é precisamente o reflexo de profissionais altamente dedicados que trabalharam durante demasiado tempo em condições particularmente exigentes.
Na minha visão, não devemos perguntar apenas porque é que os profissionais estão em burnout… devemos também começar por questionar que condições estão a contribuir para que isso aconteça.

JA: Que medidas podem as instituições adotar para reduzir este fenómeno?
MA:
O profissional não pode ser visto de forma isolada, mas sim como parte integrante da organização onde trabalha. Por isso, as intervenções mais eficazes combinam estratégias individuais e organizacionais.
Pessoalmente, destacaria a promoção de ambientes psicologicamente seguros, programas de formação interna, apoio à liderança, melhoria da comunicação, ferramentas para gestão de conflitos, valorização das equipas e monitorização contínua dos fatores de risco associados ao desgaste profissional. A minha experiência demonstra também que ouvir os profissionais e envolvê-los nas soluções é fundamental porque existem necessidades identificadas pelas próprias equipas que podem ser abordadas através de formação, melhoria dos processos de trabalho e reforço do apoio organizacional.
Por vezes, menos é mais! Frequentemente esquecemo-nos de olhar para o básico quando isso poderia fazer já uma diferença considerável. O burnout não se combate apenas aumentando a resiliência individual; combate-se também criando organizações mais saudáveis, sustentáveis e capazes de cuidar de quem cuida.

JA: Que consequências pode ter para os doentes a existência de profissionais em situação de desgaste extremo?
MA:
O desgaste extremo pode afetar a comunicação, a atenção aos detalhes, o trabalho em equipa e a capacidade de resposta em situações complexas. Embora a maioria dos profissionais continue a desempenhar as suas funções com elevado compromisso e profissionalismo, a evidência científica sugere que níveis elevados de burnout podem aumentar a probabilidade de erros e comprometer a segurança dos cuidados. Por esse motivo, quando falamos de burnout não estamos apenas a falar dos profissionais, estamos também a falar da qualidade dos cuidados prestados aos doentes e da segurança dos sistemas de saúde.

JA: A formação dos profissionais de emergência tem evoluído nos últimos anos?
MA:
Tem evoluído, mas acredito que essa evolução tem sido mais lenta do que seria desejável face aos desafios que os profissionais enfrentam atualmente.
Quando analisamos os sistemas de emergência pré-hospitalar mais desenvolvidos a nível internacional, verificamos que muitos deles assentam em modelos que incluem profissionais especificamente dedicados à emergência pré-hospitalar, como os paramédicos. Apesar da elevada qualidade técnica dos profissionais que integram o sistema de emergência pré-hospitalar português, não existe atualmente uma carreira de paramédico reconhecida e isso representa uma diferença estrutural relativamente a muitos dos sistemas internacionais que são frequentemente apontados como referência.
Por outro lado, e do ponto de vista histórico, a formação em emergência em Portugal centrou-se sobretudo no desenvolvimento de competências técnicas e procedimentais, algo que continua a ser essencial. Ainda assim, a evidência internacional tem demonstrado que muitos dos incidentes relacionados com a segurança do doente não resultam apenas de falhas técnicas, mas também de fatores humanos, dificuldades de comunicação, problemas de liderança, fadiga, sobrecarga de trabalho e falhas de coordenação entre equipas.
Embora estes temas estejam hoje mais presentes do que há alguns anos, a sua integração na formação continua a ser insuficiente. Em muitas situações, os profissionais recebem excelente preparação técnica, mas menos oportunidades para desenvolver competências relacionadas com tomada de decisão sob pressão, gestão do erro, trabalho em equipa, cultura de segurança e bem-estar profissional.
A realidade portuguesa apresenta desafios adicionais de que já falamos anteriormente e isso torna ainda mais importante investir numa formação que vá além da componente técnica.
Acredito que o futuro da formação em emergência passa precisamente por esta mudança de paradigma: continuar a formar profissionais tecnicamente competentes, mas também preparados para lidar com os fatores humanos que influenciam diariamente a qualidade e a segurança dos cuidados.
Os sistemas de emergência mais desenvolvidos não investem apenas em tecnologia ou equipamentos mas investem, sobretudo nas pessoas… e é nessa dimensão que Portugal ainda tem margem significativa para evoluir.

Edição Papel

Vê-nos no Tik Tok

Publicidade

          Comer sem sair de casa? clique aqui

Farmácia de serviço

arquivo